Mestrado analisa a comunicação no mundo do trabalho dos carregadores da Ceagesp

Ao dar visibilidade aos carregadores, estudo revela papel da comunicação na identidade profissional e pessoal desses trabalhadores

 

Atual doutorando do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM), Jamir Osvaldo Kinoshita desenvolveu, para o mestrado, a dissertação A comunicação no mundo do trabalho dos carregadores da Ceagesp, sob orientação da professora Roseli Fígaro Paulino e com financiamento da Capes. A pesquisa buscou apreender aspectos da comunicação desses trabalhadores, que, apesar da grande relevância, muitas vezes ficam invisíveis à população.

A dissertação abre caminhos para um olhar crítico sobre a realidade dos carregadores da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), maior central de abastecimento da América Latina de frutas, legumes, verduras, flores, pescados e diversos (alho, batata, cebola, coco seco e ovos). O local possui hoje 3.600 trabalhadores atuando no Entreposto Terminal São Paulo (ETSP), na Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo. Autônomos, os carregadores chegam a transportar cerca de 12 mil toneladas de produtos diariamente, exercendo um papel de extrema importância dentro de toda a cadeia de abastecimento da cidade.

A reconhecida importância da categoria não impede que a atividade siga sendo executada, na avaliação do pesquisador, "seguindo princípios medievais e sem apoio algum tecnológico". A atividade é majoritariamente masculina e demanda muita força física, sendo um dos muitos trabalhos precarizados sob o neoliberalismo vigente, aponta o estudo.

Ao analisar os discursos dos carregadores, Jamir observou ainda que "o trabalho, para os carregadores, é que lhes possibilita se reconhecerem enquanto sujeitos, é o que lhes confere identidade". Esse mesmo discurso revela também as dificuldades com as condições insalubres de trabalho, o sentimento de solidão no ofício e os profundos desgastes vividos por estes trabalhadores. Sem apoio, o carregador se vale do "boca a boca", também conhecido como "rádio peão", para se manter informado do que acontece dentro e fora do entreposto e para garantir serviço.

 


Foto: Ceagesp 

 

Desenvolvimento da pesquisa

Desde 2017, Jamir Kinoshita é pesquisador do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT). Ele explica que a ideia do estudo decorreu da sua passagem como coordenador adjunto de Comunicação e Marketing da Ceagesp, na época ligada ao Ministério da Agricultura.  “Ao ver in loco os carregadores, pude perceber a importância da atividade desempenhada por eles que, aliás, mantêm interlocução com os mais variados públicos que circulam pelo ETSP, que recebe uma média diária de 50 mil pessoas e 12 mil veículos".

A pesquisa foi realizada a partir de observação de campo geral e específica, por meio de registros fotográficos e entrevistas. Jamir analisou a execução das tarefas dos trabalhadores em dois ambientes distintos de comercialização: na Feira de Flores e no Pátio do Pescado. Mesmo com as dificuldades do dia a dia para o transporte dos mais diferentes tipos de mercadorias, "é possível reconhecer todo um conhecimento prático, que é convocado pelo carregador para que ele possa executar seu serviço da melhor forma possível", conta o pesquisador. Dessa maneira, "conseguimos ver o caráter inédito do trabalho e as renormalizações que fazem com que carregar morangos tenha uma lógica totalmente diferente de transportar flores e pescados, por exemplo".

Para o pesquisador, a relevância da dissertação está em dar vez e voz a esses trabalhadores: “o mais significativo da pesquisa foi colocar em primeiro plano uma esfera laboral que geralmente é desconsiderada socialmente".

É possível fazer o download do trabalho na íntegra na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.

 

Carregadores do Ceagesp no Pátio do Pescado. Foto: Jamir Kinoshita.