Mario Perniola: filósofo do sentir

Faleceu no dia 9 de janeiro, aos 76 anos, o filósofo e escritor italiano Mario Perniola, um dos grandes estudiosos da arte e da estética contemporâneas. Perniola foi professor na Universidade de Salerno de 1970 a 1983 e, mais tarde, na Universidade de Roma "Tor Vergata". Também foi professor visitante em várias universidades e centros de pesquisa na França, Dinamarca, Canadá, Japão, Estados Unidos, Austrália e no Brasil, à convite do Centro Internacional de Pesquisa Atopos, da ECA.

No texto a seguir, membros do centro de pesquisa relembram a trajetória do intelectual italiano e sua relação com a ECA:

 

Mario Perniola: filósofo do sentir

Detentor de um pensamento de aguda perspicácia, Mario Perniola marcou a filosofia contemporânea com um estilo próprio. Iniciou seus estudos na Universidade de Turim, aluno de Luigi Pareyson, um dos mais influentes estudiosos contemporâneos de estética, formando, com seus colegas Umberto Eco e Gianni Vattimo, uma geração de notáveis da filosofia italiana. Seu percurso foi traçado entre a academia e as vanguardas estéticas, do trânsito entre paisagens e o interesse por temas impuros que lhe renderam um lugar único no pensamento contemporâneo.

E talvez resida aí toda a sua genialidade. Distintamente daqueles muitos artistas que analisara em suas reflexões, do caráter acelerado e efusivo do grupo dos situacionistas de que ele mesmo fizera parte, ou mesmo da personalidade efervescente do amigo Guy Debord, Perniola optava pela observação, a ponderação, combinando sábias e breves intervenções com o olhar sempre atento que sua gentileza e serenidade insistiam em comunicar. É assim que nos recordamos dele em um de seus últimos momentos no Brasil, país pelo qual sempre teve uma grande admiração e presença, no qual aportou tantas de suas ideias, sempre com toda a generosidade que lhe sobejava.

Mario Perniola foi, mas ainda é – pois aquilo que está em trânsito nunca “parte” ou “chega”, mas vai “do mesmo ao mesmo” – filósofo de várias obras traduzidas no mundo inteiro. Livros como La società dei simulacri (A sociedade dos simulacros, 1980), Dopo Heidegger: Filosofia e organizzazione della cultura (Depois de Heidegger: filosofia e organização da cultura, 1982)  e Transiti: come si va dallo stesso allo stesso (Trânsitos: como se vai do mesmo ao mesmo, 1985), desafiaram os limites daquelas que se propunham como reflexões próprias da época – a exemplo de um Baudrillard –, fomentando um debate que buscava ressituar os papéis da filosofia, da cultura e das artes em uma sociedade de desintegração de antigos valores ligados sobretudo à moral e à religião.

É nesse ensejo que se sublinha em sua filosofia a rediscussão de temas até então pouco afeitos ao pensamento tradicional. “Sexualidade, morte, mundo”, subtítulo de sua coletânea Ritual Thinking (Pensando o ritual, 2000), com textos publicados nos anos 80, dá-nos uma ideia daquelas que seriam questões candentes em algumas de suas obras capitais como Del sentire (Do sentir, 1991) e Il sex-appeal dell’inorganico (O sex-appeal do inorgânico, 1994). Perniola fala-nos já ali de uma “era do sentir”, uma certa predominância dos afetos e das emoções como chaves promotoras da ação humana, característica que fenômenos sociais e políticos muito recentes a nós parecem colocar em relevo.

É também por aí que ganham espaço em sua reflexão temas como a contracultura, o pós-humanismo e, não menos, a comunicação contemporânea, expostos em obras como Contro la comunicazione (Contra a comunicação, 2004) e Miracoli e traumi della comunicazione (Milagres e traumas da comunicação, 2009). Suas últimas obras preenchem a sua vasta reflexão sobre a estética e as artes contemporâneas, obras como L’arte espansa (A arte expandida, 2015) e a derradeira Estetica italiana contemporanea (Estética italiana contemporânea, 2017). 

Perniola conhecia bem a ECA, a qual visitou ora como professor visitante, ministrando cursos sobre as temáticas das artes e da comunicação, ora participando como conferencista em simpósios organizados pelo Centro Internacional de Pesquisa Atopos USP. Sua última participação na ECA se deu no lançamento público da linha de pesquisa “Aoristos” do Atopos durante o I Seminário “Sentires em Rede”, realizado em abril de 2016.

Foi em um desses cursos, ainda no ano de 2005 – ocasião do lançamento no Brasil de seu O sex-appeal do inorgânico –, que as palavras do professor Perniola viriam a inspirar justamente o nascimento do então “grupo” Atopos. Aos bons momentos de convívio com sua pessoa e à potência de sua obra, expressamos nosso mais terno agradecimento.

 

Membros do Centro Internacional de Pesquisa Atopos

 

Foto de capa: Reprodução/Secolo d'Italia