Freitas Nobre, o ex-professor que ganhou um aeroporto com seu nome

Se sancionado pela Presidência da República, o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 89/2012, de autoria do ex-deputado João Bittar, pode ser o responsável por dar ao Aeroporto de Congonhas o nome de Aeroporto Deputado Freitas Nobre, em homenagem ao político e ex-professor do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) José Freitas Nobre. A proposta foi aprovada no Senado no último dia 25 de maio.

Freitas Nobre, político e professor

Nascido em Fortaleza, em 1921, Freitas Nobre mudou-se para São Paulo em 1936, com a ideia de se dedicar ao jornalismo: a grande reportagem que trouxe consigo, Epopéia Acreana, sobre o “bandeirantismo cearense no norte do Brasil” foi publicada em 1938 e desde então, o jovem repórter ingressou na imprensa paulista, tendo colaborado com diversos veículos, como a Folha da Manhã, A Última Hora e a revista O Cruzeiro e escrito vários livros-reportagem e perfis.

Em 1948, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da USP, apesar de não ter deixado o ofício da reportagem, tendo inclusive presidido o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e a Federação Nacional dos Jornalistas.

A experiência sindical e a formação jurídica levaram-no à política. Filiado ao Partido Socialista Brasileiro, em 1950, tornou-se suplente em uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo e, em 1958, foi eleito vereador da cidade, ficando no cargo até 1961, quando assumiu a posição de vice-prefeito, em chapa encabeçada por Francisco Prestes Maia.

Com o golpe militar de 1964, escolheu o exílio na França, onde se inscreveu no doutorado em Direito e Economia da Educação. De volta ao país, em 1967, Freitas Nobre integrou o corpo docente da ECA, então chamada de Escola de Comunicações Culturais. "Com a criação do Departamento de Jornalismo, ele foi um dos quatro professores pioneiros do departamento, ministrando a disciplina Legislação da Imprensa na Graduação e Direito da Informação na Pós-Graduação", lembra José Marques de Melo.  Com o apoio dele, Freitas criou, ainda em 1967, o primeiro laboratório aplicado do curso, a Agência Universitária de Notícias (AUN).

“Freitas Nobre foi um desses jornalistas com visão empreendedora”, conta André Chaves de Melo Silva, atual responsável pela AUN ao lado do professor José Luís Proença. O professor do CJE explica que os primeiros boletins da traziam traduções das notícias sobre a América Latina do espanhol para o português, além da distribuição desse material para os jornais, rádios e TVs brasileiros. Contudo, os próprios professores responsáveis perceberam o potencial da agência para uma cobertura nacional, dando início à produção de notícias sobre as pesquisas desenvolvidas pela USP. “Hoje somos a mídia mais antiga da USP, chegando a publicar, por semestre, mais de 400 matérias”, disse Chaves.

Em 1970, Freitas Nobre voltou à política, elegendo-se deputado federal por São Paulo, desta vez pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Ao mesmo tempo, redigiu sua tese de doutoramento, “sobre as implicações jurídicas do jornalismo em tempos de mídia eletrônica”, defendida em 1973 e lançada em 1974 como livro - Le Droit de Responsé et la Nouvelle Technique de l’Information.  

Antes de conquistar o título de doutor, porém, Freitas Nobre já havia sido afastado da docência - em 1972, sofreu uma “cassação branca” e teve seu vínculo contratual com a USP interrompido, apesar da reação do Departamento; quatro outros docentes, José Marques de Melo, Jair Borin e Sinval Medina também foram afastados. Freitas Nobre só voltou à ECA após a Lei de Anistia, de 1979. "O Departamento reagiu solenemente ao ato do Reitor até o seu desfecho final, quando foi impedido de dar aulas na ECA", conta Marques. Freitas foi reintegrado ao corpo docente em 1986, por meio de contrato temporário e aprovado em concurso em 1988.

Neste interim, dedicou-se à política: reelegeu-se como deputado federal em 1978 e 1982. Com o fim do bipartidarismo, filiou-se ao PMDB, desdobramento do MDB após 1979, tendo ainda colaborado com a redação do texto do novo governo encabeçado por José Sarney, após a morte de Tancredo Neves. Tentou concorrer à prefeitura de São Paulo em 1985, não encontrando, porém, apoio junto ao eleitorado paulista.

Freitas Nobre foi ainda professor catedrático da Faculdade Cásper Líbero, então vinculada à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, lecionando História do Jornalismo e Legislação da Imprensa e professor do curso de extensão em jornalismo promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo.

Na opinião de José Marques de Melo, Freitas Nobre foi um dos maiores estudiosos da liberdade de imprensa no Brasil e um político exemplar. "Além de ser seu amigo, eu admirava sua competência e sua capacidade de trabalho".

 

Com informações da Fundação Getúlio Vargas, do MAC-USP e do Jornal da USP.

Texto: VIctória Martins

Foto: Senado Federal