Minissérie aborda atuação de ex-alunos da ECA no cinema brasileiro

No dia 21 de janeiro, o SescTV lançou a minissérie O Cinema Sonhado, dirigida por Ugo Giorgetti. A produção de quatro episódios dá um panorama do que foi o cinema paulista entre os anos 1963 e 1990, desde a crise com o fim da Vera Cruz, passando pela criação da Embrafilme, a participação da ECA no cinema paulista, até o fim da Embrafilme no governo Collor.

“A Vera Cruz foi a mais poderosa produtora brasileira”

Segundo Carlos Augusto Calil, professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), a Vera Cruz foi um grande empreendimento de Franco Zampari e de Francisco Matarazzo Sobrinho, responsável por trazer mão de obra europeia e por um parque de equipamentos e estúdios “como nunca tinha havido no Brasil”. “A Vera Cruz foi, de fato, um instrumento de modernização e de profissionalização do cinema brasileiro como nunca antes tinha havido”, afirma Calil, e “a falência dela foi o trauma do qual até hoje nós não nos recuperamos”.

Gravação do filme Tico-tico no fubá. Foto: Arquivo Companhia Cinematográfica Vera Cruz.

Além de o fim da produtora deixar diversos profissionais desempregados, a censura instalada pela ditadura também dificultou o trabalho no cinema e muitos diretores tiveram que trabalhar com publicidade. Foi com a criação da Embrafilme, em 1969, pelo governo brasileiro, que renasceu a esperança de produzir cinema. E, por isso, algumas produtoras surgiram no bairro do Bixiga. “A Embrafilme era uma empresa e, portanto, ela atuava no mercado. Ela distribuía os filmes brasileiros e confrontava, no mercado, com as empresas americanas”, esclarece Calil.

A ECA no cinema paulista e nacional

A partir de 1967, surgia outro polo cinematográfico em São Paulo: a Escola de Cinema da ECA. O terceiro episódio da minissérie conta com entrevistas de diversos ex-alunos que narram como decidiram estudar cinema: “Eu tinha escolhido jornalismo. Eram aulas chatíssimas”, explica Isa Castro. Até que, certo dia, entrou em uma aula do professor Paulo Emílio Sales Gomes: “eu fiquei encantada. [...] Eu falei 'gente, eu quero fazer isso aqui'".

Isa Castro é diretora do Museu da Imagem e do Som. Foto: Reprodução/SescTV

Paulo Emílio Sales Gomes ganhou destaque na série, todos os diretores que estudaram na ECA falaram sobre ele. “Todo mundo que conheceu sabe bem disso: você tem a sua vida antes e depois de conhecer Paulo Emílio Sales Gomes”, diz o ex-aluno Ricardo Dias.

Além de ter formado novos cineastas brasileiros, Ugo Giorgetti ressalta que Paulo Emílio foi responsável por a sétima arte constar na bibliografia da obra História da Inteligência Brasileira, de Wilson Martins. "O último volume traz um índice bibliográfico de quase 100 páginas. E, nesse índice, consta um livro, Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte, originária de uma tese do Paulo Emílio, e o ensaio Cinema: trajetória no subdesenvolvimento, também de Paulo Emílio”.

O último episódio é dedicado às produtoras que foram criadas ou que tiveram participação de alunos da ECA, como Gira Filmes e Tatu Filmes, na Vila Madalena. Com elas, alguns filmes foram reconhecidos com prêmios. Além disso, a Escola marcou presença na Cinemateca Brasileira. Ismail Xavier afirma que muitos ex-alunos foram trabalhar lá, “incluindo a Olga [Futema], que hoje é diretora”. A incorporação da Cinemateca ao governo federal também contou com o auxílio do ex-aluno e atual professor Carlos Augusto Calil.

Para conhecer mais a respeito da influência da ECA no cinema paulista, é possível conferir os episódios no SescTV todas as sextas-feiras, às 20h, ou por streaming no site.

 

Texto: Mirella Cordeiro
Foto de capa: Reprodução/SescTV