Arlindo Machado, pioneiro do pensamento sobre televisão

Autor de extensa obra bibliográfica, professor contribuiu para a formação de uma geração de pesquisadores e artistas

 

Faleceu neste domingo, 19 de julho, Arlindo Ribeiro Machado Neto, professor, pesquisador, crítico e curador de arte e tecnologia. Atuava no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR) e no Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA), além de ter integrado o corpo docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) de 1981 a 2013, onde ministrou aulas no curso de Jornalismo e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica. 

Arlindo Machado foi um pioneiro na pesquisa sobre televisão e mídias digitais no Brasil. “É uma pessoa que olhou pra televisão e reconheceu naquilo algo mais do que aquela velha celeuma de que a televisão não é arte, de que a televisão não tinha qualidade. Ele foi uma das primeiras pessoas a tocar o dedo nessa ferida. E isso não só com a televisão. Ele fez isso com o vídeo nos anos 80, quando o vídeo era um bebê caminhando”, afirma Almir Almas, atual chefe do CTR e ex-orientando de Machado no mestrado e no doutorado. 

Segundo Almas, o reconhecimento que Arlindo Machado dispensou para linguagens e formatos audiovisuais até então marginalizados foi fundamental para apontar os rumos da pesquisa sobre esses temas e para a formação de dezenas de pesquisadores e artistas. Sua extensa obra bibliográfica é uma importante referência para estudantes de audiovisual em diversas instituições, com destaque para livros como A Televisão Levada a Sério (2000) e Máquina e Imaginário: o Desafio das Poéticas Tecnológicas (1993).

Dono de amplíssimo conhecimento teórico, além de um enorme acervo de produções audiovisuais em distintos gêneros e formatos, Machado não tinha afetações acadêmicas. Seus interesses iam do cineasta russo Sergei Eisenstein a programas de TV como Chaves, passando pelos videogames e pela obra do célebre vídeo-artista Nam-June Paik, como lembra a também colega de CTR e ex-orientanda Patrícia Moran

 

Arlindo Machado em entrevista para o canal de youtube Sonhar TV

Imagem: Youtube/ Canal Sonhar TV

 

A ausência de afetação também era uma marca do seu estilo de escrita: direto e claro, por meio do qual Machado expressava um pensamento singular e sofisticado. Ainda na juventude, quando estudante do curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), a quantidade e qualidade da produção ensaística do futuro pesquisador já chamava atenção, incluindo, entre seus leitores, a professora e pesquisadora da PUC-SP Maria Lúcia Santaella Braga, que anos depois viria a ser sua orientadora. 

O amplo repertório intelectual e a clareza da exposição características do professor também marcaram ex-alunos, que junto com curadores de cinema e de outras artes lamentaram a partida do mestre

Arlindo Machado teve ainda um importante trabalho como curador, com destaque para sua colaboração com a Associação Cultural Videobrasil – fundamental para o estabelecimento do festival homônimo, o mais importante evento brasileiro dedicado à arte do vídeo – e com o Itaú Cultural (IC). Em 2013, junto de Fernando Cocchiarale, Machado foi responsável pela curadoria da exposição Waldemar Cordeiro: Fantasia Exata, que reuniu a produção de um dos mais importantes artistas concretos e pioneiro da arte eletrônica no Brasil. Realizada no IC, a mostra recebeu diversos prêmios, incluindo a premiação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), considerada a melhor exposição de artes visuais daquele ano. 

Machado também foi agraciado com o Prêmio Nacional de Fotografia da FUNARTE, em 1995, e o Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia em 2007. Tem uma obra autoral de seis filmes de curta-metragem em 16 e 35mm e três trabalhos de multimídia em CD-ROM. Uma de suas produções mais famosas é o curta O Apito da Panela de Pressão (1977). Obra dos tempos de estudante, realizada em 40 dias junto com Rubens Machado Júnior, hoje professor do CTR, e outros amigos da USP (o auto-denominado Grupo Alegria), o filme é uma referência para o movimento estudantil universitário.  

No ano passado, durante o último congresso da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine), Arlindo Machado lançou quatro livros. Segundo amigos e colegas, essa é uma prova da inquietação inabalável deste pesquisador, que, sem deixar-se abater pelos problemas de saúde que enfrentou em seus últimos anos de vida, discutiu ideias com entusiasmo até o fim. Para Almir Almas, falar sobre o pensava e o que produzia era o que tornava Arlindo Machado vivo. 

 

Confira neste link depoimentos de amigos e colegas sobre Arlindo Machado. Nos textos, professores, pesquisadores e artistas da ECA, da PUC-SP e de outras instituições evocam memórias e destacam o legado do docente. 

 

Texto: Amanda Ferreira

Foto do destaque: Youtube/ Canal Sonhar TV