Em franca expansão, nativos digitais ainda buscam estabilidade financeira

TCC investigou a sustentabilidade financeira de veículos jornalísticos surgidos após o advento da internet

 

As últimas duas décadas foram de mudanças drásticas para o jornalismo. Com o acesso cada vez maior à internet, principalmente após a popularização dos smartphones, muitos dos principais jornais do Brasil e do mundo limitaram as tiragens de suas edições impressas. Outros tantos já possuem somente versões online. Com a queda de vendas e de receita publicitária, redações foram fechadas e muitos jornalistas perderam seus empregos. A ascensão meteórica das mídias sociais – que trouxeram consigo as fake news – fez alguns decretarem o fim do jornalismo profissional. 

A pandemia de coronavírus mostra que o jornalismo segue existindo e é mais importante do que nunca. O perfil do setor, no entanto, não tem como ser o mesmo de vinte anos atrás. Veículos noticiosos nascidos na era da internet – os chamados nativos digitais – se encontram em franca expansão e vem ganhando um público cada vez mais fiel. Caracterizados pela experimentação de linguagens e de formas de distribuição das notícias, esses veículos representam uma lufada de ar fresco em um ambiente antes dominado por instituições centenárias. 

“Embora o surgimento de veículos digitais seja um respiro para a democratização da informação, contribua para a geração de empregos e traga novas possibilidades para o fazer jornalístico, nada disso é possível sem uma fonte estável de renda. É preciso dinheiro para fazer mais jornalismo.” É o que diz Fernanda Giacomassi, que em seu Trabalho de Conclusão de Curso buscou entender como os nativos digitais podem se sustentar financeiramente. Em formato de site-reportagem, o trabalho investiga os modelos de negócio destes veículos por meio de entrevistas e análise de dados. 

Uma das principais conclusões é que os nativos digitais ainda não chegaram a um modelo totalmente rentável, capaz de garantir a necessária estabilidade para o negócio. Ao contrário dos veículos tradicionais, que mesmo com operações na internet ainda tem na publicidade e no impresso sua principal fonte de renda, os nativos vem apostando em diversificadas formas de financiamento.  Elas incluem modalidades como crowdfunding, assinaturas e memberships, além do oferecimento, em alguns casos, de serviços e conteúdos não jornalísticos, como eventos e consultorias especializadas. 

 

nativojor-site-reportagem-de-fernanda-giacomassi-tcc-eca-uspImagem do site-reportagem desenvolvido por Fernanda Giacomassi em seu TCC de Jornalismo. 

Jornalismo de nicho e a relação cada vez mais próxima com o leitor

Essas formas de financiamento se apoiam em duas tendências do jornalismo digital. A primeira é o jornalismo de nicho, que, segundo Giacomassi, “foca em um tema específico com mais aprofundamento. Esse mercado mais especializado contribui para a cobertura de temas (ou comunidades) que antes eram deixados de lado pela mídia tradicional.”

A segunda tendência é a maior proximidade com o leitor, que também é um resultado da especialização da cobertura jornalística: “os veículos nativos conseguem criar uma comunidade de leitores, principalmente por se tratar de audiências menores e temáticas mais específicas. E pesquisas mostraram que leitores apoiam veículos que vão ao encontro de suas crenças e gostos pessoais, e gostam de participar ativamente na construção do jornal”, afirma a jornalista.   

Cientes disso, os nativos associam vantagens a diferentes opções de financiamento. De acordo com a modalidade escolhida, os leitores podem ter acesso a conteúdos exclusivos, descontos, eventos privados e até sugerir pautas para a redação. 

Outro resultado da especialização é o reconhecimento, que também pode ajudar a diversificar as fontes de renda. Um exemplo é o Jota, que tornou-se referência na área jurídica e hoje, além de fazer jornalismo, realiza consultorias para escritórios de direito e empresas. 

 

Formação do jornalista empreendedor é um dos principais desafios 

Muitos nativos digitais foram fundados por jornalistas que deixaram grandes redações nos últimos anos, demitidos ou por conta própria. Manter o próprio veículo jornalístico requer uma experiência de gestão que esses profissionais geralmente não possuem, já que antes estavam inseridos no contexto de grandes empresas jornalísticas, com equipes especializadas para cada setor do negócio. 

Segundo Giacomassi, a sobrevivência a longo prazo dos nativos depende da qualificação para o empreendedorismo: “o ambiente digital é extremamente mutável, aplicativos são criados todos os dias, algoritmos mudam, e é necessário revisitar constantemente tanto as decisões editoriais quanto as de negócio. Nesse sentido, é importante que estes veículos invistam na formação de suas equipes, e em profissionais específicos para a área de gestão e produtos, que vão pensar constantemente no negócio.”

Quando perguntada sobre o papel da Universidade neste cenário, a jornalista cita um de seus entrevistados, Ramón Salaverría, professor da Universidade de Navarra: “A mídia é refratária à mudança, e a universidade ainda mais”. De acordo com pesquisa da ONG Sembramedia, são poucas as instituições de ensino superior da América Latina que possuem disciplinas obrigatórias sobre empreendedorismo. 

“Acho que as universidades ainda focam muito no jornalismo impresso e audiovisual. A construção de disciplinas que falam sobre inovação ainda é incipiente. A pós graduação, por sua vez, já possui grupos de estudo específicos para a área. Um exemplo é o Grupo Com+, coordenado pela minha orientadora, a professora doutora Beth Saad. Mas é nítida a separação total entre o bacharel e a pós”, diz Giacomassi. 

A autora do TCC completa dizendo que há muita pesquisa sobre o jornalismo empreendedor no ambiente digital, mas que esse conteúdo ainda não tem chegado aos estudantes de jornalismo, especialmente os da graduação. Para ela, é necessária uma adequação das disciplinas a essa nova realidade. “Do lado dos nativos, muita coisa interessante está sendo feita. E existem muitas iniciativas que estão apoiando novos sites jornalísticos, o que dá a eles um potencial de crescimento grande.”

Para conferir o trabalho de Giacomassi na íntegra, visite o site NativoJor. Você também pode seguir o projeto no Twitter para saber outras notícias e novidades sobre os nativos digitais. 

 

Texto: Amanda Ferreira

Foto do destaque: Medium