Álvaro Vieira Pinto: filosofia, tecnologia, educação e um único intelectual

No dia 18 de maio, a ECA recebeu professores de diferentes instituições e áreas de atuação para o seminário Álvaro Vieira Pinto – Comunicação e Informação, com o objetivo de lançar luz à atualidade do pensamento deste intelectual e trazer para a Universidade questões acerca de sua vida e obra. Além de participar de uma das mesas, Norma Côrtes, professora do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do livro Esperança e Democracia: As ideias de Álvaro Vieira Pinto, e Luís Ernesto Merkle, professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) concederam ao LAC – Laboratório Agência de Comunicação uma entrevista em que trataram da trajetória e do pensamento de Vieira Pinto e da importância de sua produção intelectual para os dias de hoje.

Álvaro Vieira Pinto: vida e obra

“Vieira Pinto foi o mais importante teórico e filósofo do nacionalismo brasileiro,” revela Norma Côrtes. Todavia, ele não foi sempre filósofo: formado em Medicina, estudou Física e Matemática no período em que trabalhava em um laboratório fazendo pesquisas sobre câncer, sendo a carreira acadêmica iniciada quando se tornou professor de Lógica da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), da então Universidade do Brasil, hoje UFRJ.

Quatro anos depois de ingressar na Faculdade Nacional de Filosofia, teve a oportunidade de se afastar por um ano para estudar na Universidade de Sorbonne, da qual retornou diretamente para o posto de professor titular em História da Filosofia da FNFi. Permaneceu neste instituto até ser convidado para lecionar Filosofia no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), um “núcleo formador de opiniões e de inteligência, composto por intelectuais que se reuniam sob a tutela do Ministério da Educação e da Cultura para oferecer cursos de capacitação à burocracia estatal e estudantes da UNE”, explica Norma Côrtes.

No ISEB, assumiu uma “orientação mais objetivista, menos idealista” em relação à filosofia, como explica o próprio em entrevista clássica ao jornalista Demerval Saviani. Lá, lançou duas de suas maiores obras, Ideologia e Desenvolvimento Nacional, fruto da aula inaugural no Instituto e Consciência e Realidade Nacional, publicado em 1960, quando já era chefe do Departamento de Filosofia.

Com a ditadura civil-militar, o ISEB foi fechado e Vieira Pinto foi exilado. Passou um ano na Iugoslávia e foi, então, para o Chile, por intermédio de Paulo Freire, onde permaneceu por quase três anos e no qual desenvolveu conferências sobre educação e trabalhos junto ao Centro Latino-Americano de Demografia (CELADE).

Neste período, escreveu dois outros livros, El Pensamiento Crítico en Demografia e Ciência e Existência, este último tendo se tornado um primeiro encaminhamento em suas discussões sobre tecnologia, retomadas em O Conceito de Tecnologia, publicado postumamente. “Sua obra tem sido resgatada em algumas vertentes dos estudos em tecnologia, mas ele ainda não tem um desdobramento dentro de áreas mais específicas como a computação, embora tenha discutido isso nestes textos”, comenta Luís Ernesto Merkle.

De volta ao Brasil, em 1968, Vieira Pinto dedicou-se a traduzir obras de autores consagrados, como Claude Lévy-Strauss e Georg Lukacs, para a Editora Vozes.

Em 1982, publicou Sete Lições Sobre Educação de Adultos, fruto das conferências sobre educação realizadas no Chile, no qual trata de uma questão muito presente em sua teoria, o protagonismo popular: para Vieira Pinto, o poder da ação política está, assim como na relação de educação, nas massas. A esse respeito, Norma Côrtes comenta que “o aluno ‘ignorante" traz uma cultura que é tão importante quanto a sapiência e a erudição do professor. O protagonismo está nas massas, o protagonismo está nos alunos”.

Álvaro Vieira Pinto faleceu em 1987, tendo deixado vários manuscritos, que foram encontrados e publicados postumamente.

A atualidade de Vieira Pinto

Com o exílio e o fim do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, a reprodução do pensamento do autor e a difusão de sua obra foram dificultadas. Não obstante, segundo Norma Côrtes, “uma nova geração de pensadores emergiu na vida acadêmica, organizando-a tal como hoje a conhecemos e ignorou esse passado, essa geração mais antiga, quer por razões intelectuais, quer por razões políticas”. Neste sentido, a professora comenta que “por conta da história de vida dele, que foi muito entrecortada e repartida pelo golpe de 64”, sua influência se tornou difusa.

Por esses motivos, a produção intelectual de Vieira Pinto sofreu uma relativa desvalorização nos anos finais de sua vida e posteriores à sua morte. Seu resgate pela academia têm se dado há cerca de quinze anos, que reconheceu que “há muita semelhança entre circunstâncias em que Veira pensou e os dias em que estamos pensando”, como pontua Norma Côrtes.

Nesta recuperação da obra de Vieira Pinto, os pesquisadores observaram que, além de ser pioneiro na discussão de alguns assuntos, muito do que o autor escreveu e pensou conversa amplamente com os momentos atuais.  “Tem várias ações que ele sugere para pensar tecnologia, ciência, educação, que vão ao encontro e reconhecem os interesses políticos, os vieses que esses caminhos tomam,” revela Luís Ernesto Merkle. “Ele teorizou e comentou com exemplos concretos, então isso é importante para pensar as coisas hoje”.

“Ele foi um homem que pensou na democracia, com os dilemas que a democracia tem: como vamos incluir no espaço público e na vida social um número cada vez mais crescente de gente, garantindo direitos e benefícios”, complementa Norma Côrtes, explicando a importância para as universidades de se ler Vieira Pinto. “Ele nos dá régua e compasso para pensar o mundo e o Brasil”.

 Luís Ernesto Merkle e Norma Côrtes participaram do Seminário Álvaro Vieira Pinto – a comunicação e a informação,
realizado esta semana na ECA. Foto: Victória Martins

 

Texto: Victória Martins

Fotos de Álvaro Vieira Pinto: ARCAZ/ UFTPR