Em trabalho de aluno da ECA, fotojornalistas contam suas histórias de fotos perdidas

“Será que eu tenho que fazer uma coisa fácil ou uma coisa que pode dar mais trabalho, mas me interessa?”, perguntou-se Guilherme Speranzini sobre o trabalho de conclusão de curso. Seu projeto A Melhor Foto Que Eu Perdi, orientado por Wagner Souza e Silva e realizado durante seis meses, resultou em um podcast, alguns vídeos no Youtube, além de fotos de quatro fotojornalistas brasileiros reunidas em um site.

O TCC de Guilherme conta a história de como Juca Varella não conseguiu a foto desejada de PC Farias, como Paulo Pinto perdeu fotos na Copa de 98, porque Lalo de Almeida frustrou-se ao fotografar o novo Papa logo após a sua nomeação e como Roberto Linsker perdeu a oportunidade de fotografar, com exclusividade, José Sarney.

No memorial feito pelo jornalista, ele ressalta que as narrativas levantam pontos interessantes sobre o trabalho de fotojornalista: “os limites da ética, a velocidade da notícia, o trabalho em equipe, a competição com outros colegas, e muito mais.”


PC Farias morto e nu foi capa da Folha de São Paulo, mas não era a foto que Juca Varella gostaria de ter feito. Foto: Juca Varella

Idealização e estrutura

Todas essas histórias foram contadas em cerca de 39 minutos do podcast A Melhor Foto Que Eu Perdi. “Eu achei que o podcast levaria as pessoas a verem o material extra que estava no Youtube”, afirma Guilherme. Esta plataforma contém, além das histórias, a pergunta final que foi feita a todos os fotojornalistas: “você acha que perder fotos é uma coisa normal?”

“O Youtube poderia levar as pessoas a ver o podcast e ver o site. E o site é onde tá tudo reunido, inclusive a coisa extra mais legal: as fotos”. Esta foi a ideia de Guilherme.

Um trabalho feito com seus amigos do curso, em 2014, ajudou para a idealização do TCC. Na produção, eles reuniram todos os projetos do semestre – na época, eles cursavam aulas de rádio, vídeo e jornalismo online. “A gente bolou isso antes de começar o semestre e fez tudo com o mesmo tema. Era sobre a crise hídrica que teve em São Paulo em 2014”, lembra.

2000 e água foi um trabalho multimídia com boa repercussão e indicado a prêmio. “Foi um projeto que a gente cresceu fazendo, porque foi muito difícil. A gente não tinha noção de nada, a gente não tinha grana pra fazer nada e, no fim, acabou saindo um resultado bacana”, conta o aluno.

No entanto, era improvável que alguém consumisse o projeto do começo ao fim, pois esse processo demoraria uma hora ou mais. “Então, quando eu decidi fazer o TCC, fiz uma coisa multimídia, porque sempre tive interesse em unir várias coisas, e acabei desenhando o projeto de uma maneira que as pessoas possam consumir as partes dele sem perder a história inteira”, afirma Guilherme.

Por isso, ele usou de diversas mídias para o TCC, mas o podcast era a principal: “podcast é uma coisa que obriga a pessoa a imaginar, ela não tem o vídeo”, conta, “e como eu vou faria um documentário sobre uma foto que nunca existiu? Para mim, não fez sentido.”

Foto perdida

Apesar de nunca ter trabalhado como fotojornalista, Guilherme também tem histórias de fotos perdidas, como no dia em que ele conseguiu cobrir o Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu, mas, como tinha acabado de comprar a câmera, não sabia manuseá-la.

“Quando eu cheguei em casa, no fim do dia, as minhas fotos estavam um lixo. Além disso, eu tinha me comprometido a entregá-las a uma pessoa que tinha conseguido o acesso ao campeonato para mim”, conta o recém-formado.

A história de Guilherme aconteceu devido à inexperiência com a câmera, “não é como se eu tivesse azar”, afirma, lembrando de algumas das histórias de A Melhor Foto Que Eu Perdi. No entanto, ele acredita que este fato o motivou a melhorar e a treinar para não desperdiçar mais oportunidades como aquela. “Porque é uma situação vergonhosa. Dá um sentimento de desperdício muito forte ter uma oportunidade como essa, chegar em casa e ver que nada daquilo estava como você tinha imaginado na sua cabeça”.

Por isso o jornalista aconselha: “faça uma coisa que te interessa”, respondendo à pergunta inicial. “Acho que a gente (jornalista) tem o dever de contar histórias importantes ou contar histórias legais”, continua, “talvez o meu projeto não vá mudar o mundo, mas talvez ele vá motivar alguém a fotografar ou fazer alguém que era ruim, como eu, não jogar a câmera no lixo, mas continuar tirando foto”, afirma.

 

Texto: Mirella Coelho