Mulheres da ECA discutem violências e discriminações de gênero

Na última quarta-feira (21), aconteceu no Auditório Freitas Nobre, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), a mesa Discriminações nossas de cada dia. Vamos desenhar? O evento foi organizado pelo grupo Diversidade na ECA, pelo Centro Acadêmico Lupe Cotrim e pelos coletivos Feminista e Opá Negra, e contou com a presença de professora, alunas e funcionárias para dividir experiências sobre discriminação no ambiente universitário por serem mulheres.

Funcionária da biblioteca da ECA, Andrea Guerra apresentou-se e compartilhou um relato que ouviu de colegas de trabalho, no qual um homem sempre cumprimentava a mulher com educação, mesmo sem se apresentar, até que um dia explicou a ela que não podia deixar de saudá-la porque ela era “gostosa”.

Com um exemplo semelhante, Anna Guedes, estudante de educomunicação, recordou da primeira vitória do coletivo: “na calourada de 2014 ainda existia o Concurso Miss Bixete e o coletivo feminista conseguiu acabar com isso. Porque reduz a mulher apenas ao seu status físico e porque acaba gerando uma situação de competição entre as mulheres.”

Anna participou da mesa como representante do Coletivo Feminista da ECA e explicitou por que há a necessidade do coletivo na unidade: “a ECA está na sociedade e por isso não é um lugar livre das opressões, do assédio e do machismo.”


Claudia Lago, Thaise Desirree e Andrea Guerra

Layana Castro, representante dos funcionários da ECA na Congregação e no SINTUSP, dividiu o caso em que um funcionário assistia a vídeos pornográficos durante o horário de trabalho. As mulheres que trabalhavam com ele sentiram-se incomodadas, reclamaram para a chefia imediata e o funcionário recebeu uma advertência verbal. Nada mudou.

Com isso, aconteceu o lado mais perverso do assédio, de acordo com Layana, quando as mulheres passaram a repensar o que antes estava claro: “será que eu estou exagerando?”

Da esquerda para a direita: Layana Castro, Anna Guedes, Mayara Paixão e Claudia Lago

A professora Claudia Lago, presidente da Comissão dos Direitos Humanos da ECA, explicou a diferença entre discriminação e assédio, sendo que neste último está ligado a um nível de hierarquia, como por exemplo um funcionário com mais tempo de escolaridade do que o outro, ou um professor e um aluno.

Claudia também expôs alguns casos em que as professoras declararam como problemas no ambiente de trabalho piadas sexistas e troca de horário de aula sem consulta prévia com a professora.

Maria Luiza Nogueira, integrante do coletivo Opá Negra, contribuiu para o debate ao colocar a perspectiva da mulher negra e citou casos em que as pessoas duvidam de que o estudante, por ser negro, seja de fato da USP e casos em que o professor dissemina discursos racistas em sala de aula.

Para a estudante, por motivos como esses, o espaço da Universidade deixa de ser convidativo para a população negra, já que a vivência e as dificuldades dessas pessoas se tornam invisibilizadas.


Maria Luiza Nogueira, do Coletivo Opá Negra

Um dos poucos homens presentes no evento levantou a pergunta sobre qual é o lugar de fala dos homens, como e quando eles podem se manifestar neste contexto. Para Anna Guedes, a luta é protagonizada por mulheres e, por isso, a maior parte das reuniões do coletivo feminista são apenas para mulheres.

Apesar disso, Mayara Paixão, aluna de jornalismo, diretora do CALC e diretora de Comunicação do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP, acrescentou que o homem também tem o papel de combater o machismo em seu convívio com outros homens, quando ouve ou vê ações machistas. “Todos os homens precisam discutir feminismo porque estão inseridos em uma sociedade machista. Todos nós temos que lutar por uma sociedade menos desigual e mais justa”, completou.

Também foi mencionado que a responsabilização dos homens pode variar de acordo com as condições sociais. “Quanto mais acesso a informação um cara teve, mais responsabilizado por seus atos ele deve ser”, afirmou Mayara.

Para a aluna, um homem que teve menos acesso a informação durante a sua formação deve ter uma forma diferente de ser tratado no pós-denúncia. “Precisa existir uma pedagogia, após a denúncia, de mostrar para o homem por que ele está errado e por que deve mudar as atitudes.”


Guedes, Claudia Lago e Thaise Desirree

Thaise Desirree, funcionária da Comissão de Relações Internacionais e integrante da Comissão de Direitos Humanos da ECA, lembrou da desqualificação que existe com as funcionárias mais jovens: “não basta você ter que se firmar como mulher, ainda tem que batalhar porque você é mais jovem do que aquela pessoa.”

Diante de toda a discussão, Thaise falou da importância da sororidade e o companheirismo entre as mulheres. “Não adianta ter uma série de instituições como a USP Mulheres e a Rede não cala, se nós somos as primeiras, muitas vezes, a apontar o dedo para a outra e falar ‘você foi assediada, mas a culpa é sua porque você estava de saia curta.’”, concluiu.

 

Texto e fotos: Mirella Coelho