Como a pesquisa pode amplificar vozes mais diversas?

Artigo analisa o estudo de movimentos sociais e o papel do pesquisador

 

Nas últimas semanas, uma onda de protestos contra o racismo tomou conta dos Estados Unidos e de outros países, incluindo o Brasil. Por aqui, também ocorreram manifestações contra e a favor do governo. Isso tudo em meio à pandemia de covid-19, o que demonstra a urgência com que determinados setores reivindicam suas questões, e também a importância do espaço público como palco (e às vezes arena) para a expressão dessas reivindicações.

É muito comum que membros de movimentos sociais apontem diferenças no tratamento dispensado por representantes do Estado e setores da imprensa a manifestantes, de acordo com a pauta que defendem. Um exemplo é o uso de termos, na cobertura jornalística, que levam o público a enxergar determinado tipo de protesto de forma negativa. Muitos argumentam que essas diferenças refletem e reforçam o imaginário associado aos detentores do poder, ao mesmo tempo que suprimem contestações à ordem tida como estabelecida.

“Minhas pesquisas estão ligadas com a questão da comunicação dos direitos e seu papel na formação de esferas públicas, e por isso a comunicação e os discursos em torno de movimentos sociais são fundamentais”, afirma Vitor Blotta, professor do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE). Em fevereiro deste ano, ele publicou na revista Leisure Studies um artigo sobre o estudo de movimentos sociais no Brasil e no Reino Unido, em co-autoria com Esther Solano, docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Ian Lamond, professor da Universidade de Leeds-Beckett, na Inglaterra.

Intitulado Leisure activism and engaged ethnography: heterogeneous voices and the urban palimpsest (Ativismo e etnografia engajada: vozes heterogêneas e o palimpsesto urbano, em tradução livre), o trabalho parte de conceitos elaborados por diversos pesquisadores do sul e do norte global para examinar as características dos protestos, sua relação com o espaço urbano e as formas com que pesquisadores lidam com essas temáticas.

A conclusão é que para contribuir com a expressão de perspectivas mais diversas, os pesquisadores devem adotar metodologias de trabalho menos canônicas. Uma possibilidade é a etnografia engajada, que procura substituir a dinâmica hierarquizada entre sujeito e objeto de pesquisa por uma relação horizontal entre pesquisadores e participantes.

Segundo Lamond, “da mesma forma que os monges apagavam e cobriam um texto anterior com a escritura de um novo trabalho (prática que deu origem ao termo 'palimpsesto'), o poder hegemônico apaga significados que se inscrevem no espaço de forma a desafiar a autoridade deste poder." Isso se dá pelo silenciamento das narrativas articuladas por aqueles que protestam ou pelo estabelecimento de uma narrativa alternativa, mais alinhada ao status quo.

“A etnografia engajada seria uma espécie de imersão nas histórias de vida e visões de mundo dos sujeitos sobre os quais se pesquisa, sendo que o próprio pesquisador também se insere como sujeito do processo de investigação. Além disso ela pretende promover eventos e acontecimentos de caráter disruptivo e transformativo, capaz de redundar em novas parcerias e ligações entre os sujeitos, ainda que só num nível micro. Em alguma medida ela se assemelha à etnografia participante ou o cinema etnográfico de Jean Rouch", complementa Blotta.

 

Jean Rouch e Edgar Morin conversam com participante do documentário Crônica de um verão

O sociólogo Edgar Morin e o antropólogo e cineasta Jean Rouch conversam com participante em cena do documentário Crônica de Um Verão (1961), realizado pela dupla. Os diretores são também personagens e o próprio processo de realização do filme é analisado pelos participantes.

 

Mas como isso acontece na prática? Para os autores do artigo, é preciso ir além de métodos como entrevistas e questionários, que se tornaram o padrão para muitas pesquisas no campo das ciências humanas. Abordagens como conversas em grupo e o uso de imagens e objetos como estímulo para o diálogo são algumas das práticas sugeridas. No entanto, somente o emprego dessas técnicas não garante uma dinâmica menos hierarquizada. Repensar o papel do pesquisador dentro do próprio processo de pesquisa é fundamental.

O pesquisador, por exemplo, pode abrir mão de um certo grau de controle ao delegar a seleção de imagens e objetos para os participantes. Ainda que torne o pesquisador mais vulnerável, isso reforça laços de confiança e pode levar a pesquisa por caminhos que não haviam sido previstos inicialmente. É possível também incluir os participantes no processo de interpretação dos resultados e avaliação final da pesquisa. Como os autores do artigo formulam, “ouvir, mais do que interpretar, torna-se o papel principal do pesquisador”.

Segundo Paulo Freire, converter participantes em co-pesquisadores pode produzir “conhecimento politicamente engajado”. Sem perder o rigor metodológico necessário, essa abordagem representa um compromisso com mudanças concretas e uma atenção a como os resultados do trabalho acadêmico podem servir aos próprios participantes e suas demandas.

Essa forma de encarar a pesquisa e o papel do pesquisador ainda não é hegemônica, apesar de estar alinhada com perspectivas críticas de acadêmicos do sul e do norte. A colaboração entre pesquisadores de diferentes origens e repertórios é uma das principais formas de ampliar o alcance deste tipo de experiência. É por essa razão que convênios como o existente entre a ECA e a Universidade de Leeds-Beckett são tão importantes, ao permitir o encontro de pessoas e saberes diversos, que por sua vez constroem novas relações e mais conhecimento.

“Na pesquisa, como no teatro, a colaboração precisa se basear em confiança, e confiança requer uma amizade que possa acomodar a honestidade. Essa honestidade começa com você mesmo, sobre seus pontos fortes e fracos, sem deixar de estar pronto para compartilhá-los com as pessoas com quem você constrói uma relação. Eu encontrei isso com o Vitor e a Esther e um número crescente de colegas nas duas instituições”, conclui Lamond.

Para ler o artigo na íntegra (em inglês), clique aqui.

 

Foto do destaque: Gibran Mendes