A trajetória de Suzana Amaral no cinema e na ECA

Egressa da Escola, diretora de “A Hora da Estrela” faleceu nesta quinta

 

Suzana Amaral teve nove filhos, oito antes de entrar no curso de Cinema da ECA, em 1968. Segundo seu sobrinho, o professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR) João Paulo Schlittler, a família conta que o primogênito da futura cineasta havia entrado na USP um ano antes para cursar filosofia, e escapou de ser veterano da mãe porque foi fotografar as barricadas em Paris.

Quando A Hora da Estrela (1986) faturou diversos prêmios no Brasil e no mundo – incluindo o Urso de Prata de Melhor Atriz para Marcélia Cartaxo –, Suzana ficou conhecida como “a dona de casa que virou cineasta”. Embora já tenha afirmado não se incomodar com o rótulo, a diretora nunca se identificou com a imagem de mãe devotada. E fazia questão de ressaltar sua relação de longa data com o cinema: “dona de casa, até parece! Fazia dez anos que eu estudava cinema, trabalhei na TV Cultura por 18 anos. Ninguém vai fazer 'A Hora da Estrela' de sua cozinha. Até porque eu odeio cozinha, como todo dia fora de casa. Dessas coisas femininas, eu só tive uma porrada de filhos. E isso porque eu gostava de transar".

No início dos anos 70, já formada, Suzana deu à luz sua filha caçula. Os filhos mais velhos e o resto da família se encarregaram dos cuidados com a criança para que a mãe pudesse se dedicar aos estudos e a vida profissional. Nessa época, ela chegou a ministrar aulas de fotografia e roteiro na ECA, além de iniciar seu trabalho como produtora e diretora na TV Cultura, filmando diversos documentários em curta-metragem para o extinto programa Câmera Aberta. De sua passagem pela emissora, merecem destaque o curta-metragem Érico Veríssimo (1975), homenagem póstuma ao escritor; a série Pensamento e Linguagem e A Casa de Bernarda Alba, adaptação da obra de Federico García Lorca.

Entre 1976 e 1979, Suzana faz mestrado em Direção de Cinema na Tisch School of the Arts, na New York University. Lá – onde foi colega dos cineastas Jim Jarmusch e Susan Seidelman – ela teve a ideia de adaptar A Hora da Estrela para seu primeiro longa-metragem. Também em Nova York, conclui em 1978 o curso de atuação e direção de filmes no Actor's Studio.

De volta ao Brasil, a diretora foi premiada no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro com o documentário Minha Vida, Minha Luta, seu trabalho de conclusão do mestrado. O filme serviu como inspiração para a luta por creches na periferia de São Paulo, que naquele momento ganhava força.

 

Suzana Amaral e Marcélia Cartaxo no set de A Hora da EstrelaSuzana Amaral no set de filmagem de A Hora da Estrela. À direita, a atriz Marcélia Cartaxo, que interpretou a protagonista Macabéa. Foto: divulgação

 

A partir da segunda metade da década de 80, com o sucesso de A Hora da Estrela, Suzana preside comissões julgadoras de importantes festivais de cinema, como o de Havana (1987) e o de Berlim (1990), além de participar de conferências em países como Estados Unidos e Espanha e dirigir em 1992 a minissérie Procura-se para a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP). Atua também como crítica de cinema para a Folha de São Paulo e faz parte do júri de diversas edições da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Entre 1999 e 2001 Suzana tem um breve retorno à docência na ECA, para em seguida firmar-se como professora da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Nesse período, lança seu segundo longa, Uma Vida em Segredo (2001).

Como cineasta, Suzana "sempre buscou a simplicidade, o minimalismo, a naturalidade, como na escolha da Marcélia Cartaxo para fazer a Macabéa em A Hora da Estrela; atriz que não 'exagerava', pois tinha horror a overacting”, afirma João Paulo Schlittler, que fez o storyboard do filme enquanto ainda era estudante na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). Anos mais tarde, o professor viria a colaborar novamente com a tia, desta vez criando a abertura de Hotel Atlântico (2009), terceiro e último longa da diretora. “Lembro das reuniões com o Zé Bob, diretor de fotografia. Ela sempre escutava e respeitava o expertise dos profissionais da equipe. Dizia que diretor tem que saber dirigir ator; neste filme passava horas ensaiando com o Júlio Ribeiro, em uma sinergia incrível entre o ator e diretora."

Schlittler conta ainda que a realizadora vinha trabalhando nos últimos anos em um novo projeto, “um dos seus sonhos ainda não realizados” e infelizmente interrompido depois de um AVC que Suzana sofreu há pouco mais de um ano. Trata-se do longa O Caso Morel, baseado no romance de Rubem Fonseca. Aliás, a cineasta afirmava que não fazia adaptações, e sim “transmutações”: “na transmutação eu me coloco também, é uma mistura. É o livro mais eu mesma. Eu o leio e me incluo na transcrição de uma coisa pra outra, então ele muda devido à minha entrada. Tem cenas que não existem no livro e eu fiz acontecer, que eram coisas da minha vida pessoal. É uma incorporação de mim com o autor do livro”.

A morte de Suzana representa uma perda inestimável para o cinema brasileiro, e é lamentada pela diretoria da Escola e por todo o corpo docente do CTR. Além de Schlittler, os professores Maria Dora Mourão, Carlos Augusto Calil e Fernando Scavone também tiveram a oportunidade de conviver com a cineasta, tendo sido seus colegas durante os anos de graduação.

 

"O ser mais vívido da classe"

Em depoimento originalmente publicado no Facebook, Thiago Villas-Boas, ex-aluno do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR) resgata memórias da passagem de Suzana Amaral pela docência, entre 1999 e 2001. Para ler na íntegra, clique aqui