Luiz Gama, Lélia Gonzalez e outros intelectuais negros que você precisa conhecer

Em evento realizado durante a Semana da Consciência Negra da ECA, pesquisadoras falam sobre seus trabalhos e sobre intelectuais negros ainda pouco conhecidos na Universidade

 

Compartilhar informações sobre saberes e intelectuais negros que ainda se encontram à margem da Academia e promover o encontro entre pesquisadores e estudantes dispostos a transformar essa realidade. Foram estes os principais objetivos do evento Regimes de visibilidade: cientistas e intelectuais negros que você precisa conhecer, realizado no Auditório Paulo Emílio na última quinta-feira, dia 21 de novembro, dentro da programação da Semana da Consciência Negra da ECA.

Primeira a falar, a professora e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) Marina Mello fez um breve resumo da sua trajetória acadêmica, iniciada com uma pesquisa sobre a imprensa negra paulistana, para explicar o seu interesse pelas negras e negros que escrevem. A identificação com estes intelectuais permite lidar com um sentimento de deslocamento que ainda hoje é vivenciado por muitos estudantes universitários negros no Brasil.  Hoje, trabalhando no campus de humanas da UNIFESP, onde existe uma grande quantidade de alunos negros, Marina percebe que eles “se sentem tratados com hostilidade por outros estudantes, funcionários e professores.”

Marina Mello, docente da UNIFESP. Foto: Amanda Ferreira

As experiências da pesquisadora como docente no Campus Ceará da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) também determinaram alguns de seus temas de pesquisa. Os estudantes de países africanos narravam como a interação com os brasileiros fazia com que eles se sentissem estereotipados, desprovidos de identidade nacional ou individualidade. Marina reproduz um comentário recorrente de alunas: “é impressionante como eu só me dou conta de que eu sou negra, do modo como vocês nomeiam, quando eu chego no Brasil, porque no Brasil eu deixo de ser guineense, eu deixo de ser moçambicana, eu deixo de ser angolana e passo a ser a negra africana”. Ao mesmo tempo, estudantes brasileiras que se definiam como “pardas” ou “amarelas” e que relatavam ter sofrido bullying na infância por causa do cabelo crespo demonstravam fascínio pelos penteados, roupas, palavras, culinária e outros aspectos culturais manifestados pelas colegas da África. Ao notar o misto de estranhamento e encantamento na relação entre os estudantes brasileiros e africanos, bem como as diferentes concepções sobre o que é ser negro, Marina desenvolveu estudos focados em jovens nativas de países africanos.

Cinthia Gomes, jornalista, integrante da Marcha das Mulheres Negras e da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (COJIRA) e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) falou sobre sua dissertação, que investiga a atuação de Luiz Gama na imprensa do século XIX. Baiano, filho da ativista, quituteira e escrava liberta Luísa Mahin, o advogado autodidata Luiz Gama dedicou boa parte de sua vida à libertação de centenas de escravos. Além disso, ele foi um prolífico orador, escritor e jornalista, tendo fundado em 1954 o primeiro jornal ilustrado do estado de São Paulo, chamado Diabo Coxo. Luiz Gama também colaborou para os jornais Cabrião, A Província de São Paulo (atual O Estado de São Paulo), Correio Paulistano, Radical Paulistano, Gazeta do Povo e Polichinelo, do qual ele se tornaria proprietário mais tarde.

Cinthia Gomes, mestranda do PPGCOM. Foto: Amanda Ferreira

Um dos aspectos do trabalho jornalístico de Luiz Gama destacado pela jornalista é o compromisso com uma representação do negro contrária aos ditames racistas. Luiz Gama atribuía aos personagens de seus relatos (muitas vezes escravos penalizados por fugas frequentes) características físicas e psicológicas positivas, ao mesmo tempo que fazia uso de referências culturais caras aos brancos, como a religião cristã, para enfatizar a humanidade dos negros escravizados e criticar a crueldade dos senhores e a própria escravidão. 

A representação da mulher negra na cultura ocidental foi objeto de reflexão de pensadoras como a brasileira Lélia Gonzalez e as americanas Patricia Hill Collins e bell hooks, que analisaram imagens estereotipadas de mulheres negras (mulatas, mucamas, domésticas, mãe preta etc) para entender, entre outros aspectos, sua função de dominação em uma cultura que busca desumanizar as pessoas negras e cristalizar seu lugar na sociedade. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA), Lygia Pereira articula o trabalho destas intelectuais na investigação que ela atualmente desenvolve sobre realizadoras audiovisuais negras no Brasil. “Busco investigar, numa perspectiva estética, quais as possibilidades de linguagens, temas, narrativas e modos de ver e viver o mundo que suas imagens apresentam, a partir de olhares negrxs.” A dissertação de Lygia estabelece, portanto, uma ponte entre o pensamento destas autoras e a produção de cineastas brasileiras contemporâneas como Everlane Moraes, Renata Martins, Yasmim Thayná, Beatriz Nascimento e Raquel Gerber, cujas obras se caracterizam pela presença de representações não-estereotipadas e pela abordagem de questões relativas à identidade e formas de resistência individual e coletiva das mulheres negras.

Lygia Pereira, mestranda do PPGMPA. Foto: Amanda Ferreira

Andrea Rosendo, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação Integração da América Latina (PROLAM), apresentou um resumo das contribuições de diversos teóricos que pensaram sobre o caráter eurocentrado do saber e apresentaram diferentes propostas para o reconhecimento de saberes oriundos da periferia do poder. Dentre estes intelectuais, merecem destaque a já mencionada Lélia Gonzalez, a também brasileira Sueli Carneiro, a afro-dominicana Ochy Curiel e a dominicana Yuderkis Minoso. Estas pensadoras chamam atenção para a insuficiência das teorias produzidas majoritariamente por homens e mulheres brancas em uma sociedade multirracial e multicultural, além de enfatizarem a necessidade de categorias do conhecimento que contemplem as especificidades das populações latino-americanas, marcadas desde a colonização do subcontinente por grandes tensões entre as identidades branca, indígena e negra.

Andrea Rosendo, doutoranda do PROLAM. Foto: Amanda Ferreira

Ao longo do debate, tanto as expositoras quanto a plateia abordaram a dificuldade que ainda enfrentam para trabalhar com estes autores na Universidade. Com frequência, suas obras, mesmo em inglês ou espanhol, não são encontradas nas bibliotecas e são desconhecidas do corpo docente, o que torna o trabalho destes pesquisadores ainda mais árduo. Lygia Pereira exemplifica: “os livros da Patrícia Hill Collins (Pensamento Feminista Negro) e da bell hooks (Olhares negros: raça e representação) foram traduzidos apenas este ano para o português e o livro de Lélia González (Lélia González: Primavera para as rosas negras) só foi publicado no ano passado graças aos esforços da União de Coletivos Pan-Africanistas (UCPA). São textos publicados originalmente nas décadas de 1980/90, mas que só estão se tornando acessíveis muito recentemente. Acredito que isso revela muito sobre a estrutura racial das universidades, do mercado editorial e de uma certa ‘elite intelectual’ brasileira.”

Embora reconheça que a situação ainda está longe do ideal, a professora do Departamento de Comunicações e Artes (CCA), Claudia Lago, afirma que já houve muitos avanços nos últimos anos, tanto na quantidade de estudantes negros na graduação e na pós-graduação quanto na disposição de professores para orientar trabalhos sobre raça, gênero e classe. Ela enfatiza, no entanto, que a renovação do referencial teórico da Academia depende fundamentalmente do esforço destes jovens pesquisadores. Lygia Pereira concorda: “mesmo que hajam negativas institucionais e políticas, vejo um grande número de eventos, pesquisadores e grupos de pesquisa dedicando-se a estudar e tornar visíveis autorxs negrxs, latinxs, indígenas e de outros grupos marginalizados socialmente. E acredito que este seja um ganho imensurável e irreversível para as universidades brasileiras.”

 

Foto do destaque: Amanda Ferreira