Os rumos do rádio em meio ao ecossistema midiático

Tese apresenta propostas para a reinvenção do rádio sem deixar de lado suas referências históricas
 
Estamos acostumados a pensar no rádio como um meio de comunicação. Mas existem pesquisadores que o consideram muito mais do que isso. Para eles, mais do que um meio ou mesmo uma linguagem, o rádio é uma instituição social, ou seja, um conjunto de formas culturais que se desenvolvem e adquirem respaldo histórico ao longo do tempo, fazendo parte de nossa construção como sociedade. A inquietação trazida por esta ideia foi o ponto de partida para a tese de Daniel Gambaro, chamada A instituição social do rádio: (Re)agregando as práticas discursivas da indústria no ecossistema midiático

Realizada no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA) com orientação do professor Eduardo Vicente, a tese se ancora em uma análise da história do rádio e no estudo de emissoras brasileiras e estrangeiras para compreender o estado atual da mídia e traçar possíveis caminhos para sua reconfiguração frente às possibilidades trazidas pelas novas tecnologias.

Como um dos primeiros e mais ostensivos veículos de comunicação de massa, o rádio desenvolveu ao longo de sua existência diversos formatos e abordagens para levar entretenimento e informação para o público. Esse cardápio variado de atrações constitui um conjunto de referências estéticas e históricas que se insere na cultura e influencia toda a sociedade. Tais características conferem ao rádio sua força institucional. Essa força, no entanto, também é responsável por criar o que o pesquisador chama de “formas enraizadas de produção”, que dificultam ou até mesmo impedem a renovação do rádio, sobretudo após o surgimento da internet e das mídias sociais. A queda expressiva de audiência verificada nos últimos quinze anos é um dos sintomas mais visíveis dessa verdadeira crise de identidade. 

Mas qual seria o lugar do rádio na atualidade? Para responder a essa pergunta, é necessário entender o conceito de Ecossistema Midiático, abordado na tese. Trabalhado por autores brasileiros e estrangeiros, também é chamado de Ecologia da Mídia ou Bios Midiático. De forma resumida, significa o conjunto de tecnologias de comunicação em que estamos inseridos como sociedade. Gambaro explica que a noção de Ecossistema Midiático nos ajuda a refletir sobre “como diferentes tecnologias interferem umas nas outras e interferem nas nossas vidas, e como nossa atuação como sujeitos dentro desse ambiente afeta essas tecnologias, incluindo o modo como elas são construídas e reconstruídas a partir dos nossos usos.”

O fato de vivermos em um ambiente no qual há uma interconexão cada vez maior entre diferentes meios e linguagens faz com que a circulação de informações se dê a partir desses diversos meios, e não mais apenas a partir de um. No que se refere ao consumo de conteúdo sonoro, Gambaro afirma que existe hoje uma multiplicação de experiências midiatizadas: “não é mais o hábito de escuta apenas que importa. Importa também a qualidade de como a pessoa chega a isso. A interface do aplicativo, a interface das mídias sociais, o tipo de contato que se trava quando se produz um perfil ou quando se coloca o conteúdo em um site que tenta ter a cara de um blog, como algumas emissoras fazem, sempre com atualizações constantes... Esse tipo de relação configura uma experiência para o ouvinte que vai muito além do áudio.”

Foto: site Mundo Positivo

Outra característica dessa nova relação com o público é o engajamento. E isso vai muito além do compartilhamento e dos comentários nos perfis de programas e emissoras em mídias sociais. A publicação de conteúdos complementares, como áudios ou vídeos extras, aplicativos, jogos, etc. ajuda a atrair o público e a construir uma relação mais próxima com ele, favorecendo o fortalecimento da marca da emissora e a fidelização da audiência. 

Embora essas tendências estejam em expansão, pelo menos no caso do rádio elas ainda são minoritárias, segundo o pesquisador. Serviços de streaming,  como o Spotify, e as emissoras de rádio voltadas para um público mais jovem são as que mais têm apostado nesse tipo de inovação, enquanto as demais iniciativas se mantém presas a um modelo de produção e distribuição caracterizado por um isolamento do ouvinte em relação ao conteúdo. Sites como o Radio Garden mostram que o rádio está presente na internet há muito tempo, mas simplesmente estar na rede não é o bastante. É preciso aproveitar as ferramentas de interação que ela oferece, adaptando a programação oferecida. 

Gambaro acredita que as transformações que a televisão vem sofrendo são um bom exemplo para repensar a produção de rádio. “A televisão teve que abrir suas formas narrativas pra criar complementaridades. A gente pode falar de transmídia, por exemplo, numa novela, mas mesmo programas de cunho jornalístico, documental, ou mesmo programas de variedades acabam utilizando suas interfaces na internet como formas de contato com o telespectador que são muito mais avançadas do que simplesmente enviar uma mensagem, que oferecem complementos do programa.” 

Olhar para a produção radiofônica estrangeira também revela outras possibilidades. Historicamente, o rádio no Brasil se caracterizou por uma programação mais ligeira, pensada para um ouvinte desatento, enquanto na Europa há uma tradição de programas jornalísticos com debates aprofundados, além de programas de ficção, de variedades e outros formatos que supõem um ouvinte mais atento. Talvez não haja espaço para este tipo de programa nas rádios brasileiras hoje, mas esse espaço pode estar nos podcasts, afirma o pesquisador.

O atual boom dos podcasts, aliás, reforça a atualidade do que Gambaro chama de “poder da voz”. “As pessoas estão baixando e ouvindo cada vez mais podcasts que não são musicais. Um dos grandes erros históricos sobre o rádio foi dizer que as emissoras viraram um grande vitrolão porque isso era bom. Isso pode ter sido suficiente até determinado ponto da nossa história, até os anos 90, começo dos anos 2000. Mas com a facilidade que eu tenho para ouvir músicas hoje, o que a emissora de rádio pode oferecer para este ouvinte, além da música?”

Campanha da BBC Radio 1, do Reino Unido, cuja programação é voltada para o público jovem. Destaque para os locutores. Foto: Mother Design

Para o pesquisador, a recuperação da importância e da autonomia do locutor, aliada à uma maior preocupação com pauta e roteiro, são caminhos que as emissoras brasileiras devem trilhar, entendendo-as não como um custo, mas como um investimento necessário. Hoje, a popularidade dos podcasts no Brasil e no mundo, além da audiência de emissoras em países como Espanha e Reino Unido atestam não só a revalorização da figura do locutor como também a permanência de formatos como talk shows e programas de humor. Assim, mesmo com as inovações trazidas pelas tecnologias digitais e pela conexão de diferentes mídias, formatos populares desde antigamente podem continuar a existir, ainda que de maneira adaptada ao contexto atual. 

Ao longo das décadas de existência do rádio, certos formatos de programas e formas de produção foram deixados de lado muitas vezes por razões econômicas. Como parte de conglomerados de mídia, muitas emissoras podem hoje, segundo Gambaro, “fazer parte de um novo momento do rádio, de uma nova forma de pensarmos a relação das pessoas com a mídia sonora, especialmente porque elas revalorizam alguns elementos da linguagem radiofônica que foram desvalorizados por um discurso que não conseguia ver uma alternativa de produção. Então a academia, quem pesquisa rádio, tem um papel muito importante, de tentar explicar para o mercado quais são as possibilidades, quais cartas essas empresas têm nas mãos hoje para fazer esse meio continuar sendo essa instituição que ele é: não só uma empresa, não só uma mídia, mas esse conjunto que a gente entende como rádio e que tem um valor de memória afetiva para muitas pessoas.”

 

Texto: Amanda Ferreira

Foto de destaque: Pixabay