Prêmio Capes de Tese 2017 dá Menção Honrosa para pesquisa do PPGMUS

Para pesquisadores com o desafio de compor e defender uma tese de doutorado, ver seu projeto premiado pode ser um grande reconhecimento de que os objetivos foram atingidos e os esforços de produção valeram a pena. É o caso de Valéria Bonafé, que recentemente recebeu menção honrosa na categoria Artes do Prêmio Capes de Tese 2017. Este prêmio, cedido pela Fundação Capes desde 2005, reconhece as melhores teses defendidas nos programas de doutorado do país no ano anterior, em cada uma das 49 áreas do conhecimento. “A menção honrosa indica que a tese foi bem recebida por professores e pesquisadores de diferentes linhas de pesquisa dentro da Música, bem como de outras áreas dentro das Artes,” afirma.

A tese de Valéria, denominada A casa e a represa, a sorte e o corte ou: a composição musical enquanto imaginação de formas, sonoridades, tempos [e espaços], foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Música (PPGMUS), sob orientação do professor Marcos Branda Lacerda.

Formada em Música, com habilitação em composição, Valéria conta que, após desenvolver duas pesquisas de iniciação científica e outra de mestrado voltadas para compositores europeus do século XX, seu desejo inicial com o projeto de doutorado era estudar a música brasileira recente, mas olhando para o objeto “à certa distância, não exatamente como pesquisadora imersa”. Contudo, amadurecendo seu olhar e sua própria prática artística, ela passou a perceber “a potência de aproximar ainda mais os campos da composição e da análise musical,” trazendo sua produção criativa “como objeto de estudos dentro da tese”.

Assim, ao desenvolver o projeto, aos poucos foi inserindo-o em um campo relativamente novo da pesquisa musicológica, chamado de pesquisa artística. Este, de acordo com Valéria, “se situa em uma zona de convergência entre prática artística (composição musical) e pesquisa acadêmica, no qual pesquisadora e compositora precisam se encontrar e negociar em conjunto”.

Neste sentido, ao assumir sua posição de artista-pesquisadora, Valéria decidiu “investigar, compreender e compartilhar” o processo criativo de algumas das peças que desenvolveu durante os anos de doutorado. Logo, ela voltou-se para três músicas, Lan, de 2011, A menina que virou chuva, de 2013 e Trajetórias, de 2015, focando nos temas forma, sonoridade, tempo e espaço e deles extraindo “assuntos, problemas e ideias sobre composição”. “O objetivo deste trabalho é compartilhar ideias sobre composição a partir de um exercício de autoanálise e reflexão crítica,” comenta.


No terceiro caderno, Valéria se volta para a peça A Menina que Virou Chuva. Foto: Arquivo pessoal

Segundo Valéria, o maior desafio no processo de produção da tese foi o de encontrar uma metodologia de pesquisa e um formato de estruturação do conteúdo e editoração que lhe permitisse delinear “esse lugar de artista-pesquisadora ou pesquisadora-artista”, ao passo em que cumpria com regras da academia.

Ela acabou aproximando-se, assim, de uma metodologia de pesquisa derivada da ideia de bricolagem epistêmica, prática em que a união de diferentes elementos culturais resulta em algo novo. Logo, a tese não assume um formato tradicional, mas apresenta “um conjunto de textos, imagens, partituras, diário de bordo e gravações em áudio e vídeo”, retratando um caráter “artesanal, processual, investigativo, exploratório, imersivo, digressivo e polissêmico”.

Deste modo, ao assumir a tese “como um lugar que se abre ao risco de se contar ao outro”, Valéria acaba possibilitando uma inserção do leitor no universo da composição musical, desmanchando “o caráter sólido e esotérico” que este tende a perpetuar. “É uma tese para ser lida mas, especialmente, escutada,” afirma. “Uma espécie de testemunho-textual-sonoro do meu percurso de formação artística e acadêmica”.

De acordo com ela, o processo de produção da tese acabou possibilitando que experimentasse e encontrasse “diferentes maneiras de estabelecer diálogos potentes” entre os olhares de compositora e pesquisadora. Além disso, ela afirma que receber a menção honrosa e ver sua tese sendo apreciada por uma ampla gama de pesquisadores comprovou que ela havia atingido um de seus esforços com o material, de “construir um texto convidativo e acessível sobre processos de criação musical, que não fosse exclusivo para compositoras e compositores”. “Isso me deixou muito contente,” conta.

Para o professor Marcos Lacerda, a pesquisa de Valéria “abre um pouco mais o escopo da discussão em composição”, colaborando para “libertarmos um pouco o estudante de artes desta absurda formalização”. “Esse ponto de vista precisa ser abordado. A premiação é um reconhecimento de que foi encontrado algo útil neste trabalho estabelecido de maneira diferente,” finaliza.

O conteúdo da tese está organizado em cinco cadernos, disponíveis neste site.

Texto: Victória Martins
Foto de capa: Arquivo pessoal da pesquisadora