As contribuições da professora Jerusa Ferreira para a ECA

No último domingo (21), a professora aposentada do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), Jerusa Pires Ferreira, faleceu vítima de câncer, aos 81 anos. Também professora na PUC-SP, começou sua carreira acadêmica na Bahia, onde nasceu. Em 1980, concluiu o doutorado em Ciências Sociais na USP, especializando-se em Sociologia da Literatura.

Foi livre-docente na ECA, onde conduziu diversas pesquisas sobre suas áreas de interesse: cultura popular e literatura. Participou do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE), no qual era coordenadora em conjunto com os professores Plínio Martins Filho e Marisa Midori Deaecto, também do CJE, e Sandra Reimão, da Escola de Artes Ciências e Humanidades (EACH). 

O NELE, grupo existente até hoje, reúne pessoas de diferentes áreas que se interessam pelo estudo do livro. Sua principal produção é a revista LIVRO, publicada em conjunto com o Ateliê Editorial. O professor Plínio comenta sobre a atuação de Jerusa no núcleo: “Ela sempre esteve presente, trazendo textos e colaborando. Era uma pessoa muito generosa e de cultura imensa, erudita.”


Docente do CJE, Plínio Martins prestigia Jerusa no lançamento de seu livro Matrizes Impressas do Oral – Conto Russo no Sertão, em 2014. Foto: Ateliê Editorial

Em 2016, uma de suas mais célebres obras, Cavalaria em Cordel: O Passo das Águas Mortas, publicada pela primeira vez em 1979 pela Hucitec, foi reeditado pela EDUSP. O livro traça relações entre a literatura de cordel e as narrativas cavaleirescas da Idade Média, trazendo experiências da própria autora com essa literatura, característica do sertão nordestino. 


A capa daquela que foi uma das obras mais célebres de Jerusa Pires Ferreira Foto: Reprodução/Edusp

Em seu campo de estudo, Jerusa manteve interesse pela oralidade e suas relações com a memória e a arte. Além disso, tinha grande apreço pela cultura popular, a qual chamava de “cultura de bordas”. Seu conhecimento era vasto ao ponto de relacionar o cordel a obras aparentemente muito distantes, como Fausto, de Johann Goethe. No prefácio da segunda edição de Cavalaria em Cordel, publicada também pela Hucitec em 1993, é possível perceber o vínculo afetivo da autora com a memória narrativa e a oralidade:

“Nascida no sertão da Bahia, desde cedo optei pelo mundo de meu convívio mais gratificante e ainda pelo universo de memória narrativa que me transmitiu o meu pai. Foi este trabalho a conciliação do meu caráter com a minha vida, para falar com Lévi-Strauss, quando ele se refere à escolha que fez no campo das ciências e, em particular, da etnografia, em Tristes Trópicos. Neste caso, a descoberta da antropologia, o trânsito das letras para a área das ciências sociais, num ir e vir contínuo.”

Durante sua docência na pós-graduação, Jerusa participou da concepção do projeto Editando o Editor, que busca dar enfoque aos profissionais por trás da publicação do livro. A coleção, respeitada internacionalmente, já tem diversos exemplares, publicados pela EDUSP. A docente, relata Plínio, além de grande mentora do projeto, foi responsável pela divulgação, alcançando projeção nacional e internacional. 

Bibliófila e excelente tradutora – vide seu trabalho nas obras do crítico literário suíço Paul Zumthor – Jerusa era conhecida por valorizar os profissionais envolvidos na concepção do livro. Suas aulas no curso de Editoração eram recheadas de conhecimento e levavam os alunos a conhecer a amplitude do mundo da literatura. “Era como se ela abrisse sua cabeça para as possibilidades, principalmente da cultura impressa, do livro e da cultura popular. Ela fascinava!”, relembra Plínio.

A memória de Jerusa, relembrada pela ECA

A Diretoria da ECA soltou uma nota de falecimento, rememorando seu trabalho na Escola: 

Nota de Falecimento - Jerusa Pires Ferreira
 
É com pesar que a Diretoria da Escola de Comunicações e Artes da USP informa o falecimento no último domingo, dia 21 de abril, da professora Jerusa Pires Ferreira. O velório e cremação serão realizados no dia de hoje (22), na cidade de Salvador (BA).
 
Professora do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) entre os anos de 1985 e 1991, Jerusa Pires Ferreira teve contribuição fundamental para o curso de editoração, onde assinou, entre outros trabalhos, a direção do projeto editorial “Editando o editor”. Mesmo após a aposentadoria, a docente manteve-se vinculada à ECA, onde era uma das coordenadoras do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE).
 
Intelectual extraordinária, Jerusa Pires Ferreira transitava com a mesma desenvoltura entre as culturas erudita e popular e será lembrada pela generosidade que sempre demonstrou com seus alunos e pela dedicação incessante aos campos da literatura, da comunicação e das artes.
 
Diretoria da Escola de Comunicações e Artes da USP.

O CJE, departamento no qual Jerusa lecionou, também se manifestou acerca de seu falecimento:

Jerusa Pires Ferreira faleceu no domingo, dia 21 de abril, aos 81 anos, vitima de câncer. Ela foi professora do CJE (Departamento de Jornalismo e Editoração) e da PUC/SP. Fez o doutorado e a livre-docência na USP. A especialidade de Jerusa era cultura popular e literatura, enfatizando temas como oralidade, memoria e artes. Uma das suas obras mais célebres foi publicada pela Edusp, intitulada "Cavalaria em Cordel: o passo das águas mortas", que faz uma relação da literatura de cordel com histórias de cavalaria do período medieval. Jersua também foi tradutora das obras do pensador suíço Paul Zunthor, cujas obras tratavam de oralidade e cultura popular.

 

Texto: Maria Eduarda Nogueira Oliveira
Foto de capa: Reprodução/@kekopires