Durante programação do IFTR, grupo de atores faz leitura dramática de peça de Tennessee Williams

A conferência deste ano da International Federation for Theater Research, que aconteceu na ECA entre os dias 10 e 14 de julho, apresentou em sua programação não só mesas de discussão e palestras, mas também algumas performances e espetáculos de grupos e artistas brasileiros.

Na noite de quarta-feira, o Teatro Laboratório do Departamento de Artes Cênicas (CAC) recebeu a leitura dramática da peça Não Sobre Rouxinóis (Not About Nightingales), escrita pelo dramaturgo americano Tennessee Williams em 1938 e traduzida e adaptada pelo ator Augusto César, que também participou da peça. A encenação contou, ainda, com a participação da professora Isabel Setti, da Escola de Artes Dramáticas (EAD) e de Luis Marcio Arnaut, que desenvolve atualmente um doutorado em Artes Cênicas pela Escola.

Isabel Setti (dir.) atuou no papel de Mrs. Bristol, mãe de um prisioneiro que sofreu maus-tratos e terminou morto.

Neste texto, a história segue um grupo encarcerado em uma penitenciária americana, localizada em uma ilha acessada apenas por barcos, que decidem promover uma greve de fome, de modo a melhorar a situação em que vivem, marcada por descaso e maus-tratos. Para além dessa linha central, a peça também discorre sobre uma história de amor entre a secretária do diretor da prisão e um presidiário que trabalha para o mesmo.

Dividida em três atos, a montagem durou cerca de 1 hora e 40 minutos, quase 90 minutos a menos do que a peça original duraria, em decorrência dos diversos cortes de cenas e personagens. Em um cenário minimalista, composto apenas de bancos e cadeiras pretas ao centro e do lado esquerdo, que indicavam, respectivamente, duas celas adjuntas e o escritório do diretor da prisão, os onze atores entraram no palco com seus textos em mãos, aguardando sua vez de atuarem.

Em sentido horário, os presidiários Swiftly (Rodrigo Risoni), Butch (Fábio Santarelli), Rainha (Deco Araújo) e Joe (Diogo Guedes). 

Uma cena solta, anterior ao primeiro ato, abriu a encenação: em um barco turístico, que passava em frente à ilha em que a prisão se localiza, uma guia apontava, para os viajantes, as paredes de pedra que prendiam 3,500 homens e das quais era impossível fugir. Na sequência, teve início o primeiro ato, que introduziu todos personagens e situou o conflito principal da peça.

Nesta primeira parte, a sequência de cenas foi, aos poucos, mostrando a situação em que viviam os detentos, que sofriam com, entre outras coisas, comida estragada e períodos de maus-tratos na solitária e na Klondike, a sala da caldeira, usada para torturar os prisioneiros com as altas temperaturas, além de apresentar um diretor corrupto e cruel. Essa última colocação ficou clara nos momentos finais do ato: Olly, um dos presos, não suportou ficar mais tempo na solitária e se matou, o que desencadeou uma greve de fome entre os prisioneiros do Pavilhão C.

A esquerda, Olly (Flávio Oliveira), cuja morte desencadeia uma greve de fome na prisão e, a direita, Jim (Alan Foster), detento que trabalha com o diretor e é candidato à ser liberado por condicional.

No segundo ato, a greve de fome foi ganhando força, de tal modo que, em consequência, o diretor revelou, em determinado momento, que se os prisioneiros a mantivessem durante o jantar, seriam levados para Klondike; além disso, essa parte também desenvolveu um tanto do romance entre Jim, o preso que trabalhava para o diretor e Eva, a secretária, se desenvolvendo. No terceiro ato, enfim, os prisioneiros foram torturados em Klondike, sendo que, enquanto alguns vieram a falecer, outros sobreviveram e conseguiram se libertar.

Mesmo tendo sido escrito nos anos 30, Não sobre Rouxinóis é um texto extremamente atual; assim, a leitura dramática, muito interessante, foi capaz de provocar nos presentes uma reflexão acerca do modo como detentos vivem em prisões pelo mundo. Contudo, os sucessivos cortes colocados na adaptação fizeram com que algumas situações não fossem desenvolvidas da melhor maneira e que alguns saltos drásticos acontecessem: é o caso, por exemplo, do romance entre Eva e Jim, que foi pouco explorado.

No último ato, o romance secreto entre Jim e Eva (Gisele Freire) é descoberto pelo diretor da prisão. 

Ao final da peça, os atores juntaram-se para conversar com os presentes sobre o texto original e a montagem apresentada. Dentre os diversos assuntos comentados, eles trataram da questão dos cortes à peça, da maneira em que a adaptação foi realizada, dos contextos sociais e históricos em que a peça foi criada e de demais peças de Tennessee Williams.

Texto e fotos: Victória Martins