Como pensar o cinema atualmente

Tecnologia, realidade virtual e apropriação da linguagem cinematográfica compõem o que se chama de Pós-Cinema; tema será discutido no Fórum Cinemática II

 

Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Esse é o famoso bordão do consagrado cineasta Glauber Rocha. Quem dera fazer cinema fosse uma coisa tão simples assim. Além da genialidade, o diretor baiano tinha ao seu lado um cameraman de primeira linha, Dib Lutfi. Produzir um filme requer, claro, uma ideia. Mas muitas outras coisas também estão por trás.

E são justamente essas coisas que a professora Giselle Gubernikoff procura ensinar a seus alunos na disciplina Produção Audiovisual e Periféricos, ministrada em dois semestres no Departamento de Artes Plásticas (CAP).

No curso, a docente busca ensinar a linguagem do cinema, mostrando sua evolução ao longo dos anos. “Existem momentos na história do cinema em que as coisas surgem como própria necessidade de expressão. É só através do conhecimento da história que nós entendemos o que é cinema.”

Além disso, noções técnicas também são ensinadas, uma vez que os alunos, reunidos em grupos, produzem curta-metragens na disciplina. 

Foto: Mariana Chama

 

A professora, que tem carreira na área do audiovisual, percebeu a necessidade de ensinar um pouco sobre essa área tão ampla, que domina os meios de comunicação hoje em dia. Não apenas ensinar como apertar o botão “gravar”. Primordialmente, o objetivo da docente é mostrar como se dá a construção das narrativas. 

A criatividade é um elemento importante na realização de um filme, mas ela é apenas um de tantos outros fatores necessários. O audiovisual é primeiramente trabalhoso, depois criativo. Por isso, a importância de se organizar e saber tomar decisões em grupo. O aluno Chriss Cass conta que essa é uma parte que pode ser desafiadora, mas que se faz muito necessária para o aprendizado. Afinal, no mercado audiovisual, o trabalho nunca é individual. 

Pensando também no mercado, a professora Giselle conta que busca instrumentalizar o aluno para a prática profissional, que exige disciplina. “O mercado audiovisual é regido por normas e por formas de produção que todos os profissionais têm que aprender. E ele é extremamente rigoroso na aplicação dessas normas.”

A disciplina, assim, não se limita a alunos de Artes Plásticas e nem a alunos de Cinema. Ela é voltada para todos que tenham um interesse na área: seja para realmente produzir filmes ou falar sobre eles, fazendo críticas. Já houve alunos de Letras, Química, Engenharia Naval e muitos outros cursos em que a associação ao cinema não é tão clara.

O objetivo, afinal, segundo Giselle, é ensinar o pensar cinematográfico para o aluno. Mostrar que, ao fazer um filme, os realizadores tomam partido e fazem escolhas. Compreender esse universo não exige uma formação em específico, mas o interesse em entender o cinema. 

É também por isso que a disciplina não se restringe aos circuitos comerciais. Ou seja, há uma abertura para diversos tipos de produção e também para a experimentação. “No meu curso, existe um recorte do cinema como arte, independente de onde ele vai ser veiculado.”

O aluno Chriss Cass conta que buscou na disciplina um conhecimento que era demandado em projetos: “a partir do momento que eu desenvolvia as ideias na minha cabeça, tudo se passava como se fosse um vídeo, uma animação. Muitos projetos de performance demandavam um conhecimento audiovisual maior, e eu busquei na disciplina as bases desse conhecimento para desenvolver meu trabalho e também atuar em outros trabalhos, na área de direção de arte.”

A aluna Luiani Ferreira conta que foi muito interessante poder pensar a estrutura de um filme. Durante sua experiência na disciplina, ela pôde ser diretora de arte de um videoclipe, que valorizava espaços não tão frequentados da USP. 

 

Fórum Cinemática II: o que é o cinema hoje em dia?

Todas essas novas formas de pensar o cinema serão discutidas nos três dias de evento da segunda edição do Fórum Cinemática. O tema é “Pós-cinema e experimentação além da tela”, o que permite a discussão sobre como a tecnologia influenciou a linguagem do cinema.

Em suma, com a revolução das mídias digitais, a linguagem cinematográfica se expandiu para outros territórios que não só o cinema. De certa forma, cada área adapta o audiovisual ao seu escopo de trabalho. Um exemplo é a grande quantidade de filmes nas bienais de arte. 

“A linguagem cinematográfica foi se expandindo em termos de telas e funções e passa a ter uma função bastante artística dentro das artes plásticas”, diz a professora. 

A cinemática, que nomeia o fórum, é, portanto, a linguagem que não é mais cinematográfica, mas que passou por uma evolução a partir das mídias digitais. 

Sendo assim, ela está diretamente relacionada ao pós-cinema, definido pela docente como “tudo aquilo que trabalha com o audiovisual após a revolução do digital”.

A área está ainda em transformação, num período de discussões e estudos teóricos. Nesse sentido, o Fórum é de extrema relevância. O pesquisador da Universidade de Stanford Shane Denson, que estuda o pós-cinema de forma aprofundada, será responsável por ministrar uma conferência sobre o tema, no primeiro dia do evento. 

Além disso, o Fórum busca resgatar a vocação experimental da linguagem do cinema, que agora tem possibilidades ainda maiores. O surgimento da realidade virtual, por exemplo. A ideia de um espectador participante da narrativa não é mais simbólica. Já é concreta. 

O cinema não pode ser mais pensado da forma tradicional. A tecnologia revolucionou o modo de pensar as histórias e as possibilidades de interação do público com os filmes. De que maneira, exatamente, é um dos temas de discussão do Fórum, que acontece dos dias 8 a 10 de outubro na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM).

 

Texto: Maria Eduarda Nogueira

Foto de destaque: Kaique Rocha