Projetos de Artes coordenados por docente da ECA integram cotidiano escolar e comunidade

De um modo geral, quando se fala em artes, logo tem-se a imagem de quadros em museus, pintores, galerias, e, em algumas situações, de algo distanciado da vida das pessoas. No entanto, essa ideia pode ser facilmente quebrada quando as artes fazem parte do cotidiano, principalmente durante a formação pedagógica, na infância. Isso é o que acontece em vários projetos liderados pela docente do Departamento de Artes Plásticas (CAP) da ECA, Dália Rosenthal. Além de professora,  Dália também é arte-educadora, pesquisadora e artista visual. Dedica-se à formação de artistas, professores e ao desenvolvimento de oficinas de arte em escolas. Também pesquisa a relação entre a transdisciplinaridade, formação e arte coordenando diferentes projetos tais como o Ateliê Nossa Casa, nos quais desenvolve metodologias e abordagens para a realização de uma prática transdisciplinar. 

 

Oficinas de Arte: espaço de criação e criação do espaço-reflexão

O projeto Oficina de arte: espaço de criação e criação do espaço-reflexão é vinculado ao Programa Unificado de Bolsas da USP (PUB) e foi idealizado em 2017 pela professora, que conta com o auxílio de alunos bolsistas dos cursos de licenciatura em Artes Plásticas, Artes Cênicas e Música. Nele, os alunos são convidados a criarem de forma autoral sequências didáticas e oficinas que tem por objetivo o enriquecimento curricular da Escola de Aplicação, pertencente à Faculdade de Educação da USP. 

Em uma única iniciativa, educação, artes e pedagogia acabam se entrelaçando, como forma de projetar cenários de aprendizagens e reflexões sobre a maneira contemporânea de se pensar o ensino das Artes. O caráter experimental do projeto tem papel fundamental para a formação de futuros professores, principalmente pelas dificuldades educacionais que o país hoje atravessa. “O projeto é muito importante por oferecer um espaço de laboratório na formação do professor de arte. O bolsista acompanha as aulas e é acompanhado pelos professores da escola. É preciso pensar caminhos para formação de professores que permitam que os estudantes [de licenciatura] estejam mais presentes na escola, que estimulem a criação autoral  e possibilitem um período mais longo de aprendizagem em parceria com a escola”, relata Dália. O foco das oficinas são as Artes Visuais, mas, por se tratar de um projeto que privilegia a transdiciplinaridade, acabam ocorrendo diálogos com outras formas de expressão artística. 

As Artes Visuais dialogam com outras áreas e trabalham a transdisciplinaridade. Foto: reprodução.

Criado em 1970 pelo epistemólogo suíço Jean Piaget, o conceito de transdisciplinaridade defende o diálogo entre as diferentes áreas do saber, integrando a unidade do conhecimento e a complexidade que caracteriza sua construção. É um tipo de saber que está entre, através e além das diversas disciplinas, articulando vários elementos para que se possa formar uma nova compreensão da realidade. 

Além da coordenadora, as oficinas contam com a supervisão dos professores de Artes da Escola de Aplicação: Adriana Silva de Oliveira, Kelly Cristine Sabino, Lucymara Apostólico de Azevedo Abdounur, Marcelo D´Salete, e Maria Claudia Milan Robazzi. Todos eles realizam um trabalho em conjunto, onde são oferecidas oficinas em diversos horários e dias da semana, algumas no turno e outras no contra turno de aulas dos estudantes, que vão desde o Ensino Fundamental I ao Ensino Médio. O projeto também tem o objetivo de dialogar com as escolas públicas que estão no entorno da Universidade.

Os bolsistas e estagiários do projeto participam efetivamente do cotidiano da escola, o que permite a reflexão sobre sua própria prática docente e sobre todo o contexto de diversidade  sócio-cultural dos alunos. No decorrer do processo, há a participação em atividades escolares, como festas, mostras, passeios, organização e preparação de oficinas, ou seja, uma interferência direta nesse cotidiano, que é permeado pela transdisciplinaridade.

As crianças da Escola de Aplicação possuem um contato diário não apenas com seus professores e colegas, mas também com esses estagiários e bolsistas, deste e de outros projetos, o que contribui para uma convivência plural desde muito cedo: “para os alunos, cada pessoa  e cada proposta nova que chega traz um novo olhar para o processo de ensino e aprendizagem. E com isso se ampliam as possibilidades de pensar o mundo e os caminhos da construção de conhecimento”, comenta a coordenadora.

 

O Ateliê Nossa Casa

Dália também coordena o projeto Ateliê Nossa Casa, que surgiu em 2011 e é focado em crianças com idades entre 7 e 12 anos. Os módulos são semestrais, com encontros de duas horas, uma vez por semana, gratuitos e que acontecem em uma sala do Departamento de Artes Plásticas (CAP). O objetivo é o de promover um espaço coletivo no qual seja possível pensar a relação das artes com o meio ambiente e também com outras dimensões simbólicas de moradia. São elas: o  corpo, a escola, a família, a cidade, o país, o planeta, o universo e muitos outros espaços que podemos habitar e vivenciar como lar. 

Crianças realizando atividades no Ateliê Nossa Casa. Foto: reprodução blog Ateliê Nossa Casa.

O ateliê também é focado na prática transdisciplinar, integrando Artes, Cultura de Paz e Educação Ambiental. Em relação às Artes, o projeto entende que a reflexão e a criação são partes de um fazer artístico e do conhecimento. Com a Educação Ambiental busca-se trabalhar uma consciência de comunhão entre o ser humano e a natureza, compreendendo o pertencimento a um contexto de vida integrado, no qual estamos todos inseridos. Também aborda-se o conceito de sustentabilidade, que atualmente é um tema muito discutido na sociedade.

Um dos textos de referência do projeto é inclusive, a Carta da Terra, que teve sua primeira versão escrita em 1992, durante a Rio 92,  sendo uma inspiração para a busca de uma sociedade em que todos sejam responsáveis por ações de paz, respeito e igualdade. Assim, ela preza pelo bem-estar mundial e pela responsabilidade compartilhada de todos nós, ao tratar de temas éticos de grande importância para todos os cidadãos do século XXI, que refletem no cuidado com nosso planeta. A versão final da carta foi elaborada no ano 2000, no Palácio da Paz, em Haia, Holanda. O Ateliê reforça e aplica no cotidiano das oficinas os princípios básicos presentes no documento.

Com o conceito de Cultura de Paz trabalha-se a importância do diálogo com as diferenças e com a cultura de cada povo, mostrando às crianças que é possível viver em harmonia diante daquilo que é diferente. Trabalha-se a partir da Cultura de Paz, portanto, a transculturalidade. Para cada tema ou elemento abordado na oficina, procura-se oferecer um material artístico de diferentes culturas, criando um diálogo com outros povos, crenças e maneiras de existir. Isso se dá por meio de estudos de gravuras, esculturas, elementos da natureza e mitos de diferentes culturas. Assim, os conteúdos são trabalhados de maneira prática e teórica.

As relações horizontais também estão muito presentes nas oficinas: a metodologia utilizada coloca as crianças em constante diálogo entre elas, professores e educadores. Dália conta que está sempre presente em sala de aula, junto com os outros professores, que são estudantes da licenciatura em Artes Plásticas. “É uma relação muito interessante, pois realizamos tudo juntos, desde o planejamento, com os alunos da graduação, até a partilha desses projetos e a transformação daquilo que foi planejado e executado a partir das crianças”, conta.

Crianças em uma das aulas no Ateliê Nossa Casa. Foto: reprodução blog Ateliê Nossa Casa.

Um fator muito importante para os projetos educacionais é que sejam continuados, algo que muitas vezes não acontece em diversos âmbitos, seja no governamental ou no institucional. As oficinas, por exemplo, surgiram de um Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) e foram continuadas: “quando o PIBID terminou, nossa experiência havia sido tão rica que resolvemos continuar a parceria.  Neste contexto nasceu este projeto atual”, conta a coordenadora.

A coordenadora dos projetos em Arte, Dália Rosenthal, junto com alunos e educadores do ateliê. Foto: reprodução blog Ateliê Nossa Casa. 

Tanto as Oficinas de Arte na Escola de Aplicação quanto o Ateliê Nossa Casa são projetos que correspondem a um dos pilares da Universidade, o de Extensão, que vai além do Ensino e da Pesquisa: significa atravessar os muros da academia e se estender ao fazer coletivo, sensibilizando diretamente a formação de futuros educadores e o cotidiano de muitas crianças, resultando em um grande impacto na sociedade. 

 

Texto: Samantha Nascimento da Silva