Seminário discutiu os 50 anos de contribuições da ECA às Comunicações e Artes no Brasil

Foi realizado, durante os dias 27 e 28 de setembro, o seminário Contribuições da ECA-USP na Construção do Campo Acadêmico das Artes e das Comunicações no Brasil, em comemoração aos 50 anos da Escola de Comunicações e Artes da USP. O evento buscou reunir dados essenciais do conhecimento gerado pelos grupos, pelos centros de pesquisa e pela pós-graduação da Escola, projetando-os nos cenários nacional e internacional. 

O primeiro painel do dia 27, moderado por Lucilene Cury, presidente da Comissão de Cultura e Extensão,  teve como convidados os professores Ciro Marcondes Filho, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), e Luiz Tatit, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), que comentaram sobre suas produções desenvolvidas na Escola. 

Ciro Marcondes, que chegou à ECA há 48 anos, ainda como  aluno da segunda turma do curso de Jornalismo, falou sobre sua trajetória desde os tempos de estudante, seus 42 anos como docente da instituição e tudo o que presenciou durante ao longo de quase cinco décadas, incluindo as crises na Escola, os mandatos de todos os diretores e a resistência da ECA durante a Ditadura. "De alguma forma, a ECA está muito impregnada em mim", afirma. 


(esq. p/ dir.) Professores Luiz Tatit, Lucilene Cury e Ciro Marcondes Filho

O professor explicou também todo o processo de desenvolvimento de sua Nova Teoria da Comunicação, que surgiu a partir de uma necessidade de se estudar, com mais profundidade, o fenômeno da comunicação; como ele acontece, em quais condições, e até mesmo se ele existe de fato. Sua tese foi registrada em uma série de livros, que hoje é adotada nos cursos da Escola e em diversas universidades pelo país. Segundo ele, a pesquisa feita por seu grupo de estudos é algo que nasceu na ECA, desenvolveu-se aqui, repercute e é bastante discutido no meio acadêmico.

Luiz Tatit, por sua vez, falou sobre sua vivência e suas memórias da ECA, da década de 70, quando foi aluno do curso de Música. Riu ao relembrar algumas passagens, como a de quando finalmente se decidiu pela carreira de músico por já tocar violão e cantar e acabou descobrindo que, na época, o CMU não considerava violão como um instrumento e nem a canção como música de verdade. Lembrou também das aulas com Paulo Emílio, nas quais, sem nenhum constragimento, o professor exibia filmes brasileiros da época, as famosas pornochanchadas, e os analisava seriamente. "Para ele não interessava o cinema que "deveria ser feito" e, sim, o que estava de fato sendo produzido", explica Tatit.

O professor também fez uma reflexão sobre a ECA ter dado certo, mesmo reunindo em um só lugar diversos cursos de Comunicações e Artes, que são tão heterogêneos e diferentes. Tatit se admirou com o fato de o Cinema, por exemplo, fazer parte do programa de Comunicações da Escola, mas ser enquadrado como Artes na pós-graduação, abordagens completamente diferentes, em seu ponto de vista. Para ele, é importante entendermos o porquê e como a ECA deu certo para que ela possa crescer ainda mais, no futuro. 

A segunda mesa do dia e a primeira do dia 28 discutiram as conquistas, contribuições e perspectivas de cada departamento da Escola para o campo das Artes e das Comunicações. O painel contou com exposições dos professores Elisabete Vitória Dorgam Martins (EAD), Ismar de Oliveira Soares (CCA), Margarida Maria Krohling Kunsch (CRP), Maria Lúcia de Souza Barros Pupo (CAC), Nelly de Camargo (CCA) e Rubens Arnaldo Rewald (CTR), Fernando Henrique Iazetta (CMU), Brasilina Passarelli (CBD), José Marques de Melo (CJE), Maria Immacolata Vassalo de Lopes (Pós-Graduação) e Mário Carlos Beni (Turismo).


(esq. p/ dir.) Professores Maria Lúcia Pupo, Ismar Soares, Elisabete Dorgam, Maria Cristina Costa, Nelly de Camargo, Margarida Krohling Kunsch e Rubens Arnaldo Rewald

Encerrando os painéis do seminário, o professor convidado Joseph Straubhaar, da Universidade de Austin, no Texas, falou sobre a ECA a partir de uma perspectiva internacional. Straubhaar tem uma profunda ligação com a Escola, que data de 1977, quando veio ao Brasil ainda para fazer sua pesquisa de doutorado. Emocionou-se um pouco ao falar sobre o fato de sempre ter sido muito bem recebido na ECA e da amizade que acabou criando com muitos professores. 

Para fazer essa exposição, o professor consultou a opinião de outros 30 brasilianistas pelo mundo. Segundo Straubhaar, é muito claro o papel impactante da ECA no campo brasileiro das Artes e das Comunicações, desde a formação de profissionais que se tornaram referência em suas áreas à sua produção acadêmica. Para ele, a Escola é pioneira em muitos aspectos e, inclusive, ressaltou a criação do curso de Educomunicação como um dos nossos tesouros.


Professor Joseph Straubhaar, da Universidade de Austin, no Texas

No entanto, de acordo com ele, o maior problema da ECA na busca por maior reconhecimento no exterior é a questão de toda a sua produção acadêmica ser publicada unicamente em português. Para Straubhaar, a nossa língua acaba nos isolando muito dos centros de estudos da América do Norte, da Europa e até mesmo do restante da América Latina. 

Ele reconhece que houve tentativas de resolver este impasse desde a gestão do professor e ex-diretor da Escola, José Marques de Melo, inclusive com a publicação do Anuário do Obitel, grupo internacional de estudos televisivos coordenado pela professora Maria Immacolata, mas iniciativas como essa ainda são poucas. "Se a Escola deseja, realmente, tornar-se mais conhecida no exterior, é importante que seja feito um investimento na tradução de trabalhos, no intercâmbio de alunos e professores, e principalmente no aprimoramento da língua inglesa, que é a mais utilizada atualmente", explica Straubhaar.

O professor conta que estava preparando uma revista em inglês sobre a produção da América Latina, mas ainda não recebeu muito material. Para ele, fazer parcerias com publicações como a revista Matrizes seria ideal, mas reforça a importância de o conteúdo ser traduzido, de modo que pesquisadores norte-americanos e europeus possam estudá-lo com mais facilidade.

A professora Margarida Maria Krohling Kunsch, diretora da ECA, disse em sua fala de encerramento que não poderia ter sido escolhido um melhor representante internacional para falar sobre a Escola, pois Joseph Straubhaar conhece a ECA como ninguém e acompanhou grande parte de sua trajetória e suas dificuldades. 

 

Texto  Mariana Rosa
Fotos Eduardo Peñuela