Mulheres na ECA: aula aberta analisa obra de Bourdieu

A Dominação Masculina, livro lançado em 1998 por Pierre Bourdieu, ganhou uma aula aberta na programação do evento Março: Mulheres na ECA. Na terça-feira, 28 de março, a professora Cláudia Lago, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA), fez uma exposição sobre os conteúdos do livro e o pensamento do autor. A atividade contou ainda com a participação de Gean Gonçalves, que comentou o posfácio da obra.

Cláudia apontou algumas das críticas levantadas contra o livro desde à época de sua publicação: em primeiro lugar, “o ar que Bourdieu adota de ensinar às mulheres como elas devem organizar seu movimento”, bem como a apropriação que o autor faz de “uma série de perspectivas que já haviam sido trabalhadas pelas feministas”, sem citar sua origem. E, por fim, o fato de que a ciência privilegia os homens, já que apesar das feministas estarem falando sobre esse assunto há anos, “quando Bourdieu fala, se torna importante”. 

Mesmo sendo as críticas em sua maioria fundadas, é importante lembrar, segundo a professora, que a intenção de Bourdieu era discutir e clarificar a violência e o poder simbólico, conceitos essenciais de sua obra. Por ser a dominação masculina o exemplo máximo de tais teorias, o autor acaba abordando este tema e as questões de gênero, caindo, no processo, em alguns erros. 

“A proposta do texto é desvelar para tentar transformar. Mostrar que o que aparece como eterno não é mais do que o produto de eternização feito pelas instituições nos corpos das pessoas”, disse Claúdia Lago.

Para Bourdieu, todas as noções de diferenciações dos corpos por nós percebidas, como a associação de força ao masculino, provêm de uma perspectiva social e, desta forma, apenas uma ação coletiva que leve em conta a violência simbólica pode mudar essa estrutura. Sob esta perspectiva, o autor mostra a importância que dá nos movimentos feministas.

Cláudia pontuou que a motivação de Bourdieu era entender a razão das pessoas terem tanta dificuldade para perceber que a dominação masculina não existia por um motivo essencialista, mas sim por uma construção social. “A preocupação é tentar produzir e pensar uma história que entenda o que há de eterno para continuarmos repetindo essas estruturas hierárquicas que colocam as mulheres em lugares inferiorizados em todas as sociedades do mundo”, explicou. 

De acordo com Bourdieu, tal visão da depreciação do feminino se deve ao fato de naturalizarmos formas de vida "absolutamente intoleráveis", conceito que o autor denominou paradoxo da doxa, sendo "o mundo social e suas divisões arbitrárias pensadas e entendidas como evidentes", de modo que a força da ordem masculina esteja no fato de "ela simplesmente não precisar de justificativa", disse Claudia. Desta forma, a violência simbólica, “suave, sensível e invisível”, não usando de força e coerção físicas, condiciona a formação das pessoas em todas as sociedades, de modo que haja a recorrência da desvalorização do feminino, mesmo entre as próprias mulheres.

Passando para o modo como Bourdieu construiu o livro, Cláudia contou que o autor, baseado no fato de toda a sociedade contemporânea estar condicionada a esta dominação masculina, recorreu a uma estratégia de pesquisa para tentar desvelar tal situação, na qual usou como objeto uma sociedade arcaica da Argélia, situada na região de Cabília. Esta sociedade, profundamente baseada na diferenciação entre os gêneros e na estratificação sexual, serviu para que Bourdieu pudesse observar a organização desse povo para “pensar seus mecanismos” na contemporaneidade.

Ao analisar esta sociedade, Bourdieu chegou a conclusão de que o corpo feminino é feito para o olhar, para a exposição. "Isso significa você desde cedo incorporar que o seu corpo é algo para ser mostrado, avaliado”, pontuou Cláudia. "O nosso corpo é um objeto simbólico”.

Na sequência, Cláudia falou sobre algo que Bourdieu aponta como armas fracas, que, ao pertencer aos grupos dominados, “não causam mudanças”. Um exemplo seria a intuição feminina: “ela é contruída para as mulheres, mas ao mesmo tempo é menosprezada”. E, segundo autor, do mesmo jeito que existe a intuição feminina, a estrutura social também passa a ideia da virilidade associada à violência. “Ser homem significa que em algum momento você terá que abraçar a violência”, colocou. “Não é de se admirar que exista a cultura do estupro”, finalizou.

Posfácio

Gean Gonçalves comentou o posfácio de A Dominação Masculina, no qual Pierre Bourdieu aborda a questão social dos movimentos gay-lésbicos. “Bourdieu acredita que o movimento LGBT tem uma potência de existência”, pontou, notando que, para o autor, a área de estudos sobre homossexualidade estava sendo descoberta aos poucos pelas ciências sociais.

De acordo com Bourdieu, “a violência simbólica é um poder que causa certos estigmas a grupos dominados, que pode ser ocultado ou exibido” e gera uma vergonha naqueles que os carregam. Assim, para o autor, seria uma propriedade própria de gays e lésbicas poder esconder seu estigma, o que não seria o caso das mulheres e negros, pois o estigma “está corporificado e visível”, explicou Gean. Portanto, seria no coletivo que o estigma se tornaria visível.

Ainda que este grupo possa esconder seu estigma, para Bourdieu a violência simbólica afeta os “arranjos homossexuais”, ao demarcar, por exemplo, a questão do ativo no ato sexual, aproximado do masculino, em contraste com o passivo, visto como feminino. 

“Segue no Brasil esta lógica em que o passivo é visto como o feminino, e assim, lida com uma depreciação muito maior, que às vezes não atinge o ativo”, revelou Gean.

Gean comentou ainda que, no período em que Bourdieu discutia a dominação simbólica, articulavam-se clamores por casamentos igualitários em diversos países. Assim, segundo o autor, apenas conseguir do Estado a validação da união homossexual não seria suficiente para romper com as violências simbólicas que gays e lésbicas estão sujeitos a sofrer. “Para mudar as representações, o movimento teria que questionar o pensamento, não simplesmente induzir as pautas”.

Por fim, Gean abordou as dificuldades que, segundo Bourdieu, o movimento LGBT teria: o problema da delegação de um porta-voz e as lutas pelo monopólio da expressão pública do grupo. Aqui, de acordo com Gean, Bourdieu recai no mesmo erro de “adotar um tom professoral para tentar ensinar aos movimentos como eles devem atuar”.

O evento Março: Mulheres na ECA terminou na quinta-feira, 30 de março, após uma roda de conversa sobre sexualidade feminina com Gabriela Feola, aluna do Departamento de Jornalismo e Editoração. Ampliando esta temática, o Centro Acadêmico Lupe Cotrim (CALC) em parceria com as juniores da ECA (Com-Arte Jr., Agência de Comunicações ECA Jr. e Jornalismo Júnior), promoveram nos dias 28, 29 e 30 de março a Semana Emancipa – Artes e Comunicações  com o objetivo de refletir sobre o papel das comunicações e das artes na ação dos movimentos sociais em defesa dos direitos das mulheres, dos negros e LGBT.

Texto e fotos: Victória Martins