Feminismos midiáticos: Mulher Maravilha é tema de análise em artigo da revista Movimento

Aparição da super-heroína nos cinemas inspirou discussões sobre desigualdade de gênero e empoderamento feminino. Texto faz parte da 14ª edição da revista, que está com chamada aberta para os próximos números

 

Em meio à febre dos filmes de heróis, principalmente aqueles dos estúdios Marvel e DC Comics, há abundância de efeitos sonoros e visuais, de referências a cultura pop, de atores conhecidos e até mesmo de memes. As bilheterias são enormes. Os investimentos, milionários. No entanto, diante de tantos excessos, é possível notar uma falta: a das super-heroínas. 

Desde sua criação, em 1941, a Mulher-Maravilha teve sua primeira aparição cinematográfica somente em 2016. Um intervalo de 75 anos. Já o Superman, criado em 1938, estreou em filmes de live-action dez anos depois. Esse contraste levanta uma série de dúvidas. Por que a super-heroína chegou ao cinema apenas nessa década? Será que as demandas feministas atuais influenciaram essa decisão? Se sim, quanto? 

No artigo "Feminismos midiáticos, empoderamento e a questão do olhar em Mulher-Maravilha", publicado na edição 14 da Revista Movimento, a pesquisadora Natalia Engler Prudencio, do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA), faz uma análise dos dois filmes que apresentam a super-heroína: Batman vs Superman (2016) e Mulher-Maravilha (2017).

Cena do filme Mulher-Maravilha (2017), protagonizado por Gal Gadot.

A super-heroína da DC Comics é vivida no cinema pela israelense Gal Gadot. (Foto: Reprodução/Warner Bros)

O feminismo na mídia: como Mulher-Maravilha potencializou discussões sobre desigualdade de gênero no cinema

"Os anos 2010 configuraram-se em um novo momento de efervescência para os feminismos, com características próprias em termos de ativismo e mobilização, e também marcado por uma maior presença de discursos e ideias feministas nos meios de comunicação", diz Prudencio em seu artigo. 

De fato, séries, filmes, propagandas e games têm investido cada vez mais na ideia de empoderamento feminino. Essas produções midiáticas se tornam referências culturais e contribuem para a construção de uma nova visão de mundo. 

Lançado em 2017, o filme estrelado por Gal Gadot e dirigido por Patty Jenkins foi um marco em diversos aspectos: primeiro longa-metragem de super-herói com protagonista feminina desde 2005; maior orçamento dirigido por uma mulher até então (excluindo-se animações); e maior bilheteria com direção feminina. Para a pesquisadora, esses podem ser alguns dos motivos que explicam por que o longa-metragem inspirou tantas discussões sobre gênero no cinema hollywoodiano. 

No entanto, é preciso analisar até que ponto filmes como esse seguem uma lógica de economia de visibilidade. Ou seja, se a representatividade feminina existe apenas como mais um produto rentável ao invés de ser uma política voltada para mudanças efetivas da sociedade. 

Com base nos estudos da acadêmica Sarah Banet-Weiser, o artigo analisa também o que significa o empoderamento, tão enaltecido e incentivado na contemporaneidade. No contexto das economias de visibilidade e dos feminismos midiáticos, "as mulheres são convocadas cada vez mais a cultivar suas identidades como grifes, investindo ativamente em si para responder às necessidades de um mercado que pede que demonstrem e vendam seu próprio empoderamento."

Mulher-Maravilha em cena do filme, correndo em meio ao cenário de guerra.A estetização do corpo da mulher ainda é presente no filme Mulher-Maravilha (2017). (Imagem: Reprodução/Warner Bros)

No cinema, mulheres são feitas para serem observadas

Ainda que as representações femininas no cinema tenham evoluído, o circuito comercial segue uma lógica de mulheres "para-serem-olhadas". Sua aparência física se sobressai a outros elementos construtivos da personagem. As histórias são rasas, quando não subordinadas à narrativa do protagonista e de outros personagens masculinos.

Por esse motivo, ferramentas como o teste de Bechdel ainda se provam relevantes. Inspirado em um quadrinho de 1985 da artista Alison Bechdel, o teste analisa filmes de acordo com três critérios: (1) presença de pelo menos duas mulheres que (2) conversem entre si (3) sobre algum assunto que não seja um homem, como explica o artigo. À primeira vista, tais critérios podem parecer muito abrangentes. No entanto, ainda hoje é grande a quantidade de filmes que não conseguem passar no teste. 

Em sua análise, a pesquisadora do PPGMPA selecionou cenas análogas de Batman vs. Superman (2016) e Mulher-Maravilha (2017). A partir disso, foi possível entender como são construídas as perspectivas a partir dos olhares masculinos e femininos. 

 

Mulher-Maravilha representa um avanço, mas ainda não cumpre proposta feminista em sua totalidade 

No filme mais recente, a protagonista, mesmo com enorme força física e superpoderes, não assume "características tradicionalmente associadas ao masculino (frieza, ambição, manipulação), mas mantém características tradicionalmente associadas ao feminino (compaixão, bondade, humanidade, cuidado), o que fica patente em sua empatia pelo sofrimento alheio e rejeição à frieza das estratégias de guerra e à violência e agressividade dos homens", comenta Prudencio. 

Embora avance em alguns aspectos, o longa-metragem ainda não segue o projeto feminista proposto pela acadêmica Teresa de Lauretis, uma vez que ainda há a estetização e fetichização do corpo da mulher. O filme, portanto, desempenha um papel ambivalente, já que possibilita o questionamento de normas de gênero e de representação da mulher no cinema hollywoodiano, ao mesmo tempo que mantém a adesão a uma lógica de objetificação que contribui para o controle dos corpos e a domesticação dos sujeitos femininos. 

 

Esse e outros artigos fazem parte da edição 14 da Revista Movimento, com o tema Coabitações Audiovisuais. Lançada semestralmente, a publicação é produzida por alunos do Programa de Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA). Para ler a atual edição na íntegra, acesse o site

 

Revista Movimento abre chamada para edições 15 e 16

Além do lançamento da edição 14, a Revista Movimento anunciou a chamada de trabalhos para os dois próximos números. 

Os textos para a edição 15, Serialidades Audiovisuais, devem ser enviados até o dia 10 de junho para publicação em agosto. Já para a edição 16, Animismo, o prazo é até 4 de setembro, com publicação prevista para março de 2021.

Os trabalhos devem ser enviados para o e-mail da revista. As informações sobre as temáticas das edições e as diretrizes para os autores estão disponíveis no site.