Relatório da Comissão da Verdade esclarece história e vida na ECA durante o regime militar

Na última semana, o relatório de conclusão dos trabalhos da Comissão da Verdade da USP foi entregue ao reitor Vahan Agopyan. O relatório é composto por 10 volumes e contém documentos e relatos que buscam esclarecer violações aos direitos humanos ocorridas durante a ditadura civil-militar, de 1964 a 1985.

O volume oito do relatório, dedicado à ECA, possui 398 páginas e contém depoimentos de ex-alunos e professores. As entrevistas foram concedidas aos organizadores do relatório ou foram resgatadas do projeto Memórias da ECA, realizado em comemoração aos 50 anos da Escola.

Além de depoimentos, também há fichamentos individuais de pessoas que foram perseguidas pela ditadura, como Jean-Claude Bernardet, Thomaz Jorge Farkas e Paulo Emílio Sales Gomes.

Origens da Escola de Comunicações e Artes

A ECA foi criada em 1966. O reitor da época, Luís Antônio da Gama e Silva, que havia apoiado o golpe civil-militar, formou uma Comissão Especial para estudar a criação de uma Escola voltada para as comunicações culturais.

Em documento apresentado por esta comissão à Reitoria foram explicitados os motivos para a fundação da Escola. Uma das justificativas foi diversificar as oportunidades de ocupação de uma mão-de-obra frequentemente “agitadora”. Por isso, o projeto inicial da ECA foi de uma instituição mais técnica.

“Eles queriam que a ECA fosse um lugar de divulgação das ideias”, afirma a ex-aluna e professora Maria Dora Genis Mourão em seu depoimento.

Apesar de a proposta ter partido de um projeto político de direita, foi necessário recorrer a professores de outras faculdades, como a FFLCH, e a profissionais que não faziam parte da academia para colocar a Escola em funcionamento. Porém, muitas vezes, esses novos professores eram contrários ao regime militar.

O relatório conta que o primeiro vestibular foi em fevereiro de 1967 e que as aulas tiveram início em maio do mesmo ano. Como a ECA não tinha um espaço próprio, as aulas eram ministradas em um andar da Reitoria.

Em 1968, houve a primeira paralisação dos alunos. As pautas envolviam a falta de infraestrutura, crítica ao perfil técnico do curso e havia ligação com a resistência do movimento estudantil ao regime militar.

Luta pela democratização

Em 1972, Manuel Nunes Dias assumiu a diretoria da ECA. Diversos depoimentos apontam Nunes como simpatizante da linha-dura do governo e afirmam que o diretor passava informações dos estudantes aos órgãos de informação.

Nunes Dias havia proibido o Jornal Mural dos alunos, que insistiam em mantê-lo. O diretor exigia que um grupo se responsabilizasse pelo mural, mas eles afirmavam que o mural era coletivo e chegaram a apresentar uma lista de nomes com 400 assinaturas.

Outro episódio marcante do período foi a recusa da dissertação de mestrado e a demissão do professor Sinval Medina, que era responsável pela gráfica da Escola, de onde saíam publicações consideradas subversivas pelo diretor.

O impasse entre estudantes e Nunes culminou com a paralisação dos alunos para pedir a sua renúncia. Esta greve, ocorrida em 1974, de acordo com José Américo Ascêncio Dias, ex-aluno da ECA e depoente, se alastrou pelo movimento estudantil e esteve diretamente ligada à criação do DCE Livre da USP.

O diretor também foi acusado de impedir a criação de uma Congregação na ECA, a fim de concentrar o poder para ele. A Congregação é um órgão composto por representações diversas em que as decisões são tomadas em grupo.

A Congregação foi finalmente criada em 1975, mas as pautas dos alunos eram mais amplas: desejavam o restabelecimento das liberdades democráticas. "Não à toa, o movimento grevista iniciado na ECA é considerado por muitos o estopim de retomada do movimento estudantil, que havia sido fortemente golpeado a partir do AI-5", afirma em trecho do relatório a Comissão da Verdade da USP.


Primeira página do Boletim do Centro Acadêmico Lupe Cotrim, de 27 de março de 1975

Depoimentos

Fernanda Andrade Pompeu entrou na ECA em 1977 para o curso de jornalismo. Ela conta que era comum entre os alunos da ECA ser politizado e que o Centro Acadêmico Lupe Cotrim, naquele momento, tinha entre seus membros integrantes do movimento Liberdade e Luta (Libelu).

A ex-aluna afirma que a polícia não estava na ECA, não havia medo, a circulação era mais livre (sem catracas ou portarias) e lembra da Escola como “sonho de juventude”, pois os estudantes chegavam às 8h e iam embora às 23h.

Maria Dora Mourão confirma: “nunca me senti com medo, a não ser naquela vez que me mandaram parar de ensinar Eisenstein". Ela conta que, durante a diretoria de Nunes Dias, recebeu um recado para parar de ensinar Eisenstein, importante diretor soviético. Entretanto, em acordo com os alunos, decidiu que não pararia de usar o cineasta e nunca foi denunciada por eles.

“A gente não sentia medo porque sabia que tinha um apoio, tinha uma coisa forte por parte dos colegas. Ali havia um pacto. Como a maioria de nós [...] tínhamos sido alunos, então a gente sentia também um pouco o poder de ter criado a ECA“, afirma Maria Dora Mourão em depoimento.


Fotos dos alunos da ECA nos arquivos do DOPS

 

Texto: Mirella Cordeiro
Imagens: Relatório da Comissão da Verdade da USP