Professores da ECA compartilham memórias sobre José Marques de Melo

Na última quarta-feira, dia 20 de junho, faleceu o pesquisador e professor José Marques de Melo. Ele fez parte do corpo docente fundador da Escola de Comunicações Culturais (ECC), hoje, Escola de Comunicações e Artes da USP, e participou da fundação de diversas entidades como a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), a Cátedra Unesco na Universidade Metodista de São Bernardo e a Rede Alfredo de Carvalho (Rede ALCAR).


Falecido no último dia 20, José Marques de Melo integrou o corpo docente fundador da Escola de Comunicações Culturais, foi primeiro chefe do CJE e diretor da ECA. Foto: Eduardo Knapp / 1991

Trajetória

José Marques de Melo, alagoano, foi formado em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco e em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco. Em 1967, após mudar-se para São Paulo, foi contratado para integrar o primeiro corpo docente da ECC.

Foi o primeiro doutor em jornalismo no Brasil no ano de 1973 pela ECA e, no ano seguinte, fez pós-doutorado na University of Wisconsin, nos Estados Unidos, devido à perseguição da ditadura civil-militar brasileira. Foi o primeiro bolsista de pós-doutorado da área de comunicação da Fapesp.

Marques de Melo esteve na USP desde sua volta do exterior até 1993. Nessa trajetória, também foi diretor da Escola.

Depois de sair voluntariamente da USP, José Marques de Melo trabalhou até o fim da vida na Universidade Metodista de São Paulo, onde atuava como Diretor da Cátedra UNESCO de Comunicação.

Memória

A importância de Marques para a pesquisa na área de comunicação é incontestável. Ele produziu aproximadamente meia centena de livros e coletâneas, muitos dos quais, hoje, são utilizados nos cursos de jornalismo no Brasil, produziu mais de uma centena de artigos científicos no país e no exterior e fundou diversas entidades de pesquisa.

O docente Dennis de Oliveira, chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), também herança de Marques na ECA, foi aluno do professor e lembra de alguns de seus legados:

“Quando eu era aluno aqui [na ECA], em 1983, os alunos fizeram um movimento, no Departamento de Jornalismo, para ter eleição direta para a chefia de departamento e o Marques de Melo foi um dos seus líderes. Fomos o primeiro departamento que instituiu a eleição direta e montou o conselho paritário que gerenciava o departamento.”

Dennis também conta que o pesquisador, em 1984, durante o processo de redemocratização do Brasil e do departamento, apoiou os alunos a organizarem a Semana de Jornalismo com a discussão sobre o centenário de Karl Marx. “Marx e a imprensa, o papel de Marx como jornalista.”

“Também foi na gestão dele que a gente construiu o Jornal do Campus, que é o principal jornal laboratório do curso hoje”. Dennis explica que Marques de Melo era um defensor do curso e dos mecanismos de qualidade. “Por exemplo, quando foi aprovado o currículo mínimo, de 1984, ele defendia que os cursos de jornalismo tivessem a obrigatoriedade de ter jornais-laboratório, para que o aprendizado laboratorial fosse feito no curso e não apenas com estágios”.

Sobre a personalidade de Marques, Dennis lembra dele sempre respeitoso: “a minha orientadora, professora Maria Nazareth Ferreira, tinha muita divergência com ele, mas, acima de tudo, houve sempre respeito entre ambos.” O atual chefe do CJE mencionou o convite de Marques para apresentar, quando Nazareth já havia falecido, a contribuição da pesquisadora como teórica da comunicação em um evento. “Ele sempre valorizava muito a pesquisa, valorizava muito o estudo, valorizava muito o pensamento sobre jornalismo, ainda que fosse divergente da visão dele”.

Outro aluno e colega de trabalho de Marques foi José Luiz Proença, também docente do CJE. Proença foi aluno na graduação de jornalismo quando Marques era professor na Faculdade Cásper Líbero. Mais tarde, Marques fez parte da banca de qualificação de mestrado de Proença e, a partir de disso, o contato entre os dois cresceu. “Foi no mestrado que eu comecei a me configurar também como pesquisador”, comenta Proença. Antes disso, sua carreira era focada nas redações de jornais.

O professor lembra de Marques como motivador. “Ele tinha um perfil interessante. Uma espécie de onipresença, ele sabia no que todo mundo estava trabalhando”, e conta que, nos últimos anos, sabendo da atuação de Proença no Japão, propôs vários trabalhos sobre o país. “Ele tinha essa coisa de cobrança, de estar ligado na gente, de saber o que cada um estava fazendo. Ele foi pra gente, do Departamento de Jornalismo, uma espécie de grande paizão de todas essas atividades mais acadêmicas”, conclui.

Em carta póstuma a Marques de Melo publicada no Jornal da USP, a professora sênior da ECA, Cremilda Medina, que o conheceu em 1970, fala sobre a capacidade de Marques de escutar e confirma a personalidade citada por Proença: “você motivava com consistência os jovens pesquisadores que iriam constituir o núcleo de produção teórica e formar professores ou jornalistas qualificados comparáveis ao desempenho e repertório de conhecimentos especializados da massa crítica internacional que surgia na comunicação social”.

José Coelho Sobrinho, professor aposentado do CJE, também compartilhou sua lembrança sobre a personalidade de Marques de Melo. Ele afirma que Marques, como seu professor, foi responsável pela mudança de sua vida profissional. Conta ainda que, como amigo, cobrava lealdade e que, como colega de trabalho, cobrava coerência, sem jamais ser desrespeitoso. Veja a mensagem na íntegra.

Texto: Mirella Cordeiro
Foto de capa: Eduardo Peñuela