2019: Lançamento da Revista Aspas 9.1

Lançamento da Revista Aspas 9.1 – Poéticas e políticas do arquivo nas artes da cena 

Em tempos de inflação de informação, de fabricação de verdades nacio-nalistas  e  identitárias  e  da  criação  de  hiperarquivos  pessoais  e  repetitivos,  uma pulsão pela arquivação vem assumindo lugares de controle no espaço social, seja pela abertura e arquivação de processos judiciais que paralisam o  país,  seja  na  política  de  abertura  e  manutenção  dos  nossos  acervos  em  museus e instituições públicas e privadas, para citar dois exemplos. Derrida (2001)  aponta  que  o  “mal  de  arquivo”  se  insere  dentro  de  uma  dialética,  de  algo  que  é,  ao  mesmo  tempo,  instaurador  e  conservador,  revolucionário  e  tradicional, que por querer guardar, destrói, que para garantir a sobrevivência, mata. Na busca de escavar os sentidos etimológicos da palavra “arquivo” evi-denciamos sua raiz no termo grego Arkhé, em que arquivo se refere tanto ao que é da ordem do começo quanto ao que caracteriza o começo da ordem. O  arquivo  pode  significar  o  que  é  do  princípio  e  sustentar  o  seu  poder  de  inscrição e de registro, como pode também dar lugar ao que é da ordem da erupção, no sentido de dar passagem aos afetos presentes. Se o significado da palavra “arquivo” apenas como documento escrito e probatório de uma lei ganha sempre mais relevância no imaginário social, a possiblidade de pensar arquivo como repertório (TAYLOR, 2013) nos traz um alento para escutar as memórias presentes, uma memória arquival.

O trabalho com os arquivos nas artes cênicas, em seus diferentes con-textos e (re)configurações, nos propõe diálogos com vestígios que elaboram no presente nossos traumas coletivos na tentativa de compor imagens para o  que  ainda  está  por  vir.  Assim,  a  Revista Aspas  dedica  este  número  ao  tema das poéticas e políticas do arquivo nas artes da cena buscando dis-cutir o potencial performativo do trabalho com e do arquivo, entendendo-o como um dispositivo lacunar e em transformação no interior dos processos de criação e rememoração.

No desejo dialético de inscrição, ato da escrita, e de erupção, afetos que esse ato carrega, as contribuições publicadas nesta edição dão voz e geogra-fia aos arquivos da memória ou memória arquival. Também mostram a impor-tância de preservar os acervos teatrais e documentos de grupo como lugares que contam a história das artes cênicas e que colaboram com a construção de uma memória compartilhada e coletiva para que ela não seja esquecida. Ainda, damos foco a discussões acerca da persistência de escavar a palavra “travesti”  ao  longo  da  história  oficial  do  teatro  ocidental,  que  deixa  até  hoje  à  margem  muitos  de  seus  personagens,  além  do  emprego  da  citação,  par-ticularmente  em  dança  contemporânea,  que  remonta  o  quebra-cabeça  da  história da dança e de seus esquecidos até a beleza do traço deixado num mesmo objeto-mesa que ao longo dos anos transfigura-se em gesto e ação na criação teatral.

As pesquisas aqui apresentadas foram realizadas nas artes cênicas no contexto da América Latina e Europa. Isso posto, por entre as seções, o atual número  apresenta  múltiplas  vozes  e  olhares  que,  por  meio  do  pensamento  diverso,  tecem  uma  aproximação  sobre  como  o  arquivo  está  sendo  visto  e  pensado na arte da cena.

A revista completa está disponível no link: https://www.revistas.usp.br/aspas/issue/view/11214

Boa leitura!

Danilo Silveira, Diego Marques & Sofia Vilasboas Slomp
Equipe da Revista Aspas