As mensagens implícitas no silêncio da imprensa sobre o sistema prisional

Omissão de assuntos na cobertura do sistema prisional brasileiro revela certo descaso em relação à população encarcerada

 

Quando falamos do sistema prisional brasileiro, as notícias se resumem a rebeliões, superlotação, violência. De um certo modo, as reportagens reafirmam o estereótipo associado ao segmento social que se encontra nos presídios. Temas como reintegração social do ex-preso e a reincidência criminal, mesmo relevantes no contexto, são pouco mencionados. O que explica esse silenciamento? O que ele revela?

O silêncio também é uma mensagem. Principalmente na imprensa. Esse foi o mote que guiou a dissertação de mestrado de Luciano Somenzari no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM), intitulada O silenciamento na imprensa: aspectos relevantes dos fatos que não se tornaram notícia.

Como jornalista, Luciano sempre se preocupou com a seleção de notícias e temas feita pela mídia. Assuntos importantes, de interesse público, muitas vezes são deixados de lado ou são tratados sem a devida contextualização e detalhamento. Como exemplo, ele cita o superávit primário, tema sempre presente nos cadernos de economia, mas que raramente é explicado para o leitor. 

Isso o motivou a pesquisar mais sobre o silenciamento da mídia: seria uma mera impressão ou uma escolha consciente? 

A segunda opção, conforme a pesquisa revela, é a mais correta.

O pesquisador analisou todas as primeiras páginas de dois jornais relevantes: Folha de S. Paulo e O Globo, que representam, respectivamente, o público paulista e o carioca. Ao todo, foram 2.192 páginas analisadas, do período de 2014 a 2016. Usando palavras-chave para pesquisar no acervo digital das publicações, Luciano estava, primeiramente, interessado em diversos assuntos: economia, política, meio ambiente, educação. A progressão do trabalho e as conversas com a orientadora Maria Cristina Castilho Costa, no entanto, fizeram com que ele se voltasse para um só tema: o sistema prisional. 

E foi nesse momento que ele percebeu que, na verdade, a Folha e o Globo não representam tão fielmente os paulistas e cariocas. Pelo menos, não todos eles. 

Isso porque das mais de duas mil páginas analisadas, só havia 39 matérias sobre o tema carcerário. Somando os dois jornais. “Do ponto de vista jornalístico, essa duas redações não consideram o sistema prisional um tema tão relevante”, comenta Luciano.

Em um período de dois anos, o sistema prisional recebeu mais atenção em momentos de rebeliões. Mesmo assim, o número de notícias ainda é baixo. Segundo o pesquisador, a cobertura omissa já revela um silenciamento. Isso tem a ver com o público-alvo dos jornais, voltados para a classe média-alta de São Paulo e do Rio de Janeiro. “Para eles, não interessa saber o que está acontecendo nos presídios.”

 

Foto: Bruna Bolonha

Outro modo de identificar o silenciamento foi ir direto às fontes utilizadas pelos jornalistas em suas matérias. O pesquisador analisou quais informações tinham sido disponibilizadas e quais os repórteres haviam selecionado para suas notícias. Se o que foi deixado de fora da matéria fosse considerado de interesse público, ele notificaria o tema como silenciado. 

Por se tratar de uma pesquisa relacionada ao jornalismo, os critérios usados para análise levaram em conta conceitos da área. O principal deles é o de interesse público, que rege todos os outros critérios de seleção. 

Das 39 reportagens, Luciano selecionou oito para fazer uma análise de conteúdo mais profunda. Reportagens maiores, com apuração mais extensa, abriram margem para que ele visse melhor quais são, exatamente, os temas silenciados na cobertura do sistema prisional. 

O primeiro é a reincidência de condenados. Ou seja, pessoas que já foram presas, cumpriram suas penas, mas voltaram a cometer crimes depois de libertadas. Embora ainda não haja uma metodologia clara e unificada para medir as taxas de reincidência, Luciano comenta que os números são altos, ao menos de 30%. 

Isso revela um problema estrutural maior, muito relacionado à não reintegração social do ex-presidiário. Ele sai da prisão, mas não consegue arrumar emprego, o que o leva a um ciclo vicioso de exclusão e marginalidade. Mesmo sendo um tema de relevância, é pouco tratado.

Assim como a própria reintegração, que também é pouco discutida. No Brasil, há poucos programas que visam reestabelecer o contato do ex-detento com a sociedade. A demanda é imensa, com uma oferta mínima. “É uma situação muito importante para ser omitida nas páginas dos jornais”, opina o pesquisador. 

O silenciamento, no entanto, não ocorre apenas na questão temática. A escolha das fontes usadas pelos jornalistas revela “um preconceito do repórter ao segmento social dos encarcerados”. Isso porque há pouca presença da figura do preso nas matérias. Os entrevistados são sempre do Ministério Público, ou especialistas, pesquisadores em universidades. Aquele que sofre diariamente as mazelas do sistema prisional é pouco ouvido nas matérias que tratam justamente de sua situação. 

 

 

Texto: Maria Eduarda Nogueira