Peça "democracia, o projeto" é jogo entre atores e plateia

Amanhã estreia a peça democracia, o projeto, no Teatro Laboratório da ECA. Serão três finais de semana com o espetáculo em cartaz, que será exibido às 20h30, aos sábados, e às 19h30, aos domingos, até o dia 22 de abril. A obra é fruto do trabalho de conclusão de curso de direção de Carolina Petrucci Rosa, sob a orientação do professor Antônio Araújo, do Departamento de Artes Cênicas (CAC).

A estrutura de democracia, o projeto é inusitada: “os atores que conduzem o jogo dizem frases de políticos brasileiros e dão opções de quem pode ter sido o autor”, explica Carolina. Se o público errar, perde a cena correspondente à frase. Se acertar, ganha o direito de assisti-la. “Cada dia é uma peça diferente, porque vai depender do jogo com o público”, diz a diretora. Essa organização faz com que a apresentação possa ter duração de até quatro horas.

A peça contém 16 cenas que estão divididas e intercaladas entre dois tipos: “um tipo são políticos que foram presidentes do Brasil desde a redemocratização, depois da ditadura militar. E o outro tipo de personagem são arquétipos de cidadania”, esclarece.


Da esquerda para a direita: Monalisa Siva, Carolina Petrucci Rosa e Ana Bonetti durante ensaio da peça democracia, o projeto

A aluna se formou no fim do ano passado, mas o projeto nasceu anos antes, em 2015. Na época, ela queria fazer uma peça sobre a Constituição Federal Brasileira, uma vez que o tema lhe era familiar devido a sua formação anterior, quando cursou direito. “Mas, quando eu fui reler a Constituição, percebi que era muito difícil transformar em um material poético”, afirma Carolina.

Por isso, a aluna chegou a outro tema: a democracia. E, assim, Carolina, em conjunto com um grupo formado para o projeto, começou a estudar e a realizar alguns procedimentos teatrais.

Crise e insurreição

Um elemento importante da peça é o texto Crise e Insurreição, de 2014. A diretora explica, durante um ensaio do elenco, que o livro é um manifesto de um grupo francês que assina a obra como Comitê Invisível. Faz parte desse coletivo uma série de intelectuais e militantes, mas todos são desconhecidos.


Aos Nossos Amigos – Crise e Insurreição, assinado pelo Comitê Invisível, é uma das referências do projeto

De acordo com a diretora, o livro expõe a vulnerabilidade dos agentes políticos, de quem está se dispondo a pensar a política. Além disso, o livro se tornou fundamental porque os trechos sobre democracia correspondem às posições do grupo. “E eu gosto desse livro porque traz questionamentos e reflexões políticas de forma muito poética”, completa.

Função pedagógica

Carolina acredita que democracia é um termo muito falado na mídia e entre políticos, os quais, muitas vezes, se apropriam do termo para defender sua participação em eleições, por exemplo. Apesar disso, a política é pouco discutida no Brasil: “as pessoas se polarizam. E vivemos um momento em que todas as nossas crenças em instituições estão se mostrando absolutamente falhas.”

Nesse sentido, a diretora afirma que a arte pode ter uma função pedagógica, pois abre um canal de comunicação para fazer as pessoas refletirem. “Saímos nas ruas fazendo entrevista e muita gente tem dificuldade de falar sobre política porque diz não saber a respeito ou não gostar”, explica.

Além disso, Carolina observou em sua pesquisa de campo que muitos já estão fartos de ouvir sobre política do modo mais convencional, como, por exemplo, na entrega de um panfleto na rua. E o teatro pode ser uma outra maneira de convidar as pessoas para o debate político: “você não precisa ter um conhecimento, não precisa ter domínio daquilo, mas vamos tentar construir juntos”.


Carolina Petrucci Rosa durante ensaio da peça

Serviço:
democracia, o projeto
Data: 7 a 22 de abril (6 apresentações)
Horário: sábados, às 20h30, e domingos, às 19h30
Duração: de 30 minutos a 4h
Local: Sala Alfredo Mesquita - Teatro Laboratório (Prédio 8)
Endereço: Rua da Reitoria, 215, Butantã
Os ingressos são gratuitos e distribuídos com 1h de antecedência

 

Texto e fotos: Mirella Coelho
Foto de capa: Anna Talebi