Metodologias ativas transformam processo de aprendizagem no ensino básico

Documentário realizado por aluna de Jornalismo mostra experiências em escolas no Brasil, na Grécia e na Finlândia

“Eu tenho a ideia de que as escolas, apesar de serem sempre instituições de maioria de crianças e jovens, são instituições extremamente adultocêntricas”. A frase do educador Yvan Dourado inicia o documentário e trabalho de conclusão de curso da aluna de jornalismo Isabella Galante, “Educ(ativa): uma jornada por experiências transformadoras no ensino básico”. 

O filme discute as metodologias ativas em escolas do ensino básico. Essa nova técnica pedagógica consiste em colocar o aluno no centro do processo educativo. Todas as dimensões do estudante são consideradas, com enfoque na parte técnica, mas também emocional. “A individualidade, os interesses, as limitações de cada estudante são respeitadas e o foco de aprendizagem é o aluno”, diz Isabella. 

Para entender melhor como essa metodologia é aplicada nas escolas, a estudante visitou cinco instituições: uma na Finlândia, duas na Grécia e duas no Brasil. Em cada uma, foi possível observar novos modelos, já que não há uma cartilha para implementação da técnica. 

Alguns princípios são comuns, como o papel do professor, por exemplo. Segundo Isabella, a figura do educador em sala é mais a de um facilitador no processo de aprendizagem e menos a de um palestrante que transmite o conhecimento. Esse é um dos benefícios mais notórios da metodologia ativa. Em um contexto no qual a busca por informações pode se dar via uma simples pesquisa no Google, o professor não precisa ser um centro armazenador de conhecimento. O seu papel, dentro de uma educação mais humanizada, é estimular e orientar cada estudante em seu próprio caminho. 

O aluno, por sua vez, é beneficiado na medida em que a apreensão de conhecimento passa de um simples exercício de memorização para um processo repleto de etapas, ativo e contínuo. “Isso vai reforçando as atividades cerebrais e motoras do aluno e faz com que o aprendizado seja melhor compreendido e mais duradouro.”

Um estudante mais ativo e consciente de seu caminho educacional torna-se um cidadão mais participativo, consciente de seu papel nas tomadas de decisão que afetam sua vida e a vida da sua comunidade. E tudo começa na educação básica. 

Porém, a implementação de metodologias ativas não é uma tarefa fácil. Ela pressupõe renovação escolar, um tema polêmico, já que as escolas possuem a mesma base de funcionamento há séculos. 

Outro fator importante é a autonomia pedagógica. Tanto nas escolas visitadas na Grécia quanto no Brasil, esse é um dos maiores entraves, já que normalmente há regras que impedem a abertura de brechas para outras abordagens. A Finlândia vai na contramão disso: lá, as escolas têm autonomia total.

No entanto, é importante notar que a autonomia não é a única condição para que as metodologias ativas possam ser aplicadas. É preciso, antes de tudo, uma infraestrutura mínima e também profissionais que possam ter dedicação exclusiva à instituição de ensino. O que, muitas vezes, não é o caso do Brasil. “O governo precisa estabelecer esse chão comum e apoiar as iniciativas, oferecendo pelo menos as condições mínimas, além da autonomia”, destaca Isabella. 

Imagem do documentário "Educ(ativa): Uma jornada por experiências transformadoras no ensino básico" / Isabella Galante

 

Um documentário de uma mão só

Isabella ainda não sabia sobre o que seria seu último trabalho como estudante de jornalismo. Mas uma coisa era certa: seu TCC seria em formato de documentário. Um desafio e tanto, já que a estudante foi roteirista, diretora, cinegrafista, editora e todas as outras funções que abarcam a realização de um filme de 63 minutos. 

Da escolha do tema à publicação do documentário no Youtube, foram dois anos repletos de barreiras burocráticas, técnicas e linguísticas. Com 30 horas de material bruto, foi preciso dedicar oito meses apenas à edição. As filmagens exigiram muitas autorizações, até mesmo dos governos dos países visitados, uma vez que seu trabalho envolvia mostrar menores de idade e o interior de escolas de ensino básico.

Agora, com a produção finalizada e disponível para o público, a estudante trabalha na versão em inglês do documentário. 

A princípio, o tema da educação não era o preferido na lista de Isabella. Sua própria experiência escolar não tinha sido muito agradável. As metodologias ativas, no entanto, despertaram seu interesse, por serem uma alternativa para a renovação escolar. Hoje, meses de estudo sobre o tema e um documentário depois, a estudante afirma: “é um assunto mais pertinente do que nunca, porque estamos em uma época de anti-intelectualismo, declínio do pensamento crítico, ataques ao Paulo Freire e críticas a formas de ensino que são mais livres.”

 

Texto: Maria Eduarda Nogueira

Imagem de destaque: "Educ(ativa): Uma jornada por experiências transformadoras no ensino básico"/ Isabella Galante