Um ecano jornadeiro

 

Sempre no primeiro mês do ano aproximadamente 40 alunos do curso de Ciências Farmacêuticas da USP se reúnem e visitam uma cidade do Brasil – trata-se do projeto de extensão Jornada Científica, que em 2012, aconteceu em Canitar, interior de São Paulo, entre os dias 7 e 25 de janeiro.

A Jornada Científica tem como foco principal a educação em saúde. Em mais de 40 anos de história, a Jornada aconteceu em mais de 10 cidades, atendendo mais de 10 mil pessoas, tendo realizado mais de 30 mil exames.

Assim como outros projetos de extensão da universidade, está abrindo os seus horizontes para parcerias com outras faculdades, tornando realidade a ideia interdisciplinar de integração. Este ano, além dos alunos do curso de farmácia, também participaram do projeto uma aluna de enfermagem, uma de nutrição e um de comunicação social.


Equipe Jornada Científica 2012

 

HISTÓRIA

Em 1966, na cidade de Peruíbe, litoral sul paulista, alunos e professores do curso de Ciências Farmacêuticas da USP criaram o projeto Jornada Científica que tem até hoje os mesmos  objetivos.
 


 

Para a professora Primavera Borelli, ex-jornadeira e atual responsável pela supervisão do trabalho realizado pelos alunos, a essência da Jornada continua a mesma: "trata-se do desejo de mudar as condições de vida de uma população por meio da atenção básica e educação". Entre outros comentários, a professora ressalta o fato de os alunos terem a capacidade de organizar um projeto dessa magnitude com competência e seriedade.


Professora Primavera Borelli

A ideia de haver alunos de outras faculdades integrando a equipe da Jornada Científica reforça essa competência que o projeto busca: como melhorar cada vez mais o atendimento? Como aplicar novas atividades? Como comunicar melhor? Nos termos da comunicação, como levar informações vitais para saúde a uma população que não está habituada à vida digital ou que não se comunica com a rapidez do século XXI?

 

A JORNADA

Durante aproximadamente 20 dias de Jornada os estudantes imergem em uma história e se tornam parte de uma cidade. Deixam suas casas e partem para uma missão onde ficarão isolados da agitação da vida urbana de uma cidade grande como São Paulo. Durante este período, o jornadeiro deve se preocupar apenas com a Jornada.

Para ser um jornadeiro é preciso passar por um processo seletivo. Os candidatos precisam frequentar treinamentos semanais por 6 meses. Por fim, é realizada uma avaliação e os aprovados integrarão, junto à coordenação do projeto, o grupo de jornadeiros do ano vigente.

A coordenação do projeto é formada por alguns jornadeiros que, por se destacarem em alguns aspectos como liderança, responsabilidade, motivação, entre outros, são escolhidos pela equipe de coordenadores do ano anterior. Em suma, uma coordenação passa a faixa para a próxima. Atualmente a coordenação é formada por 9 jornadeiros.


Coordenação da Jornada Científica 2012

A responsabilidade da equipe de coordenação foi sempre exemplar. Como comunicadores, estamos cientes dos problemas que podem ser gerados por uma comunicação falha. Essa preocupação se mostrou presente em todas as ações feitas na cidade. O projeto já sofreu, em edições anterirores, com comentários equivocados – fato que reforça a importância do papel da comunicação para qualquer projeto, em qualquer dimensão.

 

O TRABALHO

Todo o trabalho realizado pela Jornada Científica pode ser resumido em duas frentes principais de atuação: o trabalho de campo, responsável por visitar a casa dos moradores, coletar amostras e fazer pequenos exames, e o trabalho laboratorial, que recebe os exames e faz as análises para verificar a incidência de parasitose ou outras complicações.
 

As visitas aos moradores são feitas tanto na zona urbana quanto na zona rural

 

Após coletada as amostras, a equipe de laboratório faz as análises

 

Para o professor Leandro Batista, do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP),  uma parceria com uma faculdade de comunicação se mostra mais do que necessária. Para ele, "pode-se, por exemplo, concentrar na capacidade informativa dos rótulos, bulas etc., como forma de garantir sua leitura (ser atrativo) e compreensão (ser informativo)".

O professor comenta também sobre o foco "na análise das peças publicitárias em cumprir com as regras da Anvisa, nos efeitos persuasivos de indução de compra, nos efeitos do uso de autoridade (médicos e dentistas recomendam) e coisas do tipo", além de ter observado que "para a área da farmácia, a comunicação poderia aumentar o conhecimento e resistência à persuasão, permitindo uma compra melhor e mais apropriada."

Após o fechamento e levantamento dos dados obtidos pela equipe de campo e analisados pela equipe laboratorial, os moradores recebem uma última visita para ouvir o resultado dos exames e as orientações. Todos os exames são assinados e certificados pela professora Primavera e pela farmacêutica responsável, Alice Hermínia, também ex-jornadeira.

Entre pequenos exames e análises laboratoriais, todos recebem orientação

 

NOVO COMEÇO

Neste momento o trabalho parece ter terminado, mas no último dia de projeto ele está apenas recomeçando. Escolhida e anunciada no último dia de atividades, a nova coordenação agora precisa se preparar para a Jornada do ano seguinte e um relatório precisa ser elaborado para balanceamento dos dados. Este balanço será entregue para Pró-Reitoria de Cultura e Extensão, mas sua importância está além da justificativa: por meio dele, serão elaboradas as novas estratégias para a Jornada 2013.

A Jornada Científica se mostra muito além de um projeto de extensão: ela transforma a ideia de extensão universitária em realidade. O projeto possui um começo, um meio, mas não um fim. As ações realizadas pela Jornada jamais serão esquecidas, pois ficarão na memória de todos aqueles que se envolveram com o projeto de alguma forma.

Ações estruturantes caracterizam parte do trabalho realizado pelos Jornadeiros
 

 

POR FIM

Aproveito para fazer um agradecimento para o amigo e fotógrafo Caio Paganotti ,também aluno da ECA, que me emprestou parte do seu material de trabalho, e para a amiga e jornalista Emily Stephano, que sempre me ajuda a encontrar  palavras. Sem eles, esse e outros trabalhos certamente seriam muito mais complicados.

Não poderia deixar de fazer um agradecimento especial para toda a equipe da Jornada Científica, por ter me proporcionado uma das melhores experiências da minha vida. Uma experiência que me fez repensar opiniões, me fez ver a vida com outros olhos.

Descobri muito mais do que um projeto de extensão. Descobri que podemos ser muito mais do que alunos de comunicação ou farmácia, que podemos ser agentes multiplicadores e que podemos plantar a semente da cidadania no coração de todos a nossa volta, transformando muitas vidas.


 

A Jornada Científica me mostrou algo muito além da interdisciplinaridade ou da educação em saúde. Desde o meu primeiro contato com todos os envolvidos com o projeto, a Jornada me acolheu dentro da sua proposta e me permitiu sentir algo único: o sentimento por ser um ECAno Jornadeiro.

 

texto e fotos de Silvio Augusto Júnior