Sociólogo Nick Couldry fala sobre as mídias na contemporaneidade na nova edição da revista MATRIZes

Há poucas décadas, era praticamente impossível imaginarmos viver em um mundo com fácil acesso à internet ou celulares.  Até pouco tempo atrás, parecia muito distante a ideia de termos a internet na palma da mão, por meio de um aparelho que inicialmente foi feito para falar. Assim como, mais recentemente, não parecia possível termos nossos dados compilados em plataformas e redes on-line. Hoje, torna-se de certa forma difícil imaginarmos um mundo sem essas inovações. No entanto, até que ponto elas são saudáveis e como podem impactar a sociedade? Como lidamos com elas em meio à velocidade frenética das informações? Essas e outras questões são respondidas por Nick Couldry na última edição da revista MATRIZes, que está em seu 13º volume e no segundo número de 2019.

Nick Couldry, um dos mais conhecidos pesquisadores da comunicação e sociólogo, dá uma entrevista a Bruno Campanella, professor de Mídia, Comunicações e Teoria Social no Departamento de Mídia e Comunicações da London School of Economics and Political Science. Couldry faz uma reflexão a partir de seus mais de vinte anos de pesquisa sobre a mídia, em especial sobre como ela impacta a ordenação social e determina uma nova fase da história da humanidade.



Nick Couldry participa do último volume da revista MATRIZes com entrevista sobre mídias e seu impacto na sociedade. Foto: Divulgação

A televisão tem um papel muito importante na história da comunicação de nosso país, tendo sido durante décadas um dos grandes veículos de comunicação de massa, comparável apenas ao rádio. No entanto, desde os anos 2000, é visível a mudança deste suporte de comunicação, que agora cede lugar para a internet, o que não significa uma diminuição tão drástica de seu público, mas sim uma nova forma de utilização desse veículo de comunicação.

Sobre isso, Couldry fala sobre as transformações que ocorreram na mídia nos últimos anos:  “em primeiro lugar, a mudança de um mundo com um pequeno número de canais de televisão e rádio, jornais e assim por diante, para um mundo de internet em expansão, com acesso mais e mais rápido – que as pessoas começaram a enxergar como natural –, também com diversas fontes novas de informação, e muitas novas possibilidades para as pessoas, ao que parecia, contarem suas histórias para o mundo, no início dos anos 2000. De repente, a mídia parecia estar democratizada. Isso mudou a concentração do poder simbólico na mídia? Isso é o que especulei em meados dos anos 2000. Então comecei a perceber: não, isso não aconteceu. O que significou foi que a luta pelo poder concentrador entre as organizações de mídia, como as empresas de televisão, se tornou mais intensa. Por isso, era ainda mais necessário a essas instituições dizer a você para continuar assistindo, continuar acompanhando, e para isso elas podiam até usar as mídias sociais que se desenvolviam, para encorajar as pessoas a assisti-las.”

Há aqui, portanto, uma nova forma de relação entre as novas mídias e as antigas, que acabam por impactar diretamente na cultura, já que uma nova forma de existência de dados acaba por definir os direcionamentos sociais, nossos modos de viver e de refletir sobre o mundo e a maneira como nos relacionamos.

 

"Temos esse paradoxo: vivemos em um mundo no qual todos parecem ter voz, todos parecem mais empoderados, embora estejam menos, com menos clareza sobre para onde ir, com quem trabalhar, com quem encontrar solidariedade a fim de construir uma sociedade melhor, talvez até mesmo para preservar a possibilidade da democracia".

 

Em tempos que Couldry classifica como "confusos", o sociólogo reafirma a necessidade de ampliar os estudos em comunicação para a constituição de uma teoria social e, assim, "ter uma chance genuína de ter nossas vozes mais valorizadas do que nunca”.

 

Leia mais:

A nova edição de MATRIZes apresenta trabalhos que abordam a relação entre comunicação e cultura e seus impactos sociais. Além da entrevista de Nick Couldry, a edição conta com as seções dossiê, em pauta e resenha. A revista do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) está disponível de forma gratuita e on-line no Portal de Revistas da USP.