3º TOI: Ética da Informação é tema de mesa dialogada em Congresso de Tecnologia e Organização da Informação

Entre os dias 22 e 26 de maio, aconteceu na ECA e na Faculdade de Economia e Administração (FEA) a terceira edição do Congresso Internacional de Tecnologia e Organização da Informação (TOI), que reuniu pesquisadores, profissionais e estudantes das Ciências da Informação para debater temas relevantes à comunidade.

Na tarde de 25 de maio, ocorreu o III Simpósio Brasileiro de Ética da Informação (SBEI), que contou com a mesa dialogada Ética da Informação na Web, com a participação dos professores Solange Puntel Mostafa, da USP, Mariângela Fujita, da UNESP, Armando Malheiro, da Universidade do Porto, e Isa Maria Freire, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e a mediação do professor Gustavo Freire, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o objetivo de dialogar sobre a ética da informação em uma sociedade cada vez mais conectada.

O professor Francisco Carlos Paletta, do Departamento de Informação e Cultura (CBD), abriu o evento comentando sobre como, atualmente, informação é poder e assim, a ética deve ser a disciplina norteadora sobre como lidar e utilizar desta informação. "A sociedade brasileira carece e necessita deste debate," iniciou. "É muito gratificante para a Universidade de São Paulo disseminar o tema da ética da informação". 

A professora Solange Mostafa foi a primeira a apresentar seu painel, Uma Visão da Ética da Informação na Sociedade em Rede. Partindo de uma reflexão teórica sobre a obra Matéria e Memória, na qual Henri Bergson pontua as teses de que "entre nossa percepção e a matéria, existe diferença apenas de grau, e não de natureza" e "que as coisas são, elas mesmas, imagens", Solange explicou que, para o autor, existe nos seres vivos um intervalo de movimento, entre a percepção de imagens e a devolução destas ao mundo e, assim, é neste em que se situa a ética. 

A pesquisadora comentou ainda que, segundo Bergson, quanto maior o intervalo do sujeito, mais problemático ele se torna, em referência a autora Erinn Gilson, que também discute em sua obra o pensamento do filósofo francês. Neste sentido, a problematização torna-se um “elemento essencial da ética, que expande a ideia de crítica” e, assim, estaríamos diante de uma nova maneira de pensar o problema e a resposta, “processos éticos por excelência”.

Solange citou, por fim, o conceito de ética a partir de um segundo autor, Bernd Frohmann, para o qual “o poder de uma ação ética é tornar-se imperceptível, indiscernível e impessoal” e passou a discutir a questão da ética das redes sociais sob a perspectiva do autor, levantando o papel da ciência da informação no debate.

Solange Mostafa: "O problema que nos cerca hoje, dentro e fora das redes sociais, é como estamos lidando com o nosso intervalo de movimento"

Na sequência, a professora Mariângela Fujita promoveu a palestra A Organização da Informação para a Web numa Perspectiva Ética. Ao explicar os fundamentos e conceitos de Organização e Representação da Informação, Mariângela revelou que a área trabalha a “sistematização do mundo” por meio da construção de instrumentos para organizar o conhecimento e dos processos de organização em si. No que diz respeito à questão da política de organização da informação, Mariângela traçou um panorama sobre sua estruturação dentro da web, ou seja, a tentativa de criar uma “interoperabilidade entre processos e sistemas, de modo que estes funcionem em conjunto”. Assim, segundo a professora, essa proposta existe para entender o que já foi realizado e pensar um planejamento, de modo a “aprimorar os sistemas de recuperação da informação no que se refere à armazenagem, tratamento e disseminação”, importante para que haja uma gestão da informação registrada e para que os novos conhecimentos e debates sejam materializados, sendo que isto deve ser realizado através, principalmente, de dois princípios éticos, a exaustividade e a especificidade.

Mariângela entrou então no contexto teórico da Web Semântica, projeto tecnológico que, por meio da implantação de padrões e da linkagem de dados, possibilitou o “desenvolvimento de uma política de organização da informação dentro da web”.  Revelando a estrutura desta tecnologia, especialmente de sua base fundamental, o padrão RDF, Mariângela explicou que, nesse novo planejamento, “tudo o que tiver metadados ficará na arca de Noé”, ou seja, só assim haverá uma garantia de que a informação digital será recuperada e mantida e, por isso, pontuou que as instituições precisam aderir à ela e traduzir para estes novos moldes os antigos padrões.

“A perspectiva ética será realizada através da política de organização da informação,” pontuou Mariângela. “Os compromissos éticos com o usuário e os conteúdos informacionais devem ser garantidos pelos valores éticos já citados”.

Em seguida, o professor Armando Malheiro iniciou as reflexões do tema Reflexões éticas sobre três problemas trazidos pela revolução tecnológica em curso: a desregulação da liberdade, a crise da privacidade e (in)segurança comentando acerca da ética da informação, “uma ética aplicada às consequências que vão emergindo de um processo histórico em curso: a gênese e o desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação e seu impacto na vida individual e social”.

Para fundamentar os problemas que iria levantar, Armando comentou sobre as tecnologias e os conceitos de informação e comunicação, além de traçar um panorama sobre a ética enquanto “um exercício racional de fundamentação moral” e sobre sua transição de uma visão teocêntrica à uma visão antropocêntrica, revelando que foi essa matriz que permitiu a criação da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Explicou então que a Declaração Universal dos Direitos do Homem têm sido confrontada “pela realidade que estamos vivendo hoje”, Armando passou a comentar acerca dos problemas que enxergou: em primeiro lugar, sobre a desregulação da liberdade. A “liberdade é um direito fundamental e inalienável do ser humano”, mas  a internet tem subvertido estas barreiras, já que há uma linha bastante tênue entre “regular para preservar a liberdade do outro e afetar a minha liberdade”.

Sobre o imperativo de responsabilidade, o professor pontuou que “ser responsável é responder por si e por seus atos” e não ser indiferente à consequência destes sobre os outros. Para exemplificar a questão, mencionou o problema ético que se tornou o controle da informação no Facebook. Segundo o professor, o modelo de negócio do Facebook é a publicidade, e não “colher e disseminar informações”, assim, a empresa não assume um controle sobre aquilo que é veiculado e muito menos a responsabilidade por ele.

Explicando o imperativo de responsabilidade, Armando pontuou que o Facebook não pode ser “eticamente indiferente”, já que os atos “devem ser assumidos por quem os pratica e pelo espaço em que praticam”.

No que diz respeito à ideia de propriedade intelectual,  Armando tratou da ideia de direito do autor. Na teoria, os conteúdos devem pertencer àquele que os criou, porém, segundo o professor, a rede social “obriga os autores a assinarem um contrato de doação voluntária” quando estes publicam algo. O que existe na atualidade é uma partilha imediata de informações e uma “uma pluralidade de proprietários”, sendo que nada é realmente de ninguém.

Por fim, o último problema levantado foi a a rede (in)segura. O professor acredita que as pessoas perderam a noção de “reserva, confidencialidade, intimidade e privacidade”, já que a tecnologia parece criar uma “sensação da ausência do outro”, o que faz permanecer uma insegurança. “Do ponto de vista ético, resta saber se uma quantidade cada vez maior de pessoas está mudando sua noção de privacidade e se o voyeurismo está sendo aceito como natural”, finalizou.

Na última mesa da tarde, A responsabilidade social da informação como competência ética, a professora Isa Freire começou apresentando uma reflexão sobre a temática da mesa, presente em seu pensamento científico desde sua tese de doutorado, defendida em 2001.

Contextualizando a aplicação desta teoria, a professora passou a comentar acerca do conceito de inteligência coletiva de Pierre Lévy, que propõe “a responsabilidade social em ação”. Segundo Isa, para Lévy esse conceito existe no sentido dos espaços antropológicos desenvolvidos pelas sociedades humanas, ou seja, exploração da terra, território, mercadoria e, na atualidade, saber. Neste espaço do saber, marcado pela disseminação das tecnologias digitais, nossos conhecimentos devem ser compartilhados e a diversidade das qualidades humanas deve ser valorizada.

De acordo com Isa Freire, a comunidade científica é um dos maiores exemplos desta ideia de cooperatividade no saber, já que estes produzem, muitas vezes, um trabalho de pesquisa conjunto.

Em seguida, a professora trouxe o conceito das competências éticas de Francisco Varela, que consiste em um “reconhecimento, na vida humana, de uma prática transformadora, fundamentada em um saber próprio que afirma uma condição de espécie gregária, solidária e consciente de si e do outro”. Nesta visão, segundo Isa, Varela encara o sujeito como um sistema autopoiético, que apreende um “saber fazer”, uma perícia que vem da experiência ao lidar com a necessidade de adaptação da espécie, mas que é “transparente à nossa cognição”. Assim, a ética “está mais próxima da sabedoria do que da razão, ela é a habilidade para resolver problemas imediatos a partir de um saber fazer” cotidiano.

Concluindo sua fala, Isa Freire pontuou que "não há um manual a se consultar sobre o como fazer para o desenvolvimento de competências profissionais no contexto de um saber fazer ético", o que representa uma oportunidade aos profissionais da informação de atuar colaborativamente no sentido de criar ações de cidadania, podendo significar "um novo olhar sobre o outro e uma aproximação aos grupos nos quais a informação poderá se manifestar como possibilidade de conhecimento". 

Texto e fotos: Victória Martins