Revista Matrizes: artigo analisa como "maratonar" Netflix tem a ver com cultura do imediatismo

Para a pesquisadora Milly Buonanno, a maratona de mídia está associada à aceleração do ritmo de vida da sociedade contemporânea

“Maratonar” uma série de TV se tornou hábito de muitas pessoas e, nos últimos anos, tem se tornado tema de estudos que buscam compreender essa relação entre narrativa e sua audiência. Compreender os efeitos das novas tendências de consumo da TV on demand na serialidade da ficção televisiva é o propósito do artigo Serialidade: continuidade e ruptura no ambiente midiático e cultural contemporâneo, da pesquisadora Milly Buonanno, da Universitá di Roma La Sapienza, publicado na nova edição da revista Matrizes.

Para a autora, a visualização compactada – ou maratona de mídia – exige que “ampliemos nossa visão para reconhecer como a prática da maratona não é simplesmente a filha da inovação tecnológica, mas é informada pelos princípios culturais de nosso tempo”. É associada, portanto, a uma cultura de imediatismo e simultaneidade, “que evita os atrasos temporais inerentes ao princípio da gratificação adiada adotado pela serialidade”. Na opinião da pesquisadora, a maratona de mídia está intimamente associada com a aceleração do ritmo da vida. 

Se, no passado, a interrupção da narrativa com o fim do capítulo ou episódio possuía um papel estratégico na experiência da serialidade, com o “Paradigma Netflix”, a serialidade televisiva é modificada, afetando a forma de criação de significado e transformando a série em uma narrativa initerrupta. “O que se perde, em particular, é a experiência única da passagem paralela (embora não sincronizada) do tempo na narrativa ficcional e na realidade de nossa vida”, em que a narrativa ficcional se entrelaça com a vida dos espectadores e, nos momentos de ruptura, abre espaço para discussão, reflexão e expectativas em relação ao próximo episódio. “O que se perde, em última análise, é a própria serialidade”, conclui. 


Revista Matrizes, v. 13, n. 3 (2019)

Matrizes, é a revista do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) e, nesta edição, traz ainda uma entrevista com o pesquisador Massimo Leone, da Università degli Studi di Torino, sobre comunicação digital, ontologia e semiótica. Também contribuem para o periódico os professores do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP) Clotilde Perez e Eneus Trindade, em artigo sobre as mediações comunicacionais do consumo na contemporaneidade, e a professora Irene Machado, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA).

Matrizes está disponível para download gratuito no portal de Revistas da USP