Com obra que aborda escravidão no Brasil, ex-aluno da ECA vence prêmio Eisner

Formado em Artes Plásticas pela ECA e mestre em Estética e História da Arte pelo Museu de Arte Contemporânea (MAC), Marcelo D’Salete acaba de ser premiado com o Eisner, na categoria de melhor edição americana da obra Cumbe. A premiação que aconteceu no último mês, durante a Comic Con San Diego, existe desde 1987 e é considerada a mais importante para as histórias em quadrinhos.

Em entrevista para o Laboratório Agência de Comunicação da ECA, Marcelo fala sobre o livro que iniciou com pesquisas e conta sua história com a arte dos quadrinhos.


Marcelo D'Salete é autor da história em quadrinhos Cumbe (2014). Foto: Rafael Roncato.

 

Mirella Cordeiro: Do que se trata o livro Cumbe?

Marcelo D'Salete: O livro Cumbe trata de histórias sobre o período colonial no Brasil, focando em personagens negros nessa história, escravizados, em muitos casos, e nos conflitos e litígios que, muitas vezes, eles tinham com os “senhores”.

O livro tem esse nome porque Cumbe significa “luz”, “força”, “chama”, que é sinônimo de “quilombo” em alguns locais. É uma palavra de origem do quimbundo, que é uma das línguas da região de Angola.

Também é um livro que tenta falar dessa população a partir de uma perspectiva bem específica, mas que eu considero essencial pra gente entender a história do Brasil como um todo. A gente não tem como entender essa história sem entender a participação de milhões de africanos e africanas que vieram para cá, que foram trazidos pra cá de modo forçado, dentro desse sistema da escravidão.

São mais de 5 milhões de pessoas que vieram para o Brasil, mais de 12 milhões de pessoas que vieram para o continente americano. E isso são os números oficiais, números bem modestos para a gente falar de tráfico de africanos. O possível número real disso é muito maior.

Como começaram as pesquisas?

Começaram há bastante tempo. Inicialmente, foram pesquisas sobre o quilombo de Palmares e acabaram se desdobrando em estudos sobre o Brasil colonial e sobre o sistema da escravidão.

Depois, eu fui percebendo que era preciso refinar esses estudos para casos bem específicos, envolvendo esses africanos escravizados e analisando caso por caso dessas pessoas. Isso dentro de uma área que a gente chama de História Social.

Além disso, para construir esses personagens, percebi que era muito importante ter mais elementos, culturas desses povos que vieram pra cá. Por isso foi importante pesquisar sobre algumas culturas tradicionais da região de Angola, para construir esses personagens da forma mais interessante e essas ficções de um modo que fossem dinâmicas, em termos de imagem, de texto, para uma leitura contemporânea sobre aquela época.

A partir disso, eu criei diversas histórias ficcionais – são quatro histórias no total – abordando aquele período, inspiradas nessas leituras sobre o período colonial, sobre povos de origem banto e sobre escravidão.

Além do Brasil, Cumbe já foi publicado nos Estados Unidos, na França, na Áustria, na Itália e em Portugal e, agora, foi premiado com o Eisner. Qual você acredita que seja o diferencial do livro?

Eu acredito que Cumbe, desde quando ele foi lançado aqui no Brasil, ele teve uma recepção boa. Com certeza, foi um dos livros que eu vi que o público tinha maior interesse. Pessoas que leem quadrinhos queriam conhecer essas histórias, pessoas que não leem quadrinhos estavam buscando esses livros pelo tema. E, quando se deparam com o modo como a história é contada e, imagino eu, não é um modo muito óbvio, mas que na verdade exige muito do leitor, se maravilham também com esse modo de contar.  

Livros de HQs mais históricos são, muitas vezes, acompanhados de longos textos e explicações contextuais. Cumbe tem narrativas em grande parte silenciosas, apostando em imagens e sugestões.

Acho que esse é o grande interesse pelo livro: um certo modo de abordar esse período e de contar essas histórias utilizando os quadrinhos e as potencialidades de criar sentido, criar ação, criar ritmo e um clima, a partir dessa junção de diversas imagens uma ao lado da outra.

O que significa ganhar o prêmio?

Penso que é um momento especial em que, no mundo, e, principalmente em países aqui da América – Brasil e também Estados Unidos –, que essa discussão étnico-racial está em voga.

Quando a gente pensa na questão de milhares de jovens que são mortos, alvos de ação policial etc., esses números, casos de assassinatos que estão acontecendo lá e aqui, chamam a atenção para a gente compreender um pouco mais desses conflitos e para rever a nossa história.

E aí obras como Cumbe, como Angola Janga, que é o meu último livro falando sobre Palmares, assim como Corra, que é uma obra cinematográfica excelente, e assim como discussões que já estavam acontecendo desde quando Spike Lee, numa carta, expôs isso falando sobre a ausência de atores negros e sobre o modo de atuar do Oscar americano que, muitas vezes, privilegiavam certo grupo.

Então é assim que a premiação de Cumbe, de certa forma, dialoga com esse histórico de fatos e discussões que estão ocorrendo na imprensa e nessas premiações também.

Qual sua história com os quadrinhos?

Trabalho com quadrinhos há bastante tempo. Tenho uma relação forte com esse tipo de mídia, desde uma questão pequena como eu e meu irmão em casa. E considero que é uma mídia muito rica, complexa e interessante para se falar de temas fortes como esse de história do Brasil e escravidão.

Acredito que os quadrinhos são uma mídia interessante e tão digna como outras para expressar narrativas, sentimentos, experiências nessa forma de imagem e texto.

Há outros trabalhos em vista?

Estou pesquisando outros trabalhos, vendo umas anotações antigas que eu fiz e juntando para talvez formar um roteiro. Mas, nesse ano, também cheguei a fazer alguns trabalhos bem especiais, esporádicos, de capas de livros. Fiz uma do O Cortiço, da Editora Todavia. Fiz uma capa de um autor que eu admiro muito, o Allan da Rosa, Pedagoginga, um livro em que ele fala sobre educação e sobre como utilizar essa experiência e presença negra que a gente tem no nosso país para repensar processos de formação e de educação.

Outros trabalhos de quadrinhos, outros trabalhos mais longos, ainda estou pesquisando.

Entrevista transcrita a partir de áudio enviado por Marcelo.

por Mirella Cordeiro