Instalação artística em prédio histórico de Belém é resultado de tese do PPGAV

Igrejas barrocas e construções em estilo colonial português ocupam ruas estreitas, convivendo com pontes e palafitas – moradias feitas com tábuas de madeira e suspensas por estacas em áreas de várzea. Na baía do rio Guajará, cercado por ilhas, está o Porto do Sal, onde coexistem a cultura urbana e a ribeirinha, presente em saberes como a construção de redes de pesca e barcos de madeira, além da tipografia naval que nomeia e adorna as embarcações.

Situado na Cidade Velha, bairro mais antigo de Belém, o Porto do Sal foi na década de 30 um importante ponto de comercialização de especiarias amazônicas, como a pimenta do reino, a castanha do Pará e o peixe salgado. A exemplo de outras zonas portuárias do país, o Porto do Sal apresenta hoje sinais de abandono por parte do poder público. 

É neste cenário que a paraense Elaine Arruda vem desenvolvendo há anos sua pesquisa artística. O resultado de seu último trabalho pode ser conferido na tese Extremas Paisagens: Porto do Sal, uma experiência estética e política, realizada no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV), sob orientação do professor Marco Francesco Buti, do Departamento de Artes Plásticas (CAP)

Quando realizou seu mestrado, também na ECA, Elaine utilizou como ateliê a Oficina Santa Terezinha, metalúrgica localizada no Porto do Sal. Lá, ela adaptou ferramentas e o maquinário industrial para produzir gravuras em grande escala. A obra resultante, Paisagem Suspensa, um painel com 12 metros de comprimento, participou da exposição Cheio de Vazio, realizada no Instituto Tomie Ohtake em 2014. Elaine desejava levar o resultado para os operários e a comunidade do entorno da metalúrgica e, ao montar o painel dentro da oficina, notou que o espaço, totalmente diferente de uma galeria ou museu, convidava a outras intervenções. 

Elaine chamou outros artistas da cidade para uma ocupação na metalúrgica. Houve apresentações de música, performance e videomapping, entre outras atividades, e esse evento deu origem ao Coletivo Aparelho, que reúne diversos artistas e propõe intervenções no bairro, em especial no Mercado do Sal e seus arredores, procurando estabelecer relações de troca com os moradores e trabalhadores do entorno a fim de democratizar a arte. 

 

Um mastro colorido e iluminado sobre o Mercado do Sal

A partir da primeira ocupação na Oficina Santa Terezinha, a cidade, em especial o uso do espaço público, passa a ser uma questão importante para a pesquisadora, e a leva a criar a obra que constituiria seu doutorado. Como uma das ações do Coletivo Aparelho, ela constrói junto com João Aires, mestre em carpintaria naval, o Mastarel. Instalada sobre o Mercado do Sal, a obra reproduz em grande escala a estética dos mastaréus, mastros coloridos e iluminados típicos das embarcações marajós. Além de dar visibilidade para aspectos da cultura local que vêm sendo perdidos – cada vez menos pessoas trabalham com carpintaria naval – , o Mastarel também chama atenção para o próprio entorno e o que esse espaço representa no imaginário dos moradores de dentro e de fora do bairro: “o Mastarel acaba sendo uma forma de dar visibilidade para aquele contexto e mostrar que no Porto do Sal, naquela região, existe muita riqueza, existe muito conhecimento, existe potência, porque quando as pessoas olham pra esses contextos normalmente ressaltam a violência, a criminalidade, o tráfico”, conta Elaine. 


Mastarel sobre o Mercado do Sal. Foto: Débora Flor

A obra também marca uma mudança na relação da produção da artista com o ambiente. Se nas gravuras ela trazia a paisagem para o trabalho, explorando a grande dimensão e densidade que caracterizam a paisagem amazônica, no Mastarel ela leva o trabalho para a paisagem. “Eu vejo o Mastarel como uma experiência muito forte, na qual eu realmente consegui ir pro espaço da arquitetura, que foi onde eu realmente consegui dialogar com a cidade, e várias questões que não existiam no meu trabalho quando eu estava mais focada na produção de imagens e gravuras, vieram à tona.”

O orientador Marco Francesco Buti chama atenção para o fato da tese de Elaine – assim como a maioria das pesquisas de mestrado e doutorado na linha de Poéticas Visuais – destoar da produção de outras áreas do conhecimento acadêmico, por constituir a realização de uma obra artística. Parte importante de seu resultado não pode ser catalogada por meios tradicionais nem contida nos muros da academia. “Um mastro erguido no Porto do Sal, em Belém do Pará, cujo sentido é indissociável desta localização, evidentemente não pode ser abrigado por uma biblioteca, a não ser como reprodução, em escala muito reduzida. (...) Não é o primeiro trabalho artístico a apontar esta questão”, explicou o orientador. 


Mestre João Aires finalizando a instalação do Mastarel. Ele assina a obra junto com Elaine Arruda. Foto: Débora Flor

Buti também destaca como a tese dá reconhecimento para o trabalho de artesãos como João Aires. “Sem ele, o mastro não poderia existir. O conhecimento artesanal é escassamente valorizado na academia, quando não desprezado”. Elaine, que acabou de passar em concurso para docência na Universidade Federal do Pará, pensa que tanto a arte quanto a universidade têm que estar mais próximas da cidade e das pessoas. Para a pesquisadora, essa abertura permite expandir as possibilidades de produção tanto artística quanto acadêmica. “Se eu tivesse me bastado em fazer a exposição no Tomie Ohtake e dado continuidade à minha pesquisa, eu nunca teria enfrentado esse momento de fazer uma ocupação na metalúrgica, que daria desdobramento a tanta coisa. Então eu acho, sim, que isso é importante pra academia pensar: olhar pra cidade e envolver as pessoas”. 

Todo o processo de produção de Mastarel foi documentado em um livro, que pode ser conferido aqui

 

Coletivo Aparelho

Nascido em 2015, após a primeira ocupação da Oficina Santa Terezinha, o Coletivo Aparelho é um projeto de arte e cidadania que visa ocupar espaços públicos, promovendo integração entre moradores, trabalhadores, artistas e artesãos.

Com o tempo e amadurecimento do projeto, o coletivo migrou da Oficina Santa Terezinha para o Mercado do Sal, para atuar na cidade de forma mais direta, ocupando um espaço público e histórico a fim de dar novos usos ao local e quebrar "barreiras ainda muito rígidas entre a arte e a vida". A cada dois meses, alguns boxes do mercado são ocupados por artistas de diversas linguagens e pelos resultados das oficinas ministradas à comunidade nesse intervalo. Também são realizados outros tipos de atividades, como vivências, almoços, cafés de fim de tarde, rodas de conversa e sessões de cinema. 


Crianças durante ocupação do Coletivo Aparelho no Mercado do Sal. Foto: Débora Flor

Tudo acontece de forma colaborativa. Os boxes são cedidos graças à parceria com os trabalhadores do mercado e a programação é definida em diálogo com os moradores. Os artistas pensam suas propostas a partir de pontos de contato entre seus processos poéticos individuais e os interesses da comunidade.

O principal objetivo do Coletivo Aparelho é provocar encontros que propiciem novas formas de ser e estar no mundo, reconhecendo a potência do Outro e legitimando a existência de espaços e vivências urbanas diversas. 

 

Texto: Amanda Ferreira
Foto de capa: Débora Flor