Seminários debatem a contemporaneidade do audiovisual

Como parte das atividades do evento Arranjos Experimentais – Cultura Numérica Audiovisual, o auditório Paulo Emílio, no prédio central da ECA, recebeu palestrantes de diversos países para uma série de seminários que colocaram em discussão temas relacionados à configuração contemporânea do audiovisual. A programação completa do evento também incluiu projeções audiovisuais e mostras de vídeos, que aconteceram no TUSP e no Paço das Artes.

 

Mary Ann Doane (direita), da Universidade de Califórnia, em Berkley, abriu os seminários trazendo uma discussão sobre escalas e valorizando a experiência única e inovadora provocada pelo formato Imax

 

O mundo novo do Imax
No primeiro seminário, a norte-americana Mary Ann Doane, docente da Universidade da Califórnia, em Berkley, trouxe à tona a questão da escala no cinema, que sempre teve como referência a figura humana. Doane também falou sobre o Imax – formato de filme criado no Canadá, capaz de mostrar imagens muito maiores, em tamanho e em resolução, do que os sistemas convencionais de exibição de filmes.

Para ela, “o Imax parece ter compreendido a ideia de cinema maior que a vida e, com ele, o espectador não fica restrito ao que vê na tela; e se situa dentro dela”. Apesar do Imax coincidir com o processo de minimização das telas dos aparelhos móveis, Doane acredita que o grande trunfo do formato maximizado é a imersão que ele proporciona. “O Imax está para o cinema como a cirurgia de catarata está para a visão. É uma experiência única”, finalizou Doane.

A sala de cinema
Na sequência, o professor Arlindo Machado, docente do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), colocou em pauta a questão dos dispositivos ao longo da história do cinema. Para o professor, é surpreendente o fato de que “há 120 anos, a instalação de uma sala de cinema é a mesma, mudando apenas as imagens”. Machado também revelou que a estrutura das salas de cinema foi planejada e descrita por Platão, no século IV a.C., na obra A República.

 

A alemã Cornélia Lund trouxe o conceito de música visual, descrito por ela como um ‘não gênero’. Ela também defendeu a adoção de novos conceitos, para dar conta de todos os processos e práticas que sempre estiveram ao lado do cinema

 

Música visual
Professora da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, Cornélia Lund trouxe para a discussão o conceito da música visual – termo que se refere ao uso de estruturas musicais se relacionando à imaginação visual. Para Lund, as práticas audiovisuais mudam, se desenvolvem e é importante o surgimento de novos termos, como ‘música visual’. “O cinema nunca foi ele somente; sempre foi mais plural. Só a adesão de novos termos dá conta de analisar essas pluralidades”, explicou.

Para ela, o audiovisual também deve ter como objeto de estudo as coisas que não são exatamente cinema, mas estão diretamente vinculadas a ele. “A música visual não tem nada a ver com filmes narrativos, e é preciso analisá-la individualmente, com muito cuidado, pois as pessoas que fazem esses trabalhos, e como esses trabalhos são elaborados são coisas muito diversas. Ainda assim, cabe ao audiovisual percorrer esse caminho”, concluiu.

Instruções para um filme
A titular da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Kátia Maciel, fechou o primeiro dia de seminários debatendo o complexo processo de se fazer um filme. Para ela, inclusive, é importante que esse processo de criação continue a ter o caráter experimental em destaque: “as práticas do cinema estão muito relacionadas, e as experimentações em torno dele sempre existiram, tiveram muita força e foram fundamentais para a sua evolução”.

Contorno performático
Também da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, André Parente abriu o segundo dia de seminários traçando um paralelo entre o cinema experimental e o cinema performático. Para ele, o cinema ganha um contorno cada vez mais performático, de debatedor do comportamento humano. “Todos os trabalhos têm várias versões, que, cada vez mais, convocam certa performatividade. É um processo de desenvolvimento natural”, acredita.

 

A finlandesa Mia Makel (esquerda) e a portuguesa Ana Carvalho (direita) fecharam o ciclo de seminários no auditório Paulo Emílio debatendo os fatores que contribuíram para a evolução do cinema e como documentar as performances audiovisuais

 

O teatro acima da tecnologia
A artista finlandesa Mia Makela contou um pouco sobre o processo de composição de performances audiovisuais. Makela revelou que, historicamente, o desenvolvimento do cinema deve-se em grande parte ao ideal de se produzir cenas com ares de peças teatrais. A cineasta ainda se mostrou cética em relação aos altos investimentos em novas tecnologias: “a indústria investe em novidades, como o 3D, mas isso não trouxe desenvolvimento para o cinema em si”.

Produção em três tempos
Por fim, Ana Carvalho, do Instituto Superior da Maia – escola de ensino superior de Portugal, falou sobre a as possibilidades de documentação das práticas audiovisuais contemporâneas. Para ela, a produção cinematográfica se divide em três etapas: o momento criativo, o da performance e o da interação com a comunidade. A partir disso, é possível criar documentações, principalmente baseadas no momento em que a pesquisa e a conceituação são dominantes.

Para a professora Patricia Moran, uma das organizadoras do evento Arranjos Experimentais – Cultura Numérica Audiovisual, os seminários aconteceram como planejado, e conseguiram por em pauta questões contemporâneas sobre o audiovisual: “Conseguimos tratar de problemas gerais e também de problemas atuais, que não são estritamente ligados à narrativa. Procuramos trazer uma diversidade de trabalhos e de experiências, e conseguimos fazer isso”.

Para ver o balanço da professora Patricia Moran sobre os seminários que a ECA recebeu, clique aqui.

 

Fotos e câmera: Eduardo Peñuela
Texto: Giuliano Tonasso Galli