Escola de Arte Dramática completa 70 anos: “É um momento de reflexão”

Aracy Balabanian, Paulo Betti, Elizabeth Savalla e Sandra Annemberg são alguns dos nomes que passaram pela Escola de Arte Dramática (EAD) ao longo dos 70 anos de existência, que serão completados no dia 2 de maio.

Apesar do aniversário, Sandra Regina Sproesser, diretora da Escola, afirma que não é tempo de comemoração: “A lei que rege a profissão dos artistas está sendo revista. Estamos vivendo um momento de muitas mudanças. E não nos parecem positivas”.

A professora se refere à ação que está correndo na justiça que questiona a obrigatoriedade de diploma ou certificado de capacitação para o registro profissional no Ministério do Trabalho como condição para o exercício das profissões de artista e técnico em espetáculos.


Luzes da Boemia, 1996. Marat Descartes e Natália Lorda. Ao fundo, Nando Bolognesi. Foto: Valeria Macedo

Passado

De acordo com Silvana Garcia, professora e organizadora do livro Lição de Palco, que conta a história da Escola, a EAD fez parte de um projeto da burguesia paulista dos anos 40 de dotar a cidade de São Paulo de atores para dar conta de um repertório de teatro universal que fosse semelhante ao padrão encontrado nas produções europeias.

Araci Fernandes, professora aposentada da EAD, afirma em Lição de Palco que Alfredo Mesquita, fundador da Escola, tinha como objetivo formar profissionais completos: “do ator ao cenógrafo, ao dramaturgo e ao crítico, finalizando com um curso de direção. Ou seja, a meta de Alfredo Mesquita era construir uma escola que abarcasse a totalidade do fenômeno teatral.” Apesar do desejo, a Escola nunca teve o curso de direção.


Embarque para excursão: Silnei Siqueira, Sérgio Mamberti, Maria Thereza Vargas, Ruy Nogueira, Luiz Nagib Amari, Luiz Gonzaga Diogo, Yvonette Vieira, Silvio Zylber e Alfredo Mesquita. Sentados à frente, João José Pompêo e Luís Filgueiras. No ônibus, Ana Maria Cerqueira Leite, Maria Lysia Araújo, Jane Hegenberg, César Romanelli e Marlene de Almeida. Foto:  Acervo EAD

De acordo com a tese Uma escola em construção - Primeiro curso, primeira turma do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da USP: 1967 - 1970, de Abílio César Neves Tavares, Alfredo Mesquita escolheu fornecer os cursos no período noturno para acolher os alunos que trabalhavam durante o dia, além de manter a EAD com recursos próprios, pois a mensalidade que os alunos pagavam não era suficiente para sustentá-la.

Isso fez com que a Escola passasse por crises financeiras sem poder pagar os salários dos professores. “Professores e funcionários tiravam a custo seu entusiasmo de um idealismo exercitado há anos. Ou a EAD passava a depender de terceiros, ou fechava suas portas”, afirma em depoimento de Maria Thereza Vargas, que trabalhou como secretária de Alfredo Mesquita.

A proposta de passar a EAD para a Universidade de São Paulo apareceu algumas vezes ao longo da história. O fundador a recusava sob a afirmação de que perderia o controle da Escola a partir do momento que ela fosse anexada a USP. Entretanto, em 1966, sem condições de ser sustentada, a EAD foi incorporada à universidade ao passo que a Escola de Comunicações Culturais (atual ECA) foi criada.


Marat Sade, 1979.  Lilia Cabral, Marcos Romão, Neusa Gomes e Roberto Nogueira. Foto: Claudia Alcover

Aniversário

No dia 2 de maio, como é tradição, os alunos do primeiro ano farão uma homenagem para a EAD. E haverá também um momento de reflexão sobre a situação atual para tirar um posicionamento da Escola sobre a revisão da lei. "Uma escola tão tradicional, tão antiga, de tanto prestígio", afirma a diretora, "vivendo esse momento em que somos obrigados, mais do que antes, a pensar a nossa função no mundo como atores que expressam e que questionam a realidade".

 

Texto: Mirella Coelho