Rede Sonora dá visibilidade ao trabalho de mulheres artistas

Na época de seu mestrado, Eliana Monteiro da Silva mandou um projeto para o Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia com a proposta de recital com obras de Clara Schumann, pianista e compositora alemã do século XIX. A programadora do museu sugeriu que Eliana tocasse no mês de julho, quando não havia cachê para os músicos, uma vez que as obras de Clara Schumann não despertavam tanto interesse quanto as de Frédéric Chopin, por exemplo. “Eu aceitei e toquei de graça”, conta Eliana.

Diante da necessidade de visibilidade e de diálogo sobre o trabalho artístico das mulheres na música, foi criada em abril de 2015 a rede feminista Sonora - música e feminismos. “O nome é do gênero feminino, é som, é escuta”, afirma Mariana Carvalho, participante da rede desde 2016; “seria talvez a ideia de tornar sonora a participação das mulheres na música, escutá-las.”

A artista explica que o grupo se constitui de diversas maneiras: “existe uma lista de e-mails que mantém discussões sobre gênero e feminismos. Ocorrem também encontros em São Paulo, no Departamento de Música (CMU) da ECA, que são sempre transmitidos on-line”, conta Mariana.

Os encontros no CMU são semanais e abertos para todos que tiverem interesse em participar. Há três atividades regulares: um grupo para estudos e sessões de escuta; a série Vozes, em que mulheres artistas são convidadas para falar de seus trabalhos; e a série Visões, na qual pesquisadores e pesquisadoras que atuam na área de gênero e feminismos são convidados para falar sobre o assunto. A rede Sonora também realiza projetos e ações de acordo com a necessidade, que são organizados por meio da lista de e-mails ou das reuniões operacionais.

Mariana recorda de uma homenagem-manifesto à Mayara Amaral, violonista e pesquisadora da obra violonística de mulheres, que foi vítima de feminicídio e latrocínio em 2017. “Divulgamos em nome da rede dois textos (de Eliana Monteiro da Silva e de Camila Zerbinatti), e também realizamos uma performance colaborativa no Congresso ANPPOM 2017 (Associação Nacional de Pesquisa em Pós-Graduação em Música), no mesmo horário em que Mayara, brutalmente assassinada, se apresentaria no congresso.”


Participantes da Rede Sonora em primeira reunião do ano no CMU. Foto: Divulgação/Rede Sonora

O dia 8 de março é o dia de luta das mulheres contra as discriminações que elas sofrem somente por terem nascido e serem socialmente identificadas como mulheres, segundo Claudia Lago, presidente da Comissão de Direitos Humanos da ECA. “As mulheres ganham menos que os homens e têm que trabalhar mais do que eles, por conta das questões de todas as jornadas de trabalho extra”, explica a docente. A partir disso, a professora falou sobre a importância dos coletivos na Universidade: “eles ajudam a disseminar perspectivas mais adequadas a respeito do que são a luta das mulheres, ajudam a acabar com certos preconceitos e a organizar as lutas das alunas, professoras e funcionárias.”

A professora também disse, em poucas palavras, o que é ser feminista: “basicamente, é perceber que não existem condições de igualdade entre homens e mulheres.”

As não-condições de igualdade na música foram evidenciadas em uma atividade elaborada pela Sonora durante a Semana de Recepção aos Calouros neste ano. “Pedimos a ‘elxs’ que escrevessem numa folha ao menos cinco referências musicais. Após constatarmos a presença baixíssima de mulheres nessas referências, pedimos uma nova lista, só de mulheres. O tempo para conclusão da proposta foi o dobro. Após isso, resolvemos colocá-las nos vitrais que estão na frente do departamento, fazendo um mural rápido que deu em torno de 200 nomes", conta Mariana.

Por fim, a artista ressalta a importância de uma rede feminista no universo musical e longo caminho a ser percorrido pela igualdade de gêneros nesta área. “Ano passado foi a primeira vez que teve uma peça de uma compositora na prova de ingresso na pós-graduação do CMU. Isso mostra que é possível chegar lá, ser compositora, instrumentista, ganhar salários iguais, ter seu trabalho reconhecido, enfim, existir e ser escutada como artista”.

 

Texto: Mirella Coelho
Foto de capa: Vanessa de Souza