Dissertação de pesquisadora da ECA vence Troféu HQMIX

No último sábado, dia 16, Beatriz Sequeira de Carvalho recebeu o Troféu HQMIX, conhecido como o Oscar dos Quadrinhos no Brasil, com a dissertação O Processo de legitimação cultural das histórias em quadrinhos. O trabalho, defendido em 2017 junto ao Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM), foi orientado pelo professor Waldomiro de Castro Santos Vergueiro, do Departamento de Informação e Cultura (CBD). “Quando eu recebi a notícia, foi maravilhoso, porque é o reconhecimento de um trabalho de mais de dois anos que demandou não só tempo, mas muita disposição, vontade e paixão pelo que eu tava fazendo”, conta Beatriz.

O objetivo da dissertação era pesquisar o processo pelo qual as histórias em quadrinhos passaram para sair de um produto sem valor cultural, na metade do século XX, para um objeto culturalmente valorizado, a partir da década de 1960. “Essa inquietação surgiu ainda na graduação, quando eu decidi fazer o meu TCC sobre a obra Maus: a história de um sobrevivente, de Art Spiegelman”, explica, “algumas pessoas disseram que esse objeto de pesquisa era cultura de massa, imperialista, e não caberia dentro de um TCC de Ciências Sociais”.


Beatriz Sequeira venceu o prêmio com a dissertação  Processo de legitimação cultural das histórias em quadrinhos, defendida junto ao PPGCOM. Foto: Henrique Sequeira de Carvalho

O processo de legitimação

“Existia o pensamento, na metade do século XX, de que cultura de massa não agregaria valor cultural ou intelectual de quem a consumisse”. Um dos motivos pelos quais isso aconteceu, segundo a pesquisadora, foi a obra Sedução do Inocente, do psiquiatra Fredric Wertham. “O livro dizia que os quadrinhos levariam à delinquência juvenil e ao fim da sociedade norte americana”, relata. Além disso, como os quadrinhos eram vinculados à cultura de massa, foram alvos da teoria crítica de Theodor Adorno e Max Horkheimer.

O processo de legitimação descrito por Beatriz Sequeira se deu por três momentos principais: “o primeiro momento chave é a década de 1960. Com o movimento intelectual europeu, que juntou escritores, pintores, intelectuais, foi difundida a visão de que quadrinho era um objeto cultural legítimo”, explica.

Esse movimento repercutiu nos Estados Unidos, com o movimento underground norte-americano. “Os artistas começam a produzir quadrinhos diferentes dos que estavam sendo produzidos, tanto no formato, quanto na temática”, afirma Beatriz, “sexo era proibido de ser dito, sobre drogas era proibido ser dito, política era proibido de ser dito nos quadrinhos por conta da censura gerada principalmente pela Sedução do Inocente”. Essas duas movimentações alteraram a percepção que existia sobre os quadrinhos.

O segundo momento foi a repercussão de Maus: a história de um sobrevivente. “Maus teve uma aclamação mundial como uma obra fantástica. Chegou aos olhos do público leitor de quadrinhos e do público não leitor”.

O último momento foi a entrada das graphic novels no mercado editorial: “essas obras tiveram papel importante nesse processo de legitimação porque trouxeram novas temáticas para o gênero. Isso levou a um novo olhar para potencializar os quadrinhos”, afirma. No entanto, Beatriz Sequeira critica o uso do termo graphic novels em que elas seriam as obras de excelência nos quadrinhos, enquanto outras obras não teriam importância.


Marcelo D'Salete, ex-aluno da ECA, venceu o troféu nas categorias Desenhista Nacional e Destaque Internacional. Foto: Daniel Azulay por Bete Faria

Luta pela valorização

Apesar desse processo, a pesquisadora diz que, ainda hoje, existe a ideia de que o quadrinho é um objeto cultural ilegítimo. Por isso, em seu doutorado, ela continua estudando a área: “Eu digo que o quadrinho só vai concretizar esse processo de legitimação quando houver o entendimento de que ele constitui um campo de produção cultural específico”, explica, “quadrinho é quadrinho. Não é literatura, não é artes plásticas, não é cinema.”

 

Texto: Mirella Coelho
Foto de capa: Gean Oliveira Gonçalves