Professores da ECA realizam performance urbana antifascista em Nova Iorque

No dia 6 de setembro, os docentes Marcelo Denny e Marcos Bulhões, do Departamento de Artes Cênicas (CAC), realizaram no Washington Square Park, em Nova Iorque, a performance Banho de descarrego: um desempenho urbano antifascista. Por meio da lavagem pública de corpos pintados cobertos por suásticas, a ação encena a erradicação de ideologias autoritárias e fundadas no ódio. O título da performance faz referência a uma prática difundida na cultura popular brasileira: o banho ritual para afastar influências malignas. Banho de Descarrego é um dos resultados práticos das pesquisas de pós-doutorado dos dois professores.

Realizada pela primeira vez na cidade de Natal, em outubro de 2018, durante o X Congresso da Associação Brasileira de Pesquisadores em Artes Cênicas (ABRACE), a ação aborda o que os pesquisadores identificam como “neofascismo contemporâneo”, representado por ideias e ações autoritárias e discriminatórias defendidas por Donald Trump, Jair Bolsonaro e outros governantes nos últimos anos. Marcelo e Marcos escolheram usar a suástica por considerá-la um símbolo universal de opressão. Segundo Denny, a influência dos discursos de intolerância se faz cada vez mais presente, e exige uma resposta de educadores e artistas. “Não é raro encontrar pichações ultra conservadoras e até nazistas em plena Cidade Universitária, em São Paulo. Nota-se um nítido avanço do pensamento conservador e violento. Cabe à educação e a arte contra-atacar esse movimento.”

imagem da performance artística de professores de teatro da eca usp
A performance Banho de Descarrego: um desempenho urbano antifascista contou com a participação de voluntários

Ao trazer a performance para o espaço público, os professores pretendem chamar a atenção de quem passa, criando um distanciamento poético e crítico que permita uma reflexão sobre as questões que a obra suscita. "Queremos provocar um choque perceptivo para os transeuntes, convidando todos nós a imaginar a possibilidade de derrotar a crescente violência racista e xenofóbica em todo o mundo", diz Marcelo. 

Priorizar a rua em detrimento de galerias e museus também evidencia uma perspectiva crítica quanto às limitações dos espaços tradicionalmente dedicados à exibição de obras e ações artísticas. Para Marcelo e Marcos, a arte restrita a museus e galerias perde a chance de criar diálogos com os transeuntes, com o dia-a-dia na cidade e com a própria memória destes locais. Para Marcelo Denny, “realizar arte em espaços públicos abre o debate sobre a própria democracia e coloca em xeque valores, poderes, limites, riscos, ao mesmo tempo que abre possibilidades mais relacionais entre os artistas ou o objeto artístico com o fluxo mais real da vida de grandes centros urbanos.” 

performance de professores de teatro eca usp

Banho de Descarrego faz parte de uma série de atividades artísticas e acadêmicas que professores da ECA vem realizando em Nova Iorque. Antes da performance, o professor Ferdinando Crepalde Martins, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA), participou no dia 5 de setembro de uma roda de conversa sobre resistência artística no Brasil. Organizado pelo Hemispheric Institute – grupo de pesquisa da Universidade de Nova Iorque (NYU) dedicado à performance politicamente engajada e que conecta artistas, acadêmicos e ativistas das Américas – o evento foi uma oportunidade para apresentar e debater trabalhos artísticos brasileiros que, desde 2016, têm confrontado, de diversas maneiras, a ascensão reacionária no país.

Sobre a pesquisa

Com orientação da professora Tania Alice, da Unirio, Marcelo e Marcos pesquisam, respectivamente, as arquiteturas do corpo e as coralidades urbanas e performativas. Em Banho de Descarrego, a arquitetura está presente na paisagem criada a partir da pintura de símbolos no corpo dos performers, que é multiplicada nos corpos dos voluntários, criando um “coro” visual e gestual. O trabalho segue a mesma linha de outras ações desenvolvidas pelo Laboratório de Práticas Performativas, do CAC, que pesquisa e documenta a performance política contemporânea no Brasil e tem os dois docentes entre seus fundadores.

A pesquisa contou ainda com um estágio de estudos na Universidade de Nova Iorque (NYU), sob supervisão dos docentes Diana Taylor e Marcial Godoy, do Hemispheric Institute. Graças a uma bolsa FAPESP de auxílio no exterior, Marcelo pôde investigar seu tema na NYU e na Universidade Columbia, tendo acesso a um vasto acervo sobre artistas, performances e grupos, além de teses e artigos sobre performance na América Latina. 

Sobre o Laboratório de Práticas Performativas 

Fundado em 2010 pelos professores Marcos Bulhões, Marcelo Denny e Antônio Araújo, todos do CAC, o Laboratório de Práticas Performativas se dedica ao estudo da performance contemporânea no Brasil, com ênfase na reflexão sobre questões políticas e sociais. Visa também promover debates sobre a arte da performance e seu cruzamento com outras linguagens. O grupo reúne alunos de graduação e pós-graduação, artistas, pesquisadores e docentes da USP e de outras universidades, além de estar filiado a coletivos artísticos como o Teatro da Pomba Gira e o Desvio Coletivo, ambos da cidade de São Paulo. 

O laboratório já produziu dezenas de trabalhos acadêmicos, incluindo dois livros que examinam as pedagogias da arte performática, as arquiteturas e coralidades do corpo, a intervenção urbana, a performance feminista e queer, a performance e o transe, entre outros temas. Responsável por diversas disciplinas ministradas no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC), atualmente conta com cerca de 35 pesquisas, entre mestrado e doutorado. O laboratório também ministra cursos de extensão e promove práticas artísticas como teatro performativo, performances, intervenções, intervenções urbanas e até curta metragens.

Texto: Amanda Ferreira
Fotos: Hemispheric Institute