"O ser mais vívido da classe": ex-aluno fala sobre Suzana Amaral

Thiago Villas-Boas, ex-aluno do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), resgata memórias de uma das passagens de Suzana Amaral pela docência da ECA, entre 1999 e 2001

 

Tive a sorte de ser aluno da Suzana Amaral há 20 anos, quando fazia Cinema na ECA-USP...

Um pouco antes de entrar na faculdade eu li para minha aula de Literatura no colegial "A Hora da Estrela", da Clarice Lispector. Com certeza foi um dos livros mais impactantes da minha vida e de repente na minha frente está uma mulher que ousou adaptar aquele livro inadaptável para o Cinema.

Quem é capaz de dar imagens às palavras de Clarice Lispector? Mesmo na imaginação é difícil visualizar um livro de CL, que o diga transformar aquilo num filme.

Bom, Suzana foi capaz. Não só isso, fez um filme maravilhoso, a altura do livro que é uma obra-prima da literatura mundial, digo sem medo. Digo porque o filme esta aí para quem quiser ver e conferir.

Suzana era uma fonte de vida e energia, o ser mais vívido da classe sempre, mesmo sendo uma senhora que se recusava a revelar sua idade numa sala com 30 jovens de vinte e poucos anos.

Não por acaso ela repetia 2 frases à exaustão: "It's bullshit!", desafiando a cada momento os alunos a sermos melhores, escrevermos melhores cenas, decuparmos melhor, dirigirmos melhor.

E outra maravilhosa: "Make room for drama!", "Dê espaço para o drama!", numa tradução livre. Ela nos incentivava a pensar na mise-en-scène dos atores, nos ensinava a fazer plantas-baixas, a encontrar cada beat de cada cena e com isso construir o Drama, com o elenco, com a câmera e com a montagem.

Suzana era um poço sem fundo de ensinamentos. Me lembro que ela dizia "sabe como você sabe se um filme é bom? Abaixa o som e assiste. Você tem que entender o filme mesmo sem os diálogos. Se você não entende então é uma droga!".

Ela amava o Michael Mann, e por causa dela eu passei a prestar atenção nos filmes dele e a amar também. Semana passada, coincidência, eu assisti Miami Vice, um dos poucos filmes do MM que eu não tinha visto. Sempre que eu via um filme dele eu pensava nela, lembrava da sua empolgação por ele, e esse não foi diferente. Que bom que pude lembrar de você Suzana, estes dias, com saudades.

Suzana nos deu para ler um outro livro que também é um dos definidores na minha vida: Fazendo Filmes/Making Movies, do Sidney Lumet. Quem faz cinema e não leu, corre agora e leia já! É uma aula de cinema, de vida, de relato pessoal, outra pérola que guardo no baú da memória que nos define como seres humanos e que está lá graças a Suzana.

Suzana AmaralFoto: Divulgação

Mas acima de tudo Suzana foi a artista responsável pela versão cinematográfica de "A Hora da Estrela". Criou o palco para Marcélia Cartaxo brilhar, brilhar, brilhar e dar vida a uma personagem que apenas os grandes seriam capazes. Depois, no meu terceiro longa-metragem, tive a sorte e a honra de conhecer a Marcélia, essa atriz magnífica, que junto com Suzana deu ao mundo a Macabéa de carne e osso.

Lembro de Suzana passando o filme para nós em sala e contando sobre o erro de continuidade em uma cena em que o personagem do Zé Dumont deveria estar de relógio mas não estava. Suzana era assim, diante de uma obra-prima que ela fez, mostrava humildemente aos alunos esses erros comuns para que nós não repetíssemos nos nossos filmes. Sobre isso, o conselho que ela nos deu foi o seguinte: "Evitem colocar muitos adereços nos atores. A gente vai colocando, colocando e uma hora alguém esquece de colocar".

Suzana era prática, crítica mas positiva, acima de tudo um motor que impulsionava a si mesmo e a todos em volta dispostos a aprender. Outro ensinamento valioso, que era a cara dela: "Diretor não pode sentar! Se você senta a equipe senta junto". Quem me conhece sabe que esse aí eu levo ao pé da letra até hoje.

A imagem de Suzana que me vem sempre à cabeça é ela dando aulas para nós com uma pescoceira, aquelas cintas de pescoço que se usa quando se desloca a coluna. Ela teve um acidente doméstico na época, se não me engano ela contou que caiu no porão da casa de um filho ou neto, quando foi visitar a família nos Estados Unidos nas férias. Nunca me sai da mente a imagem daquela mulher pequena, já senhora, com aquele objeto no pescoço que dificultava seus movimentos mas nem por isso a impedia de exalar energia. Ela parecia uma espécie de super-heroína com aquela pescoceira estilo armadura do X-Men. E certamente essa é uma das melhores maneiras de definir a Suzana para mim: uma super-heroína. Ela tinha super poderes e não foi à toa que produziu e ensinou até o fim da vida.

E para você, Suzana, eu deixo o parágrafo final de "A Hora da Estrela", o livro, que foi tão marcante quando o li adolescente e um mistério meio indecifrável para mim aos 16 anos, o que certamente foi o que me gerou a fascinação por este livro e depois por seu filme:

" Qual é o peso da luz?

E agora agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas  mas eu também?!
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.

Sim."

 

O depoimento foi originalmente publicado no perfil do Facebook de Thiago Villas-Boas