"Sem as artes, pelo que estamos lutando?", diz Ian Evans

Ian Evans é chefe de Direção Técnica de Teatro e Técnicas de Palco da Royal Welsh College of Music and Drama (RWCMD), no País de Gales, onde ministra cursos de bacharelado e mestrado em gerenciamento de palco, gerenciamento de eventos, design de iIuminação e design de som.

Também é membro e ex-presidente da Comissão de Educação da Organização Internacional de Arquitetos Teatrais, Técnicos e Cenógrafos (OISTAT) e membro da Associação de Técnicos de Teatro Britânicos e da Sociedade de Designers de Teatro Britânicos.

Durante sua estadia no Brasil, Evans vai ministrar workshops sobre som e iluminação para teatro para estudantes da ECA, para comunidade USP e para outras instituições interessadas.

Serão sete sessões ao longo de três semanas. De acordo com o professor, eles estão trabalhando para uma apresentação no último encontro, em que vão criar um ambiente através do uso de som e luz sem texto.

Mirella Coelho: Acompanhei uma atividade do workshop em que vocês estavam tentando recriar duas fotos. Qual era o objetivo daquela atividade?

Ian Evans: A ideia inicial era dupla. Em primeiro lugar, para os alunos usarem referências visuais, imagens e pinturas, dentre outras, que suscitam emoção neles; para, em seguida, recriarem isso na luz. Em segundo lugar, para entender a diferença entre o funcionamento da luz no palco e na pintura e como a luz pode ajudar a contar uma história diferente daquela que pode ser óbvia em relação à imagem.


Professor da da Royal Welsh College of Music & Drama, Ian Evans participa da série de encontros E-Som Et-Lumiere, no Departamento de Artes Cênicas (CAC)

Haverá outras atividades nos workshops? Quais serão?

As sessões planejadas serão desenvolvidas para incluir o som da mesma maneira que a luz foi mencionada anteriormente. Ou seja, como usar e criar sons para ajudar o clima, a atmosfera e a sensação da imagem. Depois disso, os alunos criarão cenas com base nas imagens pelas quais foram inspirados.

O objetivo final é que os alunos desenvolvam ideias em uma apresentação na última sessão, que será aberta a todos. Será na sexta-feira, dia 20 de abril, no CAC. Os alunos também serão apresentados a alguns dos mais recentes softwares de som.

Qual é a importância do som e da luz no teatro?

Isso depende da definição de teatro. Minha interpretação é contar uma história, criar emoção ou sentimento em uma audiência. Você não precisa necessariamente de um texto para fazer isso.

Dentro da interpretação tradicional, o som e a luz ajudam a criar o clima e o ambiente, anulando a necessidade de o roteiro definir a direção. Também é a maneira perfeita de fazer a transição e levar o público em uma jornada de uma cena para outra. Também pode ser usado para criar o ambiente sem a necessidade de cenas definidas.

Em última análise, contribui para uma melhor experiência do público, que vai além da presença individual de um ator em uma plataforma vazia.


Ian Evans, ao lado da professora Aby Cohen, do CAC

Você notou mudanças no teatro devido ao desenvolvimento tecnológico nos dispositivos de luz e de som? Pode me dar um exemplo?

Estou na indústria há muito tempo. Eu migrei da era analógica para a digital. Quando eu comecei, havia dispositivos básicos de iluminação de tungstênio, gravador de rolo e projetores de 35mm, filmes e slides. Agora posso fazer tudo isso com um laptop e alguns projetores de vídeo e alto-falantes ativos. O avanço nos últimos 20 anos tem sido incrível. Os operadores são agora programadores e os ideais artísticos dos designers são praticamente ilimitados. No entanto, é importante que não nos deixemos levar por toda essa tecnologia. Há muitos exemplos em que a tecnologia se tornou uma distração da atuação e da narração da história; é importante usar sempre o que é necessário para o design.

Provavelmente, o controle total da peça é um dos avanços mais importantes na tecnologia do teatro. Softwares como o Qlab estão revolucionando o setor e reduzindo o número de operadores para uma peça. Som, iluminação e vídeo podem, uma vez programados, ser operados por uma pessoa. Embora este equipamento não seja barato, para um produtor, ele reduz o custo de pagar por outros operadores, o que é um ótimo tópico para debate.

A Royal Welsh College of Music and Drama (RWCMD) foi considerada a melhor escola de teatro em 2017. Qual você considera que seja o diferencial da escola?

O que torna a faculdade tão bem sucedida é a satisfação do aluno. Somos uma faculdade relativamente pequena, com pouco mais de 700 alunos em todas as disciplinas de Música, Atuação, Design, Gerenciamento de Palco e Teatro Técnico. O bem-estar de nossos alunos é tão importante quanto a própria educação. Os grupos de ensino são os menores possíveis. Geralmente, não são mais do que dez alunos em um grupo, além de uma enorme quantidade de aulas e tutoriais particulares. Sendo o Conservatório Nacional do País de Gales, temos o dever de encontrar emprego para os nossos alunos. O meu curso de Gestão de Palco e o curso de Teatro Técnico têm um recorde de 100% de empregabilidade. Nossos professores visitantes são profissionais de renome que incluem pessoas como Dom Bilkey, que é chefe de som e vídeo do National Theatre em Londres, e Tim Routledge, que é designer de iluminação para Beyoncé e Sam Smith. Tanto Dom Bilkey quanto Tim Routledge são ex-alunos. Trabalhamos de maneira muito próxima com os nossos estudantes e os conhecemos bem, o que faz com que a faculdade tenha um ambiente muito amigável.

Os alunos da USP sempre ficam felizes em receber professores de outras Universidades porque acreditamos que seja bom para a nossa formação. Quais habilidades você acredita que os alunos interessados em produção teatral devem procurar?

Não existe um caminho fácil no Brasil. Minha experiência no país tem sido uma educação para mim. Em um relatório que escrevi em 2013 para o Conselho Britânico sobre treinamento técnico no Brasil, observei que quase todos os cursos de teatro no país, tanto públicos como privados, são baseados em atuação e direção. Parece haver uma enorme necessidade de cursos em design, em cenografia, som, iluminação, vídeo e, talvez o mais importante, cursos para técnicos e gestores para o apoio ao trabalho de todos os papéis mencionados. No entanto, esses cursos não estão prontamente disponíveis ou acessíveis. Eu percebo que a maioria dos designers e técnicos em som, iluminação e cenografia desenvolveram suas habilidades por meio de módulos de vários cursos de arquitetura e design de interiores. Muito mais deve ser feito para criar e desenvolver esses cursos.

Qual conselho o senhor daria para os alunos?

Descobri que, durante todo o meu ensino, muitas vezes me relacionei com as obras de Augusto Boal, a quem meus alunos vêem como um dos fundadores do teatro político. Tudo isso é muito importante para contar a história dos oprimidos, mas não podemos esquecer que o teatro também é uma forma de entretenimento, pode ser muito divertido.

Talvez um conselho mais duro seja o de que os estudantes sejam honestos consigo mesmos e admitam que talvez não sejam o próximo melhor ator ou talvez não sejam os melhores diretores. No entanto, existem outras funções para as quais eles podem ser perfeitos.

Em última análise, o governo e as universidades também devem reconhecer as questões mencionadas e desenvolver os cursos, fornecer as instalações e equipamentos necessários para criar a próxima geração de praticantes de teatro.

Como um dos maiores líderes do Reino Unido, Winston Churchill disse certa vez: "As artes são essenciais para qualquer vida nacional completa. O Estado deve a si mesmo sustentá-la e incentivá-la”. Sem as artes, pelo que estamos lutando?

Gostaria de acrescentar alguma coisa?

Gostaria de agradecer aos professores da ECA Aby Cohen e Marcelo Denny por me convidarem para fazer o meu workshop. Também gostaria de agradecer aos técnicos, em particular Gustavo e Juliano, pela ajuda e apoio. Fui técnico de teatro em um ambiente de educação no início da minha carreira e simpatizo com a difícil luta que eles têm para fornecer um serviço tão bom com recursos tão limitados. Os alunos que participam do workshop são apaixonados e demonstram um desejo real de trabalhar nas artes. Eles são bem instruídos e mostraram criatividade. Seria maravilhoso para eles se outros que lessem este artigo viessem ver seu trabalho na sexta-feira, dias 20 de abril, às 14h, nas sala 24 e 25 do CAC.

Texto e fotos: Mirella Coelho