Pesquisadora da ECA propõe diálogo entre “fazeres” musicais

Compositora, pianista, arranjadora, bailarina e professora de Percepção e Harmonia, Ana Fridman tem integrado as áreas de Dança e Música em sua vivência profissional; experiências que a levaram a explorar a relação entre diferentes “fazeres” musicais e propor um percurso para a elaboração de propostas de improvisação.

Nesse âmbito, a pesquisadora desenvolveu sua tese de doutorado em música na ECA e trouxe o resultado da pesquisa direcionada ao estudo e à recontextualização de materiais, procedimentos e conceitos da música de culturas não ocidentais para a elaboração de propostas de improvisação.

O trabalho, desenvolvido sob a orientação do professor Rogério Luiz Moraes Costa, do Departamento de Música (CMU), é resultado da experiência pessoal da pesquisadora, que conviveu por muitos anos com o tema de sua tese: a conversa da música do músico que tem a formação tradicional europeia com outros fazeres musicais.

Devido às suas graduações em dança e música, a autora teve experiências enriquecedoras e fundamentais para a elaboração de sua tese. Em sua formação como dançarina, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Ana voltou suas atenções para as danças como a flamenca, a indiana e a africana que, a seu ver, “são mais que apenas dança, são um híbrido desta com a música”.

Após, em seu mestrado no California Institute Of The Arts, a pesquisadora, que tinha seu foco em composição contemporânea, obteve um aprendizado que superou o esperado, devido ao caráter multicultural do instituto: participou de aulas de tabla, de dança de Bali e de Java, além de ter tocado no gamelão javanês. Além disso, a artista trabalhou por oito anos com o dançarino e coreógrafo brasileiro Ivaldo Bertazzo.

Essas experiências foram a base para a realização do trabalho defendido pela artista. Ana direcionou suas pesquisas para estudar a relação do músico, que vem da academia de formação tradicional, com os fazeres de outras músicas. Em seu trabalho, a autora faz uma porta de entrada de outras músicas na relação com os compositores europeus e aborda a relação de compositores como Stravinsky, Debussy, Reich e Bartok, com essas outras músicas, mostrando que as relações não eram apenas em questão material, mas na forma de pensar em música.

Seus estudos avançam para a análise do corpo e a forma como o músico trabalha o instrumento, dando ao mesmo um caráter de extensão do corpo do instrumentista. A autora observa que nas músicas como a africana, a indiana, a balinesa e a japonesa, o corpo do músico é muito presente. Isso a impulsionou a conhecer a história do corpo e entender como o corpo e o conhecimento trabalham juntos. Para Ana, “seria interessante se tivéssemos mais relações de corporalidade na formação do músico tradicional, para aprender, por exemplo, padrões rítmicos mais complexos”.

Ana explora também a experiência de músicos atuais com instrumentistas de outras culturas e mostra que, além dos processos de ensino musical destas culturas fornecerem abordagens diferenciadas, o contato com uma cultura alheia permite um aprendizado que se estende além dos limites da música.

A partir disso, a autora propõe que se olhe para estes formatos de aprendizado nos quais o indivíduo, ao se deparar com o novo, aprende, em grande parte, por iniciativa própria. A autora não afirma que exista um método ideal de aprendizado, apenas propõe que haja uma mistura entre os métodos existentes de ensino, para que práticas como a improvisação musical e a utilização da corporalidade sejam mais valorizadas no ensino musical.

Com isso, ao final de sua tese, Ana Fridman propõe a realização de pequenos workshops que promovessem exercícios para trabalhar a improvisação em cima de parâmetros rítmicos complexos, começando pelo corpo e que, gradativamente, fossem trazidos para a voz e, por último, aos instrumentos.

Os workshops foram ministrados na USP, na Universidade de Aveiro (Portugal), e em Londres, e trouxeram resultados positivos, a exemplo de professores que passaram a utilizar as técnicas em suas aulas e de alunos de criação musical da GuildHall School of Music and Drama que deram outros direcionamentos para a improvisação a partir da corporalidade em processos criativos.

A orientação do professor Rogério Costa, músico e docente especializado no estudo e na prática da improvisação livre, permitiu a elaboração de um trabalho consistente e útil para dialogar e criar ambientes híbridos, a partir de diversos formatos musicais e se pensar não só na música do oriente ou do ocidente, mas na música que, no final, é quase uma só.

 

por Tamiggi Melo
foto: arquivo Ana Fridman