Farofa Crítica: a emancipação da negritude através do empreendedorismo

A entrevistada da semana do Farofa Crítica, Dandara Elias, conta sua trajetória como empresária e como ela visa emancipar a população negra por meio da estética

 

O empreendedorismo, no Brasil, é uma tendência crescente que, em 2018, atingiu 38% da população adulta (entre 18 e 64 anos). Aproximadamente 52 milhões de brasileiros possuem o próprio negócio, segundo uma pesquisa realizada pela Global Entrepreneurship Monitor (GEM). A partir dessa perspectiva, pode parecer que a diversidade de produtos e serviços seja grande e consiga suprir toda a população do país. 

No entanto, mesmo com tantos profissionais atuantes, determinadas pessoas ficam de fora da ótica do mercado. É o caso da população negra. No quesito estética, por exemplo, sabe-se que há 10 anos poucas marcas desenvolviam produtos para cabelos crespos e cacheados, bem como maquiagens que contemplassem as diversas tonalidades da pele negra. 

Tendo como objetivo alcançar esse público, cresce, no Brasil, o chamado afroempreendedorismo: profissionais negros que buscam, através de seus próprios negócios, oferecer produtos e serviços que atendam as demandas da população negra. Esse é o caso da entrevistada do Farofa Crítica dessa semana, Dandara Elias, uma empresária negra formada em Ciências do Estado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e dona de três empresas focadas na emancipação negra através da valorização da própria estética.

Sobre sua formação acadêmica, Dandara afirma que achava que mudaria o mundo por meio da política, mas que se desiludiu com a ideia durante o curso e, mesmo assim, conseguiu compreender que poderia realizar essa mudança fora de uma estrutura formal. Quando fez uma viagem de intercâmbio à África do Sul, ela teve uma surpresa: a segregação racial que há no país - marcado pelos resquícios do recém-terminado regime de apartheid -, em nada se diferia da segregação existente no Brasil. Da necessidade de combater o racismo, Dandara sabia que deveria empreender.

Dandara Elias, entrevistada do Farofa Crítica desta semana. Foto: site do CJE

O pontapé inicial de suas empresas surgiu com o afloramento de suas emoções durante a transição capilar. Dandara tinha necessidade de se autoafirmar para o mundo como alguém que ama a sua estética. Assim, ela pegou o pouco dinheiro que possuía e investiu em 10 camisetas que diziam “eu amo meu cabelo”, criou uma página no Facebook chamada Todo Black é Power e mandou mensagens para cada usuário negro que ela conhecia se apresentando e mostrando a sua ideia.

Dandara decidiu então inaugurar em sua cidade um salão de cabeleireiro focado em cabelos cacheados, tendo em vista que lá não havia profissionais capacitados para tratar o cabelo da população negra de forma natural, ou seja, sem uso de agentes químicos. O negócio expandiu-se e a empresária criou também uma escola para capacitar os membros do salão, além de um centro de compras. 

Ao mencionar as dificuldades que enfrentou, a empresária destaca a relação com os bancos. Os atendentes não reconheciam Dandara como a dona da empresa que buscava crédito. Além de uma empresa com bons números, a aparência é significativa para obter empréstimos, e o racismo faz com que uma mulher negra não se encaixe nos padrões existentes. Apesar disso, Dandara soube usar sua educação e não deixou de se sentir preparada para enfrentar a situação.

O marketing das empresas de Dandara é totalmente digital e gerido por ela. Preocupada com a sustentabilidade e o meio ambiente, ela nunca quis um panfleto com “sua marca sendo jogada no chão”. Ela assumiu o marketing de seus negócios depois de contratar agências e sentir que precisava sempre fiscalizar e ensiná-las como se comunicar com o público negro.

Atualmente, Dandara planeja novos voos, como tornar-se uma investidora de afronegócios e abrir uma casa de cultura. Com o crescimento da população negra empreendedora, ela acredita que é de suma importância se profissionalizar e entender temas como planejamento financeiro e impostos. Além disso, Dandara cita organizações importantes para a coletividade e a profissionalização dos afroempreendedores, como a Rede Brasil Empreendedor (REAFRO) e a Feira Preta.

 

Sobre o Farofa Crítica

O programa Farofa Crítica, apresentado pelo professor Dennis Oliveira, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), entrevista intelectuais, ativistas, pesquisadores, entre outros, sempre discutindo temas da atualidade. Produção do Centro de Estudos Latino-americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC) em parceria com o CJE, o programa conta com apoio do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.

A operação de câmera é realizada por Alexandre Gennari, Djalma Ferreira e Guilherme Lima. Alexandre Gennari também é diretor de imagem, enquando Djalma Ferreira atua como assistente de estúdio e Guilherme Lima assina a edição.

Farofa Crítica vai ao ar todas às quintas no horário do almoço. A entrevista de Dandara, assim como as demais realizadas, podem ser acessadas no canal do programa no Youtube e no site do CJE