Maria Aparecida Baccega: uma trajetória intelectual e política

A longa carreira de Maria Aparecida Baccega revela uma intelectual comprometida com as questões do seu tempo, engajada na ampliação do acesso ao conhecimento e líder ativa de uma ampla rede de pesquisadores. Falecida no dia 3 de janeiro, aos 76 anos, a docente teve contribuição decisiva para a história do Departamento de Comunicações e Artes (CCA), onde atuou por 25 anos na formação de profissionais e estudiosos do campo da comunicação.


Em 2016, quando foi homenageada nas comemorações dos 50 anos do Departamento de Comunicações e Artes

Nascida em Ribeirão Preto, Baccega mostrou, desde muito jovem, sua inquietação com os problemas sociais e sua vocação para o ativismo político: trabalhou em escolas rurais e, aos 14 anos, ingressou no Partido Comunista (PCB). Após dez anos de PCB, ingressa na então recém-criada Ação Libertadora Nacional (ALN), organização revolucionária que lutou contra o regime militar. Paralelamente, fez a graduação em Ciências Jurídicas e Sociais, exercendo a profissão de advogada por um breve período. De janeiro a março de 1964, vai trabalhar com Paulo Freire em Brasília para, finalmente, ingressar no curso de Letras da USP, concluindo a graduação em 1975.

Após breve passagem como professora na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Maria Aparecida Baccega chegou à ECA em 1978, por indicação do professor Dino Preti, para atuar como auxiliar de ensino. No Departamento de Comunicações e Artes (CCA), deu continuidade aos seus estudos, realizando na FFLCH seu mestrado (1981) e doutorado (1986) e, na ECA, a livre-docência (1991). “Eu me formei junto com o Departamento”, contou à docente em entrevista à TV USP, em 2015. “À medida que eu fui crescendo e me modificando, eu fui modificando as coisas que estavam ao meu redor”. 

Uma das pioneiras no estudo do papel social da telenovela, Baccega também teve importante contribuição para os estudos de comunicação e educação, esforços que, anos mais tarde, ajudaram na criação do curso de Licenciatura em Educomunicação da ECA. Foi fundadora, em 1994, da revista Comunicação & Educação, atuando como membro do Conselho Editorial e da Comissão de Publicação por quase dez anos. “Comunicação e educação foi um tema ao qual me dediquei muito e me orgulho disso”. Para a docente, a publicação “abriu um espaço que não existia” para falar sobre comunicação e educação na Universidade.

Da esquerda para a direita: Maria Immacolata Vassallo de Lopes, Maria Aparecida Baccega, Adilson Citelli e Roseli Fígaro, durante as comemorações dos 20 anos da revista Comunicação e Educação, em 2014. 

Baccega atuou por 25 anos na graduação, na pós-graduação, junto ao Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) e na especialização, tendo sido coordenadora e docente do curso de Gestão da Comunicação de 1993 e 2003. Como pesquisadora, atuou no Centro de Pesquisa de Telenovela, no Centro de Pesquisa Comunicação e Trabalho, no Observatório Iberoamericano de Ficção Televisiva (OBITEL) da USP e do Núcleo de Pesquisa Comunicação e Práticas de Consumo, da ESPM.

 

Manifestações e depoimentos sobre Maria Aparecida Baccega:

"[...] gostaria de externar toda nossa gratidão pelos aprendizados e pela indicação de caminhos para pesquisa, docência e extensão e, sobretudo, para o campo de lutas em prol da Educação e da Comunicação em nosso país".

Maria Cristina Palma Mungioli
Chefe do Departamento de Comunicações e Artes (CCA)

Foto: Reprodução

"Maria Aparecida Baccega foi uma líder engajada e comprometida – soube gerir as relações dos professores e entre professores do CCA, criou uma rede de colaboração e participação na vida política e social da universidade e do país [...]".

Cristina Costa
Vice-chefe do Departamento de Comunicações e Artes (CCA)

Foto: Marcos Santos

 

"Ela foi uma personalidade inconfundível que dedicou sua vida à formação de novas gerações, da alfabetização em escolas rurais ao ensino e à pesquisa na Universidade de São Paulo [...]". 

Roseli Fígaro
Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM)

Foto: Divulgação

 

"Baccega foi uma intelectual importante nos estudos das Ciências da Comunicação. Foi também a minha orientadora de doutorado. Tinha um gênio peculiar. A sua voz tinha uma potência da mitológica Iansã (forte, poderosa, inconteste). Fará falta, mas devemos entender o fluxo da vida. Deixou obras importantes e muitos intelectuais formados por ela. O seu pensamento continuará".

Ricardo Alexino Ferreira
Docente do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE)

Foto: Marcos Santos

 

 

"[...] Baccega foi docente do Departamento de Comunicações e Artes (CCA) da ECA e também do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM), com destacada atuação na pesquisa de comunicação e realizou vários projetos em conjunto com docentes do CJE. A sua partida é uma grande perda para a Universidade, em especial para a área de comunicação. Manifestamos nossos mais profundos sentimentos a todos os seus familiares e amigos".

Nota do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE)

Foto: USP Imagens

 

Também manifestaram pesar sobre o falecimento de Maria Aparecida Baccega o Centro de Pesquisa Comunicação & Trabalho, do qual a docente era vice-coordenadora, e a Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação.

Fotos: Eduardo Peñuela
Texto: Verônica Cristo