A deficiência é apenas uma questão de olhar

Como proposta do semestre para a disciplina Produção Audiovisual II, ministrada pelo professor Sérgio Bairon, do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP), alunos do quarto ano do curso de Publicidade e Propaganda tinham um desafio: produzir um vídeo institucional para uma ONG. Uma das integrantes do grupo resolveu então procurar Eliane Lemos, psicóloga com larga atuação em questões relacionadas a pessoas com deficiência.

Eliane foi, por muitos anos, membro da equipe de Steven Dubner – professor de Educação Física que ganhou notoriedade pelo trabalho nos esportes adaptados às pessoas com deficiência. Na época, ela era a responsável pela avaliação psicológica dos atletas com deficiência visual. Mais tarde, em 2001 e ainda ao lado de Dubner, criou a Cesta de Três – primeira equipe da América do Sul de basquete sobre rodas para crianças e adolescentes, que permanece ativa até hoje.
 


"O mundo precisa de pessoas que façam mais do checar a lista de atividades, precisa de pessoas engajadas com o algo a mais. Acredito sempre que as pessoas podem ser mais, ir além', diz Eliane Lemos, fundadora da ONG Entre Rodas&Batom

"Foram várias aulas, entrevistas, publicações, participação em eventos científicos, entre outras situações sobre a pessoa com deficiência que ajudaram a moldar a ideia do Entre Rodas&Batom", conta a psicóloga que, ainda em 2009, promoveu o primeiro encontro da ONG que os alunos escolheram como cliente do projeto. Desde então, a entidade realiza palestras e outras atividades, mas sempre de forma pontual. "Precisamos de verba para que as coisas aconteçam. E para isso, temos que estar regularizados juridicamente", diz.

A arrecadação de recursos para possibilitar o registro jurídico da Entre Rodas&Batom foi justamente o mote do vídeo produzido pelos alunos de publicidade, que serviria como chamada para uma campanha de captação de recursos. Os desafios, no entanto, iam além: ‘percebemos que a questão da deficiência era um tema muito difícil, e que precisaríamos fazer um grande embasamento teórico para conseguir elaborar um conceito para o vídeo’, contam os integrantes do grupo.
 


A ONG Entre Rodas&Batom existe desde 2009, mas, desde então, realiza apenas encontros pontuais. 'Precisamos nos construir juridicamente para termos verba e sermos capazes de dar continuidade aos projetos', conta a fundadora.
 

Ao longo do processo, por ter uma relação com a academia, Eliane se mostrou muito interessada na pesquisa teórica que os alunos desenvolveram previamente à produção do vídeo. Normalmente, em uma situação de mercado, não haveria tanto tempo para se dedicar à teoria e o foco estaria na qualidade estética da produção audiovisual, coisa que não era prioridade nem para os alunos, nem para a ONG. ‘Tivemos total liberdade criativa e isso foi essencial para desenvolvermos nossa ideia’, conta o grupo.

O resultado do processo foi um vídeo de três minutos, que mostra o dia-a-dia de uma mulher com deficiência. Para a fundadora da ONG, o resultado não poderia ter sido melhor: ‘A profundidade desse vídeo é inexplicável. São muitos anos em um universo em que é preciso repetir e repetir para que os profissionais compreendam a vida da pessoa com deficiência. E essa turma, mesmo tão jovem, trouxe uma esperança ao meu coração. Já brifei vários profissionais da comunicação para que pudessem desenvolver algo semelhante, e nunca tinha conseguido algo tão bom quanto agora’, revela Eliane.

 


O vídeo, que mostra o dia-a-dia de uma mulher com deficiência, já teve quase sete mil acessos e conseguiu arrecadar mais de dois mil reais. 'Estamos felizes em ver que o projeto tem muita chance de arrecadar a quantia nos próximos dois meses. Foi interessante ver que as pessoas compartilhavam a ideia por conta própria, contam os integrantes do grupo.
 

Os alunos também ficaram satisfeitos com o resultado: ‘Recebemos algumas mensagens de mulheres com deficiência dizendo que amaram a sensibilidade e realidade do vídeo. Foi uma das experiências mais marcantes que tivemos, tanto acadêmica como pessoalmente’, contam. O envolvimento com a Entre Rodas&Batom ultrapassou as salas de aula e, por iniciativa própria, o grupo levou a campanha de arrecadação de recursos para a regularização jurídica da ONG para a internet.

A plataforma escolhida foi o Catarse – maior site do Brasil de financiamento coletivo. A prática consiste na obtenção de capital através de múltiplos colaboradores que se tornam fontes de financiamento. Até agora, o projeto dos alunos de publicidade da ECA já obteve 43 colaboradores e um total arrecadado de R$ 2.205. Até o dia 3 de outubro, é preciso arrecadar um total de R$ 6.780 para homologar as doações.

Para ajudar o projeto dos alunos para a ONG Entre Rodas e Batom basta entrar no Catarse e fazer um breve cadastro. Depois, na página do projeto, é possível escolher o valor da doação, que parte de R$ 15. As doações são recompensadas com um brinde, que vai desde um adesivo, até bottons, camisetas, batom e um cartaz emoldurado. Tudo produzido também pelos alunos, especialmente para a campanha da ONG.
 


Todos os produtos foram desenvolvidos pelos próprios alunos especialmente para a Entre Rodas&Batom, para servirem como brindes aos doadores da campanha no Catarse e, depois, serem vendidos pela ONG. Até agora, já foram 43 colaboradores.

 

Disciplina Produção Audiovisual II,  professor Sérgio Bairon, do CRP
Integram o grupo dos alunos de quarto ano do curso de Publicidade e Propaganda: Natália Tonello, Paulo Chou, Lilia Quinaud, Denis Mercaldi, Alexandre Vaz de Oliveira e Bruno Abbate

 

por Giuliano Tonasso Galli