Educação midiática tem poder transformador na vida de estudantes

Políticas públicas em São Paulo e no Rio de Janeiro são bons exemplos em levar essa transformação para as escolas

 

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” A premissa de Paulo Freire traduz muito do que é feito no trabalho de Educomunicação. Capacitar os jovens para entender e expressar o mundo ao seu redor é uma missão complexa, mas que os torna cidadãos ativos e comprometidos com valores democráticos. 

Nesse ponto, dois municípios do Brasil se destacam por suas atuações em prol da educação midiática: Rio de Janeiro e São Paulo. Esses dois pólos culturais e econômicos foram estudados por Elisangela Rodrigues da Costa em sua tese de doutorado, Educomunicação e políticas públicas: estudo comparativo de educação midiática entre as redes municipais de ensino do Rio de Janeiro e de São Paulo

Orientada pelo professor Ismar Soares, uma das principais figuras no mundo da Educomunicação, Elisangela visitou oito escolas, quatro em cada cidade, para investigar políticas públicas institucionalizadas de educação midiática. 

“Há um conjunto de fatores determinantes para que a política pública permaneça. Não é somente ela ser uma lei. É muito mais a ampliação da prática educomunicativa, que vai se tornando uma cultura dentro das unidades escolares a ponto de trocar os governos e elas permanecerem”, explica a pesquisadora. 

Um exemplo de política pública é a MultiRio, uma empresa de mídias educativas criada por meio de lei em 1993. Segundo o texto da legislação, o objeto social da produtora é “a promoção de ações educativas através da geração, produção e difusão de dados, sons e imagens”. Esse conceito relaciona-se profundamente com a mídia-educação, corrente teórica dos anos 1970 criada na Europa. 

Por outro lado, mais relacionado à educomunicação, está o programa Imprensa Jovem, desenvolvido em São Paulo desde 2005. Trata-se de um projeto de produção multimídia, em que os alunos participam de todos os processos de realização de uma pauta jornalística. 

Foto: Francisco Emolo

 

Porque essas políticas foram bem sucedidas em SP e RJ

Um dos fatores que deve ser levado em consideração quando se pensa em educação no Rio e em São Paulo é a grande influência de dois ícones da educação no Brasil: Paulo Freire, em SP; e Darcy Ribeiro, no RJ. 

Um aspecto apontado por Elisangela é que esses municípios tiveram o privilégio de ter pessoas comprometidas com a educação, que não se abalaram com a ditadura nos anos 60 e continuaram firmes com seus projetos de melhorar o ensino brasileiro. 

Atualmente, a educação midiática é vista com ainda mais importância, devido ao fenômeno de desinformação que ronda todas as esferas sociais e todos os níveis de ensino. São Paulo e Rio tornam-se referências para outras cidades, que passam a enxergar a necessidade cada vez maior das práticas educomunicativas. 

Nesse sentido, é importante que os projetos sejam sustentados por meio de leis e portarias, para que a mudança na administração pública não acabe com os programas iniciados. Em São Paulo, isso foi essencial para a continuidade das ações. “Muitos projetos que ainda não estão institucionalizados como política pública podem desaparecer”, diz a pesquisadora. 

 

Mídia-educação e educomunicação

Os dois conceitos teóricos têm um viés parecido, no sentido de que desejam formar um aluno que tenha consciência do seu direito à comunicação. Para Elisangela, “o conceito em si não vai limitar a importância do trabalho com a comunicação dentro da escola.”

De modo geral, a educomunicação não pode se resumir à implementação da tecnologia no ambiente escolar. É mais do que isso. “Passamos pela mediação tecnológica, mas o nosso objetivo maior é esse processo todo comunicativo”, explica a pesquisadora. Assim, é mais importante que o aluno entenda de que forma a comunicação se dá. “Porque é o processo que traz a vivência para esses jovens e é pelo empoderamento desses processos que temos o cidadão que possa exercer uma cidadania educomunicativa diante de uma democracia muitas vezes até um pouco fragilizada.”

O conceito de educomunicação tem raízes na América Latina. Em São Paulo, ele é ainda mais consolidado devido à atuação de instituições tais como o Núcleo de Comunicação e Educação (NCE) da USP. O professor Ismar Soares foi um dosresponsáveis por implementar práticas educomunicativas ainda no início dos anos 2000, quando foi convidado para participar de projetos na Secretaria Municipal de Educação. 

Na visão de Elisangela, “o município de SP desde sempre teve uma grande preocupação com a formação continuada docente para que a prática da educomunicação se perpetuasse.” Os cursos promovidos pelo NCE para educadores, por exemplo, ajudam na renovação, no aperfeiçoamento e na perpetuação da prática. 

No Rio, a existência da MultiRio é um dos pontos fortes, uma vez que valoriza a tradição cinematográfica forte presente na cidade maravilhosa. Em seu surgimento, a iniciativa contou com o apoio de David Buckingham, um dos maiores estudiosos de mídia-educação, que ofereceu formação aos professores participantes. 

Durante sua pesquisa, Elisangela foi cinco vezes ao Rio de Janeiro e percebeu um fenômeno interessante: nem sempre trabalhos de mídia-educação lá desenvolvidos carregam o nome de mídia-educação. Diferentemente de São Paulo, que já tem a nomenclatura de educomunicação bem estabelecida.

Foto: Divulgação/Multirio

 

Educação midiática para quê?

Além de ser uma forma de combate ao fenômeno da desinformação, as práticas de educação midiática têm efeitos importantes na formação de caráter e perspectivas de vida do aluno. Em suas visitas às escolas, Elisangela conviveu com diferentes cenários, como as comunidades de baixa renda.

Em lugares com muita vulnerabilidade e embates entre governo e criminalidade, os projetos de mídia-educação podem ser transformadores. “Aqueles que viviam dentro de comunidades relatavam o quanto a comunicação os libertava e os dava uma possibilidade de futuro. Fazia com que eles enxergassem de fato as realidades em que eles estavam”, comenta a pesquisadora. 

Hoje, esses projetos são formas de enriquecer o ensino, às vezes tão precarizado e desvalorizado no Brasil. Ao entender seu direito à comunicação, os alunos podem expandir suas fronteiras e se perceber na sociedade. Paralelo ao conteúdo de matemática, ciências e gramáticas, o que a educação midiática oferece é uma formação cidadã.

Em 2014, quando começou a pesquisa, Elisangela pensava as políticas públicas de educação midiática como importantes. Hoje, a pesquisadora as vê como essenciais. 

 

Texto: Maria Eduarda Nogueira

Foto de destaque: Francisco Emolo