Amigos e colegas de Arlindo Machado falam sobre importância do professor e pesquisador

 

Amigos e colegas lamentam a perda de Arlindo Machado, professor, pesquisador, crítico e curador de arte e tecnologia que atuou na graduação e na pós-graduação da ECA e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Nos depoimentos a seguir, professores, pesquisadores e artistas evocam memórias e destacam o legado do docente. 

 

Almir Almas, professor e chefe do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR) e ex-orientando

Muito mais do que uma relação de orientador e orientando, era uma relação de amizade muito grande. Tá muito dolorida essa perda. Como chefe do CTR eu me sinto na obrigação de dizer o quanto o departamento é grato pela existência do Arlindo e o quanto é importante que ele seja homenageado. 

Ele era exemplar não apenas como professor. Ele tinha um conhecimento, uma sabedoria extensa, uma capacidade intelectual absurda, um conhecimento cultural enorme, mas ele tinha um pensamento... As suas ideias, a sua maneira de ver o audiovisual, ver a televisão, as comunicações em geral, cinema, vídeo, as mídias eletrônicas, o nascimento dessa mudança toda do mundo digital, todo esse pensamento que ele tinha em relação a esses temas foi formando uma geração de pesquisadores e artistas, que passaram a ver um mundo diferente a partir dessa visão do Arlindo. 

Um dos principais legados é essa maneira aberta de reconhecer nos objetos a sua importância. Aberto a descobrir o novo, aberto a entender aquilo que não é canonizado. As coisas que eu faço e as coisas que eu procuro desenvolver têm muito do Arlindo, dessa forma de ver o mundo, de ver os objetos. Ele foi o grande pensador da imagem e do som no Brasil. E isso ele foi em vida. Ele já era uma unanimidade antes de morrer. Por isso ele é o Arlindo Machado. 

 

Maria Dora Mourão, professora titular do CTR

Arlindo, um pensador antenado com seu tempo. Generoso como colega, sempre disposto a compartilhar seu conhecimento e a discutir os avanços tecnológicos revisando e atualizando conceitos.

Seu pensamento instigante, sempre atual e renovador, nos obrigava a questionar determinados cânones. O curso sobre montagem que ele, Almir e eu demos algumas vezes na pós-graduação era adorado pelos alunos, e tenho certeza que era muito pela maneira como ele refletia sobre a história da Montagem, em um diálogo entre passado e presente. 

Eu o admirava muito pela sagacidade e capacidade de externar seu pensamento através da escrita. 

 

Ismail Xavier, professor titular do CTR

Grande tristeza a morte de Arlindo Machado. 

Perdemos nosso grande amigo, insubstituível colega e extraordinário pesquisador. Sua morte deixa um grande vazio em nossos cursos e em nosso campo de pesquisa. Eu deveria dizer campos de pesquisa, pois Arlindo foi um incansável inovador que abriu novos caminhos na análise dessa rede de áreas conexas na enorme seara do audiovisual, tendo muito antes de todos nós feito a reflexão sobre a fotografia e o cinema se articular à reflexão sobre a televisão, a vídeo-arte e as experiências em som e imagem desenvolvidas na variedade de plataformas digitais hoje exploradas pelos artistas nas artes visuais. 

Ele foi capaz como ninguém de uma constante ampliação conceitual e metodológica que lhe foi própria, dando conta de um arco de práticas artísticas e comunicacionais que exigem do estudioso uma ampla matriz de conhecimentos e uma enorme capacidade de análise de textos e da comunicação audiovisual em seus distintos gêneros. Este foi um dos seus segredos intransferíveis por mais aberto que tenha sido ao diálogo e generoso na partilha dos seus saberes com colegas e alunos. Estes últimos foram premiados com suas claríssimas e brilhantes exposições em classe e com sua orientação muito segura e sempre aberta às propostas que analisava com muito cuidado, respeitando suas propostas e sugerindo novos caminhos de pesquisa. Lembro-me bem de nossas conversas, em particular, a que tivemos no Encontro da Socine 2019, quando estava lançando quatro novos livros com ar descontraído e sorrindo diante do comentário sobre o volume e a qualidade de sua produção. Imbatível!  

NÃO PERCAMOS A CHANCE DE USUFRUIR DO SEU PRECIOSO LEGADO. ARLINDO CONTINUARÁ ENTRE NÓS.

 

Patrícia Moran, professora do CTR e ex-orientanda

Conheci Arlindo Machado em festivais de vídeo. Eu realizadora; ele escritor, conferencista e curador. Fluente e sem afetação acadêmica, esbanjava na precisa fala um pensamento articulado pelo encontro com as obras. Priorizava imagens e sons a teorias, lhe incomodam encontros acadêmicos em que filmes eram preteridos em favor de textos. Os livros de forma alguma lhe eram alheios, pelo contrário, sua biblioteca é um tesouro, assim como a discoteca, coleção de laser disc, DVDs, revistas, enfim, um universo de linguagens disponibilizado a alunos e amigos com generosidade ímpar. Dos encontros em festivais nasceu meu doutoramento na Comunicação e Semiótica da PUC São Paulo. Entre taças de vinho, encontros em eventos e aulas crescia minha admiração por este pesquisador brilhante, desapegado a liturgias. As palavras de Arlindo Machado convidam à ação; formou muitos de minha geração, iluminando nosso percurso com a pesquisa de obras de arte radicais na experimentação. No outro extremo, objetos de estudo desprezados pela alta cultura, como o Chaves da televisão mexicana, contextualizado em análises surpreendentes.

Começa a escrever na imprensa alternativa. Em 2019 a produção independente é a única opção. Não se faz de rogado, comparece à SOCINE em Porto Alegre para lançar quatro livros: Discursos contra a insensatez: grandezas e misérias da comunicação (2019); O olho, a visão e a imagem: revisão crítica (2019); Outros cinemas: formas esquisexóticas de audiovisual (2019) e Análise do programa televisivo (2018), com Marta Lucía Vélez, todos pela Ribeiro Edições, sediada em seu apartamento. A pandemia impediu o lançamento em São Paulo. Com o coração pequenino proponho uma homenagem no tom de Machado, em vez de um minuto de silêncio, um minuto de muito barulho, como ele recomendou nas celebração da morte de Nam-June Paik. Vive em nós este iconoclasta! Vive em seu legado. Axé amigo e mestre.

 

Arlindo Machado, Patrícia Moran e colegas pesquisadores em congresso no CTREm sentido anti-horário: Arlindo Machado, a artista e arte-educadora Regina Silveira, a professora do Departamento de Artes Plásticas (CAP) Ana Tavares, a professora visitante do CTR Raquel Garbelotti e a professora do CTR Patrícia Moran. Ocorrido em evento no CTR, o encontro foi resumido por Moran: "afeto e trocas entre quatro gerações". Foto: acervo pessoal Ana Tavares.

 

Rubens Rewald, professor do CTR e ex-orientando

Escolhi Arlindo Machado para ser meu orientador por seu livre trânsito intelectual nas mais diversas interfaces e interconexões das artes visuais, eletrônicas e performáticas. Essa capacidade única de compreender e pesquisar as expansões propostas por artistas e pensadores insatisfeitos com quaisquer limites rígidos da arte e do conhecimento me fez considera-lo o orientador ideal para um doutorado que propunha um diálogo entre criação e reflexão de campos diversos como cinema, teatro, literatura, física e psicanálise. Felizmente, ele me aceitou e assim iniciamos nossa jornada, há exatos 20 anos, em 2000.

Nossos atendimentos eram rápidos. Arlindo lia meus escritos e falava que estava tudo ok, eventualmente indicava um autor ou um tema a ser aprofundado. A princípio estranhei a brevidade desses encontros. Pois em meu mestrado tive um orientador bem intenso, que riscava energicamente meus escritos e exigia retrabalhos sem fim em meus textos. Para mim, isso que era uma orientação e não os comentários breves e sucintos de Arlindo. Mas com o o passar do tempo, fui percebendo a sabedoria de Arlindo, e notando que tais comentários foram criando a espinha dorsal de meu trabalho. Por trás da aparente simplicidade, havia toda uma sofisticação e precisão intelectual. Ele ia direto ao ponto, já conhecia os atalhos do pensamento e da arte. Além disso, nunca conheci um intelectual tão documentado em suas pesquisas. Arlindo possuía um arsenal ilimitado de livros, CDs, DVDs, VHSs de obras e pesquisas de artistas do mundo todo nos mais variados suportes como TV, cinema, vídeo, design, teatro, performance, artes eletrônicas, visuais etc. Era só falar de algum artista ou obra pioneira e Arlindo já surgia com algum registro de tal artista, como num passe de mágica. Isso era extremamente propositivo em nosso diálogo acadêmico, trazia concretude às suposições e propostas.

Em 2004, concluí o doutorado e continuamos nossa gentil convivência, como colegas docentes do Curso Superior do Audiovisual. No ano passado, publiquei meu doutorado em livro. Foi uma das últimas vezes que vi Arlindo, na noite de autógrafos. Fisicamente estava bem abatido, mas sua inteligência, argúcia e bom humor continuavam afiados. Sua morte deixa uma lacuna irreparável. Perdemos um dos maiores pensadores do campo das artes no país, com uma produção bibliográfica de alcance internacional. Felizmente, tal produção intelectual irá permanecer e iluminar o pensamento e os processos de muitos artistas, professores e pesquisadores nesse grande caldo caótico da arte contemporânea, que Arlindo compreendeu tão bem e refletiu de maneira incomparável.

 

Rubens Luis Ribeiro Machado Junior, professor titular do CTR

Pois é, talvez esteja entre aqueles colegas que não sabem muito o que falar nestas situações de perda. É muito triste lembrar das últimas vezes que vi o Arlindo nos corredores, quando me pareceu sempre mais e mais entusiasmado e interativo do que ao longo de tantos anos. Lembro das notícias ótimas trazidas recentemente por velhos alunos seus que vinham assistindo admirados os seus últimos cursos.

O Arlindo que eu conheci melhor como companheiro de trabalho foi entretanto o dos meus tempos de faculdade. Ele me convidou para um grupo de realização cinematográfica, tinha já projetos em mente mas queria trabalhar em criação coletiva. Topei na hora. Já o conhecia de alguma sessão do Cineclubefau, se não me engano ele já estava na pós da Letras, formamos o que depois batizamos de Grupo Alegria. O grupo era composto de cinco indivíduos completamente diferentes entre si, em origens e trajetórias, mas tínhamos quase todos passado por experiências recentes em grupos militantes de diferentes tendências de inspiração trotskista, embora ninguém ali tivesse algum jeito pra política. Acho que nessa geometria devia ter um dedo do Arlindo. Fizemos em quase dois anos o roteiro e primeiras filmagens de Vaca Sagrada, curta sobre o automóvel que acabamos abandonando. Ele bem depois retomou e concluiu sozinho, mas antes do grupo se dispersar paramos tudo para realizar em 40 dias O apito da panela de pressão (1977), um agit-prop de que todos nos orgulhamos muito, sobre o movimento estudantil nas primeiras manifestações políticas desde 68 a tomar o espaço público do país. Paulo Emilio nos convidou para discutir em seu curso. Somos até hoje chamados sempre que os nossos alunos param, no começo para emprestar cópia, depois para debater. Uma das perguntas recorrentes é — “Mas a USP não mudou nada! as imagens foram mesmo gravadas na época?”

Chamei o Arlindo no ano seguinte, quando trouxemos a editoria da revista carioca Cine-Olho para São Paulo, ele de cara nos trouxe então seu belo artigo sobre o cinema conceitual de Eisenstein. Artigo que mereceu réplica imediata de Jean-Claude! Paro por aqui, o texto começado ontem ficou muito grande, espero publicá-lo em necessárias homenagens que, esperamos, não tardarão.

 

Esther Hamburger, professora titular do CTR

Pensador sintonizado com as modificações que vem transformando e diversificando as imagens e sons, Arlindo antecipou muito das discussões contemporâneas internacionais sobre um campo em ebulição, coalhado de meios e formas pré e pós cinema, televisão, vídeo. Pesquisador que valorizou as ideias e suas repercussões, foi avesso à banalização da vida acadêmica. Seu pensamento estimulou a formação de artistas e pesquisadores antenados com novas mídias. A base semiótica de seu pensamento lhe permitia ir além do preconceito com cada meio, atento à poética de obras específicas. Sensível à potência da realização como dimensão intrínseca à pesquisa, era crítico do rebaixamento da pós-graduação e da vida acadêmica.  

Viva Arlindo!

 

Mateus Araújo Silva, professor do CTR

A morte de Arlindo Machado é uma perda irreparável, que nos deixa tristíssimos. Continuaremos lendo muito os seus textos, que são há décadas uma companhia incontornável para a maioria de nossas pesquisas, pois sua curiosidade e sua reflexão excepcionais cobriram o campo inteiro dos estudos audiovisuais. Sua dúzia e meia de livros de referência em fotografia, vídeo, rádios livres, televisão, cinema, pré-cinemas, pós-cinemas, arte tecnológica, e suas centenas de artigos e capítulos, publicados em toda parte e traduzidos em vários países, formam um conjunto imponente que leremos e releremos pela vida afora, e que lhe valeu um merecido prestígio internacional. Quem espiar seu currículo se espantará com a amplitude de sua produção intelectual.

Para enfrentar a tristeza, e ainda sob o impacto da notícia, lembro um mini-CV escrito por ele num livro em parceria que publicou ainda mestrando (era o seu quarto livro antes do doutorado!), aos 36 anos. Neste primor de engenho, auto-ironia e graça, ele deixava, mais ou menos na metade da vida (a caminho da consagração intelectual, que só fez crescer na metade seguinte), uma pequena vitória sobre a morte, ao multiplicar assim as facetas da sua existência até ali: "Arlindo Machado já foi bóia-fria, operário em indústria química, punk, balconista, professor rural, auxiliar de escritório, bancário, ativista sindical, cineasta, professor universitário, crítico de fotografia e televisão, mestre em semiótica, pai de família. Tem dois livros publicados pela Brasiliense, um pela Zahar e uma linda filhinha" (Arlindo Machado et al., Rádios livres: a reforma agrária no ar, Brasiliense, 1986, p.182). Com sua morte, perdemos uma multidão numa só pessoa...

 

Silvia Laurentiz, professora do Departamento de Artes Plásticas (CAP) 

Existem algumas pessoas especiais que realmente marcam nossas vidas. O Prof. Arlindo Machado é, sem dúvida, uma dessas pessoas. 

Fui sua aluna em disciplinas do programa de pós-graduação em semiótica da PUC-SP, entre 1994-98. Já o conhecia antes, em eventos realizados desde 1986 pelo IPAT (Instituto de Pesquisa em Arte e Tecnologia) coordenados por Paulo Laurentiz, Artur Matuck, Milton Sogabe, entre outros, que organizavam reuniões de artistas que pesquisavam Arte-Tecnologia na época. Nestes encontros era frequente a participação de Arlindo Machado. Não fui sua orientanda, mas todas as reuniões em seu Laboratório de Mídias (PUC-SP), do qual fiz parte, considerava verdadeiras orientações. Suas aulas eram esperadas por todos e, sinceramente, acredito que foram as melhores aulas que já tive. Suas palestras lotavam auditórios e eram sempre geniais. Ele foi um visionário e entendia a linguagem das mídias como ninguém. Sua visão da contemporaneidade e história dos meios audiovisuais era inequívoca. 

Trabalhei diretamente com ele em dois projetos. Um, realizado em 1997, envolveu o desenvolvimento de um aplicativo multimídia sobre vida e obra de Sergei Eisenstein, assunto em que ele era reconhecidamente um especialista. Em outro projeto foi realizada uma extensa pesquisa sobre “Arte e Tecnologia no Brasil: uma Introdução (1950-2000)”, liderada por ele e contando ainda com o Prof. Fernando Iazzetta para tratar da música eletroacústica, em 2002. Esta pesquisa inicial foi base para o desenvolvimento da enciclopédia virtual "Panorama da Arte e Tecnologia no Brasil" do Instituto Itaúcultural. Trabalhar com ele foi uma honra e um privilégio. Certa vez, contemplada como bolsista da Fundação Vitae, participei de um evento sobre Técnicas Digitais Experimentais em Multimídia e Internet (1997, Bariloche, AR) coordenado por Arlindo Machado (PUC/SP-BR) e Fabian Wagmister (UCLA-USA).  O evento tinha patrocínio das Fundações Rockefeller e MacArthur.  Foram dias inesquecíveis que trago na memória até hoje.

Deixa um legado, e seu acervo de vídeos e filmes é de encher os olhos de qualquer um. Ele será sempre inspiração para pesquisadores das artes e comunicações, além de interessados pela cultura midiática e sincretismo entre linguagens. Seus livros Eisenstein: Geometria do Êxtase (1983), A Ilusão Especular (1984); A Arte do Vídeo (1988); Máquina e Imaginário (1993); Pré-cinemas e Pós-cinemas (1997); A Televisão Levada a Sério (2000); Made in Brasil (2003); Arte e Mídia (2007) entre outros, além de inúmeros artigos, são fontes de referência e utilizo-os em minhas aulas. Suas curadorias em Arte e Tecnologia, com destaque àquelas realizadas no Instituto Itaúcultural (1997, 2001, 2003, 2004, 2013), marcaram uma história. Sempre pronto a apoiar as novas gerações, nunca ostentava qualquer soberba acadêmica, e tinha uma dignidade única. Adorava um bom papo, era generoso e ávido por um bom filme e obras que proporcionassem uma nova experiência estética, que era capaz de absorver com sensibilidade, olhar crítico apurado e raciocínio preciso e impecável.  Sentiremos sua falta!

 

Gilbertto Prado, professor do CAP

Arlindo Machado é um dos mais importantes críticos e teóricos do Brasil e da América Latina no campo das mídias. Entre seus inúmeros textos, A Arte do Vídeo (1988) e Made in Brasil: Três Décadas do Vídeo Brasileiro (2003). Organizou mostras de arte eletrônica brasileira e internacional como, Waldemar Cordeiro: Fantasia Exata (2013), em co-curadoria com Fernando Cocchiarale; Emoção Art.ficial 2.0 (2004), em co-curadoria comigo, ambas no Itaú Cultural. Dirigiu filmes de curta-metragem e trabalhos de multimídia em CD-ROM. Foi professor de várias gerações, querido e inquieto, Mestre e parceiro.

Não me lembro ao certo quando conheci o Arlindo, mas parece que ele sempre esteve por perto. E continua, mas vai fazer falta.

 

Lucia Santaella, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e ex-orientadora

Para Arlindo Machado

Hoje temos que lembrar Arlindo Machado, o que foi e continuará sendo nas cintilações que deixou para o futuro, aquilo que Peirce chamou de imortalidade simbólica. Conheci Arlindo Machado na República das Letras, um texto dele que chegou a mim, quando escrevia meu primeiro livro, 1979, publicado em 1980. O artigo me inebriou, poucas vezes havia lido algo tão preciosamente perfeito, nas ideias e na escrita primorosa, palavras justas, sintaxe harmoniosa, originalidade impecável de pensamento vivo, muito vivo, alerta, sintonizado e jovem, uma mistura rara entre o amadurecimento e a jovialidade das ideias. De fato, o texto a tal ponto me arrebatou que o cotejei com passagens de Heidegger, Arlindo e Heidegger na mesma estatura. Na época não tínhamos o Google. Imaginei que fosse algum professor carioca com conhecimentos já sedimentados pela meia idade. Ficou na memória.

Em 1981, ao entrar para dar minha primeira aula do semestre no programa de Comunicação e Semiótica da Pucsp, ao fazer a chamada, entre os primeiros nomes, estava Arlindo Machado. Levantei os olhos do papel para a sala e lá se apresentava uma figura de aparência muito jovem. Não hesitei e com incredulidade perguntei: -- você é o autor do texto “O corpo bem temperado”? –Sim. Eu também ainda jovem, apenas cinco anos mais do que ele, a resposta fez meu coração palpitar de orgulho. Aquele autor tanto admirado seria meu aluno. Começou aí uma história de respeito mútuo. Ele conhecia e praticava como ninguém a ética do intelecto. Discreto na presença, mas gigante no pensamento.

Escolheu-me como orientadora do mestrado, mais um ponto em um nó de alianças. Quando me entregou o texto do mestrado, A ilusão especular, mal podia crer na qualidade do que ali se apresentava. Arlindo não dava voltas ao léu. Tanto os trabalhos de final de disciplina quanto sua dissertação eram entregues na forma final com que sua segura autonomia lhe provia. De fato, era tal a excelência e originalidade de sua incursão no campo da fotografia que pus na cabeça que esse trabalho deveria ir para doutorado direto. Lutei, nas vestes de guerrilheira, contra o touro cego da burocracia, mas saí vencida. Ao mesmo tempo, também pretendia levar ao doutorado direto, seu colega, igualmente brilhante, Julio Plaza, com sua dissertação sobre Videografia em videotexto. Batalha duplamente perdida. Mas a máquina da inteligência não pode parar. Defenderam imediatamente seus mestrados e, com apenas dois anos de intervalo, em 1987, ambos defenderam seus doutorados, prova maior de que o talento é mais forte que a burocracia incapaz de enxergar o valor do mérito. Disso tudo, no que diz respeito a mim, ficou o orgulho de ter esses dois grandes nomes no meu currículo como orientandos de mestrado e doutorado. 

A história do doutorado de Arlindo é muito curiosa. Enquanto Plaza pesquisava sobre aquela que seria sua obra prima, Tradução Intersemiótica, Arlindo estava pesquisando a enunciação no cinema. Já havia me entregue um capítulo em que discutia a metáfora da caverna de Platão, luminosa discussão, mas, um dia, en passant, me disse: -- Tenho um livro pronto sobre A arte do vídeo. ---Pronto? Preciso ler. Poucos dias depois, encontrei-o para dizer que aquele já era seu doutorado. Ele hesitou, pois tinha em mente que se tratava de um tema muito novo e que havia riscos pela falta de sedimentação. Insisti: É para já, tem que ser defendido imediatamente, o novo tem que emergir. 

A partir daí sua carreira de especialista em audiovisual deslanchou. Reconhecido entre os primeiros na área por toda a América Latina, Espanha, com outras repercussões internacionais. Seu livro Máquina e imaginário, é absolutamente pioneiro na discussão das entranhas das imagens infográficas. Por essa época, nossos papeis inverteram-se e ele passou a ser meu mestre. Quantas vezes, pegava o telefone em tardes de sábado e domingo para tirar dúvidas sobre minha pesquisa em imagens pós-fotográficas, dúvidas que eram por ele pacientemente sanadas. A saudade desses anos faz doer. Começamos juntos a usar o computador para escrever, nos idos de 1988. Ele já havia tomado a dianteira em 1987. Tive treinamentos com ele em sua casa, também em finais de semana. Organizamos juntos um curso, ainda em 1988, de computação gráfica. Quanto devo a ele pelo compartilhamento aberto das luzes de sua inteligência! Não canso de repetir que jamais, em toda a minha experiência de leituras, consegui encontrar, entre todos os autores de escrita admirável, algo similar à perfeição da cadência e da junção indissociável da forma abraçada ao querer dizer que se manifesta na escrita de Arlindo. Sua obra multiplicou-se em muitos outros títulos, todos eles de absoluta pertinência no tempo e no espaço, sem que a excelência tenha jamais cedido. 

Fomos muito amigos, próximos no compartilhamento de um mesmo timbre de ideias e de julgamentos, adivinhávamos os pensamentos e sensibilidade um do outro, uma forma de sintonia que só o mistério das afinidades eletivas poderia ancorar. Tenho um álbum de fotos com que ele, excelente fotógrafo, insistiu em me capturar. Depois de 19 anos, a selva, em que a vida acadêmica pode se transformar, nos afastou. Depois disso, passaram-se 21 anos. Embora nos víssemos com muita frequência, pouco nos falávamos. O tempo passou, os anos foram levando as mágoas para o poço insondável do esquecimento. Mas o cultivo da admiração pela obra de Arlindo Machado continua vivo e sempre crescente. 

Se este texto estivesse escrito em papel e tinta, o leitor certamente nele veria as manchas de lágrimas que a nostalgia, a saudade, a potência do afeto interrompida, uma vida valiosa que se vai escurecem nossa alma neste triste entardecer de um domingo deste mês em que Arlindo Machado nasceu.

 

Aula com Arlindo Machado no LSI USP

Arlindo Machado (sentado na cadeira, à direita), apresentação do projeto OP_ERA, no Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI) da USP, em 2003. Foto: João Caldas, gentilmente cedida por Rejane Cantoni. 

 

Rejane Cantoni, artista e pesquisadora

Arlindo Machado me mostrou o futuro. 

Foi supervisor do meu Pós-Doc na ECA. Foi meu professor no PhD. Compôs minha banca de Mestrado. Foi meu colega nas aulas de Computação Fractal da FAU. Foi meu curador em exposições, exibições, seminários e outros inúmeros projetos destinados a discutir o impacto da eletrônica e do digital no Cinema, Televisão etc. Provocou algumas das primeiras discussões sobre videogames, realidade virtual, computação gráfica, xerox-arte, SSTV, etc. E muitas outras intervenções suas devem ter acontecido de que não me lembro agora. 

De qualquer maneira, sua vocação natural foi andar em compasso com a situação das artes, ciências e mídias. A posição de vanguarda do Arlindo não é coisa de um tempo. Ele é ubíquo. Estará em todos os lugares.

 

Solange Farkas, curadora e gestora cultural

Arlindo Machado dedicou sua carreira à pesquisa e ao pensamento sobre as imagens técnicas e em particular ao vídeo. Foi um dos meus principais interlocutores nas primeiras décadas do Videobrasil. Sentiremos falta de seu olhar curioso, de seu pensamento afiado e da generosidade com que ele os compartilhava.

 

Marcus Bastos, artista, pesquisador e professor da PUC-SP

Arlindo Machado é o autor que mais marcou meus modos de escrever e pesquisar. Não chegou a ser meu professor, nos aproximamos após a participação dele em minha banca de Doutorado. Seguimos uma interlocução sobre temas de interesse comum, sem as pressas e pressões dos formatos acadêmicos. Lembro de ótimos papos sobre as qualidades insubstituíveis do videodisco, as experiências audiovisuais de Brian Eno, os filmes de Guy Debord, memórias de Haroldo de Campos, a obra de Eder Santos e uma preciosa aula sobre Nelson Hoineff, de quem eu não tinha ouvido falar. Também teve uma fase que eu e Patricia Moran nos esforçamos para lançar suas obras audiovisuais e restaurar seus experimentos em CD-ROM, quando eu saia do escritório dele com a impressão que, para Arlindo, o futuro importava mais que o passado.

Seus textos me ensinaram a fazer a leitura crítica dos formatos menos estabelecidos das linguagens audiovisuais, através de uma escrita precisa e densa, ao mesmo tempo acessível para o iniciante e desafiadora para o especialista. Quando comecei a fazer o mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC-SP, um dia vi o Arlindo passeando pelos corredores com um disco do Dead Kennedys embaixo do braço, aquele primeiro deles, que tinha o vinil branco. Esta cena resume como enxergo seus livros: concisos e potentes, embalados numa materialidade incomum. Seus textos são fluidos e comunicativos, mas nas frases diretas estão embutidos pensamentos que não param de desafiar o senso comum.

 

Regina Silveira, artista plástica e arte-educadora

Perder o Arlindo não foi só perder um amigo querido: todos perdemos uma inteligência clara, uma enorme sensibilidade e uma visão critica afiada. Ele aliava essas qualidades a um enorme conhecimento sobre a natureza, história e as politicas da imagem técnica. Para mim, Arlindo sempre foi um precioso interlocutor. Nunca esqueci de seu telefonema, mais de 10 anos atrás, em horário já avançado da noite, apenas para contar que, finalmente, ia poder dizer toda a verdade sobre alguns trabalhos que eu vinha fazendo...!  Foi quando escreveu Ciência Ficticia um título avesso à Ficção Cientifica onde revelava a paródia que eu escondia debaixo de um discurso conceitual e operações geométricas aparentemente muito rigorosas, mas totalmente arbitrárias... Era uma ameaça maravilhosa e foi um dos textos criticos mais interessantes e bonitos que recebi na vida. 

 

Antoni Muntadas, artista e ex-professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT)

Com Arlindo Machado e Jorge La Ferla, os três amantes da cultura audiovisual e unidos por uma amizade de anos, gostávamos de nos identificar como Los Tres Caballeros de Disney, falando de imagens e nos divertindo com histórias inventadas ou reais, que nos levavam a outros mundos viajantes e engraçados. 

O Zé Carioca já não está conosco... Fará falta para sempre. Um grande abraço, companheiro. 

 

Diana Domingues, artista, pesquisadora e professora

Minha postagem é para celebrar a sabedoria do grande pensador brasileiro da Arte e Mídia e da Arte, Ciência e Tecnologias, o insubstituível ARLINDO MACHADO. Receba todo meu respeito, gratidão e carinho, grande amigo. Descansa em paz na luz da eternidade! 

 

Arlindo Machado faz gesto de fotografar ao mesmo tempo que é fotografadoFoto tirada durante seminário para artistas e realizadores da América Latina promovido pela Fundação Lampadia em 1998. "Arlindo Machado me fotografava com sua estupenda máquina carnal e conceitual", afirma o autor da imagem, o artista visual e professor Jorge La Ferla. Foto: Jorge La Ferla.