Ismail Xavier recebe o título de professor emérito da ECA

Ismail Norberto Xavier, professor sênior do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), recebeu na tarde do dia 17 de novembro o título de professor emérito da Escola de Comunicações e Artes da USP, conforme decisão aprovada no final do ano passado pela Congregação da unidade. O título de professor emérito é concedido a professores aposentados que se destacaram, ao longo de sua trajetória, por suas atividades de ensino, pesquisa e cultura e extensão na USP.

A cerimônia aconteceu em sessão solene da Congregação e contou com a presença do diretor da ECA, Eduardo Monteiro, da coordenadora geral da Cinemateca Brasileira, Olga Futemma, do chefe do CTR, Eduardo Simões dos Santos Mendes, da coordenadora do Programa de Pós-graduação em Meios e Processos Audiovisuais, Esther Hamburguer, e do professor do CTR, Eduardo Morettin. “Eu não tive a oportunidade de conviver com o professor Ismail, mas quando que me falam sobre ele, é sempre com muito carinho e muito respeito. Por isso, é fundamental e nada mais justo que ele esteja recebendo este titulo hoje”, disse Eduardo Monteiro.


Em discuso de agradecimento, Ismail Xavier destacou o "sentimento de missão cumprida e de ter conseguido contribuir de forma significativa para o ensino e a pesquisa em cinema"

Graduado em Cinema pela ECA e em Engenharia pela Escola Politécnica, Ismail Xavier foi orientado, na pós-graduação, pelos professores Paulo Emílio Salles Gomes, em dissertação de mestrado sobre as iniciativas de vanguarda no cinema brasileiro, e Antonio Candido de Mello e Souza, em tese de doutorado sobre a obra de Glauber Rocha. Também fez doutorado em Cinema Studies, na New York University, onde realizou ainda o seu pós-doutoramento. “A formação transdisciplinar de Ismail – engenheiro politécnico, cineasta-montador –, com dois doutoramentos, um em literatura brasileira na USP e outro no Film Studies Program da New York University, encara os cruzamentos que caracterizam um campo do conhecimento relativamente novo nas Universidades”, acredita Esther Hamburger. “A originalidade contundente da sua interpretação da obra de Glauber Rocha, aliada a potencia da própria obra do cineasta, inscreveram o Brasil na jovem disciplina mundial”.

“Ismail é hoje o mais importante teórico no campo dos estudos cinematográficos brasileiros,” disse Eduardo Morettin, ex-orientando de Ismail Xavier e que, durante a cerimônia, fez o discurso de saudação ao professor. Sobre a produção acadêmica de Xavier, Morettin explicou que são inúmeros os artigos do professor dedicados à análise fílmica, tomando-a como ponto de partida para entender a sociedade e a história, o que dá “dimensão original e produtiva na abordagem das relações entre arte e política”. Citou ainda diversos livros publicados pelo docente, entre eles Alegorias do subdesenvolvimento: Cinema Novo, Tropicalismo, Cinema Marginal (1993) e Sertão mar: Glauber Rocha e a estética da fome (1983), “obras fundamentais para entender a cultura brasileira dos anos 1960 e 1970”, ressaltou.


Maria Dora Genis Mourão, sobre Ismail: "Você merece este título, porque, além de tudo, você é um paradigma para o departamento, para a ECA e para tantos outros lugares. E sempre vai ser".

Ismail Xavier ingressou como professor na ECA em 1971, no antigo Departamento de Cinema, Teatro, Rádio e Televisão, hoje CTR. Sobre o período, Olga Futemma destacou a “disponibilidade absurda com seus alunos”, o que motivava nela e em outros estudantes a “vontade de estar, algum dia, a altura de seu conhecimento e capacidade de dedicação”, contou a ex-aluna de Xavier. “O Ismail é um homem generoso, sempre aberto a entender o seu interlocutor, a conhecer o seu universo. E essa abertura para o outro é um caminho de via dupla: o Ismail não tenta compreender o outro só para ensinar. Existe uma relação de troca, na qual ele também se alimenta e cresce com o próximo, num movimento constante de expansão do seu próprio saber”, disse Eduardo Mendes, que também foi aluno do Ismail Xavier na graduação.

Na pós-graduação, o professor colaborou com a criação, em 2010, do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais, após ampla reformulação dos programas de pós-graduação da ECA. Antes disso, Esther Hamburger contou que a pós-graduação em audiovisual era vinculada ao Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação e contava com um pequeno grupo de professores, liderado por Ismail e formado ainda por Maria Dora Genis Mourão, Rubens Machado Jr., Roberto Moreira, Eduardo Santos Mendes, Rubens Rewald, Arlindo Machado, Jean-Claude Bernardet e Henri Gervaiseau. “A pós-graduação era pequena e dispensava reuniões. Ismail simplificava os tramites para concentrar energia no trabalho intelectual”, lembra Esther.


 Eduardo Morettin destacou a importância de Ismail Xavier para a “formação de várias gerações de pesquisadores e estudiosos dos mais diversos temas”, mostrando-se um “intelectual sempre aberto ao debate”.

Fora da USP, Ismail atuou junto à coordenadoria de ciências humanas da Capes e ao comitê de assessoramento do CNPq. Participou também da coordenação da série de livros “Coleção Cinema, Teatro e Modernidade”, da Cosac Naify, e foi responsável pela reformulação da Revista Filme Cultura, do Ministério da Cultura. Colaborou fortemente na preservação do audiovisual brasileiro, atuando na coordenação do setor de pesquisa e documentação da Embrafilme e na Cinemateca Brasileira, participando de seu Conselho Deliberativo. “Ismail tem sido fundamental na trajetória da Cinemateca na busca da realização do seu potencial e de sua missão”, observou Olga Futemma.

“Eu me sinto honrado por esta outorga que muito me alegra e que fortalece o sentimento de missão cumprida”, disse Ismail Xavier. Em sua fala, o professor emérito lembrou ainda do seu ingresso na Universidade: “eu entrei na USP em 1962. Ou foi a USP que entrou em minha vida para nunca mais sair. Eu tinha de 12 para 13 anos quando entrei na Escola de Aplicação”, escola de ensino fundamental e médio da USP, à época vinculada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. “Foi uma experiência que mudou a minha vida [...] Eu tive ali uma experiência de cultura e de consciência social e política que eu nunca havia imaginado antes”, contou o professor emérito.

Atualmente, Ismail Xavier orienta teses de doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais e é presidente do Conselho Deliberativo da Cinemateca Brasileira. Também acaba de assinar a curadoria da mostra Brasil em Transe, em cartaz até o dia 30 de novembro no CINUSP, e está relançando, pela Edições Sesc, o livro Sétima Arte: um culto moderno, o idealismo estético e o cinema, há muitos anos esgotado. O lançamento, que inclui um bate-papo com o autor e o professor Carlos Augusto Calil, acontece no dia 1º de dezembro, às 19h30, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc.

Texto: Verônica Cristo
Fotos: Susana Sato