Jean Pierre Chauvin dá aula pública sobre a escravidão nas obras de Machado de Assis

Em programa gravado em novembro e exibido em dezembro de 2017, Jean Pierre Chauvin aborda, em aula pública para a Rede TVT, a presença da temática de escravidão nas obras do autor brasileiro Machado de Assis. Docente do curso de Editoração do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), Chauvin fez com mestrado e doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP).

Chavin cita, por exemplo, a relação entre Brás Cubas e o escravo Prudêncio, do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Ele descreve o capítulo O vergalho, no qual Brás presencia a cena de um escravo sendo agredindo por outro e, depois de olhar melhor, descobre que o agressor era Prudêncio, escravo de sua infância que, na vida adulta, tornou-se um homem livre. Diante dessa situação, "ele [Brás Cubas] assume o papel de patrão, que ele nunca vai deixar de ser, e diz para o ex-escravo dele liberar o escravo atual", conta. Prudêncio então libera o escravo. "Essa perversão das relações sociais assimetricas do Brasil do final do século XIX, é isso que o romance está mostrando o tempo inteiro", explica Chavin.

Outro ponto apresentado pelo docente é sobre como os escravos eram tratados e como escritor expunha isso na sua obra: poucos deles tinham nomes, ou quando tinham, o nome refletia aquilo que o escravo deveria ser, caso de Prudêncio. “Essa ausência de nomes é sintomática de um país que não os considera como gente”, conclui.

Chauvin fala também sobre a influência de outros autores na obra de Machado de Assis, como, por exemplo, do escritor irlandês Laurence Sterne, citado em Memórias Póstumas. Outro exemplo são as obras de William Shakespeare, que, segundo Chavin, ajudam a entender a narrativa do escritor brasileiro. Para o docente, perde-se muito ao ler o romance como "uma coisa isolada, brasileira, irônica, cínica etc. Ele precisa ser lido também culturalmente, num contexto maior, histórico, da escravidão, mas também cultural”, pontua. 

A primeira parte da aula pode ser acessada aqui e a segunda parte aqui