Professores aposentados são homenageados em cerimônia na ECA

“Ensinar
é um exercício 
de imortalidade
De alguma forma
continuamos a viver
naqueles cujos olhos
aprenderam a ver o mundo
pela magia da nossa palavra,
O professor, assim, não morre jamais…”

Foi com esse poema de Rubem Alves que a professora Karina Toledo Solha terminou sua fala sobre a professora Celia Maria no dia 25 de junho. As palavras do poeta mineiro podem sintetizar a carreira dos quatro professores que receberam menção honrosa nesta data. Com anos e anos de experiência na USP, Angelo Pedro Piovesan Neto, Celia Maria de Moraes Dias, Maria Christina de Souza Lima Rizzi e Michael Kenneth Alpert são todos exemplos do alto nível de ensino oferecido pela ECA. A homenagem feita a eles ultrapassa o nível institucional e é uma verdadeira ode à contribuição dos docentes. 

A cerimônia de homenagem reuniu professores de diversos departamentos, rememorando suas trajetórias na Escola. “É nesse momento que se tem a dimensão do que cada um pôde fazer, com o que cada um colaborou”, disse a professora Maria Christina. 

Professora Maria Christina Rizzi fazendo seu discurso

Professora sênior do Departamento de Artes Plásticas (CAP), Maria Christina conheceu a ECA primeiramente como aluna, em 1972. Envolvida no mundo das artes desde o momento em que pisou no território ecano, completou sua formação em licenciatura em Artes Cênicas. Mas encontrou sua verdadeira paixão em um tema específico: arte-educação.

Graças à influência da professora Ana Mae Tavares Barbosa, que orientou suas pesquisas, Maria Christina pôde se envolver mais com a área e também atuar em diversos outros institutos da Universidade: foi docente no Museu de Arte Contemporânea, diretora da Divisão de Difusão Cultural do Museu de Arqueologia e Etnologia e vice-diretora do Museu de Ciências da USP. Também trabalhou na Secretaria de Educação do Município de São Paulo, junto a Paulo Freire. 

Com um currículo extenso e ampla experiência, a docente afirma: "Mesmo em outras instituições ou unidades da USP, eu mantive uma ligação com a ECA e com a arte-educação”. Em 2006, se tornou efetivamente professora do CAP. Para ela, a melhor parte da docência "foi ter tido a chance de colaborar com a reconfiguração da licenciaturas da ECA, onde consegui muita gente comprometida com a universidade, e poder ter criado um ateliê de arte para crianças estabelecendo uma dinâmica de trabalho que incluía ensino, pesquisa e extensão."

Professoras Ana Mae Tavares Barbosa, Maria Christina de Souza Lima Rizzi e Maria Dora Genis Mourão

Tímida, a professora afirma que sempre gostou de fazer seu trabalho quietinha. A menção honrosa a deixou, em suas próprias palavras, encabulada. Mas o momento a trouxe muitas alegrias: "Alegria pelo fato de obter um reconhecimento não só profissional mas também afetivo por parte da Escola, alegria de participar de uma cerimônia que reuniu tanta gente querida ao mesmo tempo e receber os parabéns."

O convite para a cerimônia também deixou o professor Michael Kenneth Alpert, do Departamento de Música (CMU), surpreso. Nascido nos Estados Unidos, veio para o Brasil em 1978. O cargo de docência era apenas um modo de conseguir o visto para entrar no país. Hoje, no entanto, é uma importante figura para os alunos e outros docentes do departamento.

Professor Michael Kenneth Alpert, que nasceu nos EUA mas está no Brasil há mais de 40 anos

Convidado por um amigo para ocupar uma vaga na Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, o musicista saiu de Israel – lugar onde estava trabalhando à época – e embarcou para o Brasil. Começou a trabalhar na USP em 1979, como professor de trompa. Mas seu envolvimento com a orquestra demandava muito tempo e energia. As ideias de pós-graduação ainda estavam em um futuro distante.

Diferentemente da realidade dos EUA, aqui, Alpert conseguia exercer várias funções ao mesmo tempo, o que o permitiu manter seu trabalho de músico de câmara e professor. Na década de 1990, porém, as orquestras sofreram um momento de crise. Muitas foram fechadas. A Jazz Sinfônica, onde o professor trabalhava, sobreviveu. No entanto, surgiu um alerta: talvez fosse a hora de largar o ofício. 

Michael decidiu, então, fazer seus estudos de pós-graduação na USP. Logo se tornou professor de dedicação plena, comprometendo ainda mais seu envolvimento com a orquestra. Mas a sinfonia nunca o abandonou. Sua vasta experiência na área fez com que o professor Gil Jardim o convidasse para conduzir o Laboratório de Música de Câmara (LAMUC). 

"O LAMUC era uma coisa marcante não só para mim mas também para o departamento", relata Michael. A partir desse momento, a música de câmara, que não ocupava espaço muito privilegiado, passou a ser valorizada até mesmo fora do CMU. Isso porque, por iniciativa do docente, os alunos realizaram concertos em diversos departamentos da USP. 

Presença forte do CMU: os professores Silvio Ferraz, Michael Alpert e Eduardo Monteiro

Em sua homenagem, o professor Silvio Ferraz, hoje chefe do Departamento de Música, foi responsável por fazer o discurso. Logo ele, que foi o primeiro aluno de Michael. "Há certa poesia nisso", comentou o docente, que apesar de aposentado, ainda é extremamente ativo no CMU. 

A aposentadoria, por sinal, não é sinônimo de inatividade para nenhum dos homenageados. Comemorando 50 anos de ECA, Celia Maria de Moraes Dias se diz infectada já por um "vírus ecano". Com idas e vindas no Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP), a docente começou sua história na ECA através da graduação em RP. Os caminhos até o Turismo foram longos, mas, certamente, compensaram.

Professora Celia Maria, que percorreu diversos cursos no CRP

Celia entrou na ECA em 1969, como aluna de Relações Públicas. Em meados do curso, com a iminência da criação do curso de Publicidade e Propaganda, cogitou uma transferência. Mas o curso acabou demorando um pouco mais para ser efetivado. Celia se formou e ingressou no mercado profissional dentro da área de RP. Embora a experiência tenha promovido certo aprendizado, não era exatamente aquilo que ela esperava.

O encantamento veio mesmo com o curso de Turismo, criação também recente da ECA. Com turmas reduzidas, a formação era ainda incipiente. Uma ótima oportunidade de trabalho surgiu para Celia em um momento perto de sua graduação. "As parcas que tecem o destino", comenta. 

Assim, novamente, Celia saiu da ECA. Dessa vez, para atuar no Centro de Treinamento em Turismo, da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur) como monitora de treinamento para o projeto 001, que objetivava mapear as empresas de turismo do país e treinar as chefias altas e médias, melhorando a capacitação da área.

Professora Karina Toledo Solha faz a homenagem a Celia

O "vírus ecano", no entanto, já estava em seu sangue. Na ECA, a professora conheceu também seu esposo. Pôde conviver com pessoas que hoje são homenageadas em nomes de salas e auditórios ao redor da Escola, como o professor Egon Schaden. “A ECA foi minha segunda casa, um lar profissional, acadêmico, de estudos e pesquisas, mas também entrelaçado com um lugar de inúmeras trocas afetivas, incluindo a própria origem do casamento e filhos.”

“Brincando com a lembrança presenteada pela escola por ocasião do evento de 50 anos da ECA, em 2017, que marcava 'ECA 50 anos', eu posso, jocosamente, hoje, em 2019, dizer que farei uma caneca onde se lerá: 50 anos de ECA!”

Também "cria" da Escola, como ele próprio definiu, o professor Angelo Pedro Piovesan Neto, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), teve seu primeiro contato com a ECA através da graduação, em 1979. Quarenta anos depois e uma carreira de excelência nas costas, Angelo sempre teve uma missão na universidade e fora dela: promover a inclusão. 

Professor Angelo Piovesan, coordenador do curso de Rádio e TV de 1986 a 1988

"Eu acho que o mais importante que a gente faz nesse mundo é tentar incluir tudo e todos, porque tolerância apenas não basta", disse o docente em seu discurso na cerimônia de homenagem. Em seu tempo como consultor da Organização das Nações Unidos, de 1991 a 1997, atuou com ênfase nos temas de comunicação, educação e saúde. Nessa época, promoveu a integração do CTR com as faculdades de Medicina e Enfermagem, através de cursos. 

Em 1985, Angelo tornou-se professor doutor na USP. Mas o título dentro da universidade não o impediu de sempre buscar conhecimento fora. Numa dinâmica recíproca de troca de conhecimentos entre a universidade e o mundo "fora dos muros", o docente sempre buscou essa integração. "Foi uma prática bastante intensa, às vezes difícil de conseguir conciliar", comenta. 

Professor em período integral durante sete anos e vice-chefe do departamento nos anos de 1989 e 1990, Angelo se retirou da função, mas manteve um propósito: "Continuei com a intenção – que acho que foi muito bem-sucedida – de tudo que eu estivesse fazendo fora da universidade estivesse diretamente relacionado ao que eu desenvolvia aqui na universidade."

Professores Almir Almas e Eduardo Monteiro entregam a menção honrosa a Angelo

A cerimônia do dia 25 de junho cumpriu sua missão ao "reconhecer o trabalho de pessoas que dedicaram uma vida inteira à esta instituição", nas palavras do próprio professor Angelo. A ECA, instituição de excelência reconhecida nacional e internacionalmente, alcança seus méritos graças, também, a professores como Celia Maria, Maria Christina, Angelo Piovesan e Michael Alpert, que se dedicam ao ensino de excelência e à formação de alunos como cidadãos. 

Homenageá-los é agradecer por tudo que já fizeram e continuam fazendo pela Escola.

 

Texto: Maria Eduarda Nogueira

Fotos e capa do destaque: Amanda Ferreira