Com a adoção repentina de tecnologias, pandemia abre caminho para abordagens experimentais na educação

Em entrevista, professor Richard Romancini, do Departamento de Comunicações e Artes, comenta desafios e perspectivas do uso de celular e outras mídias no ambiente escolar

 

O fim do primeiro semestre de 2020 se aproxima, e com ele surgem as primeiras avaliações sobre os impactos do ensino remoto, adotado no Brasil a partir de meados de março em decorrência da pandemia de covid-19. Da educação infantil à pós-graduação, estudantes e professores tiveram que se adaptar a uma nova rotina, com atividades de ensino totalmente on-line. A grande maioria da classe docente foi pega de surpresa: segundo pesquisa publicada em maio pelo Instituto Península, 83% dos professores brasileiros se sentiam pouco ou nada preparados para o ensino remoto.

Antes visto como vilão nas salas de aula, o celular tornou-se para muitos estudantes uma ferramenta tão fundamental quanto o papel e o lápis. Junto a computadores, aplicativos, internet e radiodifusão, os smartphones fazem parte das chamadas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). A adoção repentina e não planejada das TICs nas escolas vem repleta de desafios, mas pode contribuir para a superação de dificuldades e preconceitos quanto ao uso de ferramentas e mídias digitais no processo educacional. Para isso, é necessário que professores, diretores, pais e estudantes entendam que no momento não há certo ou errado, e que troquem informações sobre o que tem funcionado e o que deixa a desejar nesse contexto de transformação do ensino. É sobre esse e outros temas que o professor Richard Romancini, do Departamento de Comunicações e Artes, fala na entrevista a seguir.

 

De um modo geral, como você avalia o emprego das TICs no ensino antes da pandemia? 

A utilização das TICs dependia mais da competência e boa vontade individual dos professores. Aqui e ali há políticas de incentivo (ofertas de cursos de formação para professores e plataformas on-line complementares para docentes e discentes, por exemplo), no entanto, de maneira geral, o panorama era relativamente limitado, ainda que crescente – um exemplo é o uso, que se torna generalizado, da internet. Foi por isso, creio, que a repentina inviabilidade da situação de copresença de estudantes e professores em classes, no contexto da pandemia, se tornou uma situação tão angustiante e difícil.

 

E o momento atual, como você avalia? Já é possível afirmar que a adoção repentina das TICs representará avanços permanentes no ensino? Qual será o legado?

A situação que todos nós – professores, estudantes, pais, corpo administrativo das instituições de ensino – estamos vivendo não foi prevista, planejada ou desejada. Então, parece louvável a mera capacidade de criar ou manter situações de ensino aprendizagem, a partir de uma transição com tamanha rapidez. O ensino que se está oferecendo possui a mesma qualidade que antes? É provável que não exatamente, devido, em particular, à falta de um planejamento mais aprofundado. No entanto, creio que a situação está sendo válida não apenas para “não perder o semestre”, mas também para não perdemos relações sociais que, no contexto em que vivemos, se tornaram ainda mais importantes. Penso, em particular, no caso de muitas crianças e jovens que estariam limitados ao convívio com seus pais e familiares se não fosse o esforço dos sistemas educativos para se adaptarem a essa inesperada situação. Enfim, a educação possui também um sentido de socialização, ampliação de horizontes em termos de relações pessoais, que, de alguma forma, se manteve e, paradoxalmente, como disse, se tornou até mais importante na situação em que vivemos.

Precisaremos, nos próximos anos, de pesquisas para entender melhor, com mais acuidade, se essa adoção repentina das TICs pode ter impactos positivos na educação, sobretudo, quando a pandemia passar. Algumas hipóteses, em termos positivos, é que, ao forçar os professores e as instituições relutantes quanto ao uso da tecnologia a terem que experimentá-las, certos preconceitos e mitos podem cair. Assim, alguns professores podem perceber que não precisam ser grandes especialistas para fazerem um uso relevante de determinadas mídias em prol de sua prática pedagógica. Do ponto de vista das instituições, um exemplo é a própria USP, que era muito reticente quanto às bancas de avaliação dos trabalhos de pós com convidados de fora, on-line. Com o coronavírus isso teve que ser mudado e participei de uma banca de doutorado que utilizou uma plataforma digital, há pouco, e pareceu a todos que a experiência foi muito boa, principalmente para a candidata, que teve um professor mexicano, líder de pesquisa no assunto do trabalho, discutindo e debatendo sua tese. Todos ganharam. É claro, deve haver bom senso e reflexão para decidir quando algum tipo de mediação tecnológica é favorável, porém, a quebra ou abalo do “não consigo” – por parte de certos professores – e do “não pode” – por parte de algumas instituições – talvez venha a representar um legado do que estamos vivendo.

 
Quais são os principais desafios para adoção das TICs, tanto do ponto de vista tecnológico quanto pedagógico?

Infelizmente, questões de acesso (à internet, aos dispositivos tecnológicos), que se relacionam às profundas desigualdades do Brasil, são problemas de fundo para o uso produtivo das TICs na educação. Ao mesmo tempo, as mídias são o que nós fazemos delas. É uma constante histórica a ideia de que os meios de comunicação podem ter um impacto significativo, ou mesmo “revolucionar” a educação. Lembremos de Roquette Pinto que, já no final da década de 1920, dizia acreditar que o rádio poderia ser a “escola dos que não têm escola”. Com a televisão foi a mesma coisa e, com os computadores e a internet, mais ainda. No entanto, o que se vê até o momento é um uso ainda bastante restrito das mídias na educação. Por que isso ocorre? Talvez porque o forte caráter comercial, de entretenimento e de evasão da “cultura das mídias” se acomode mal àquilo que, tradicionalmente, pensamos que deve ser a educação, isto é, possuir concentração, foco, propósito sério e refletido. Como conciliar as demandas educativas ao panorama midiático e tecnológico que convida e valoriza a dispersão, a rapidez, a ludicidade e o descompromisso? Esse é o dilema de todo educador hoje em dia. Na discussão, aparentemente prosaica, se se deve permitir que os alunos usem ou não o celular durante as aulas, o pano de fundo é esse. Bem, agora todos devem usar o celular. E o que está acontecendo? Não sabemos exatamente, pois o experimento ainda não acabou, de modo que todas as avaliações são prematuras. No entanto, o desafio da conciliação entre um ambiente sociomidiático com valores que, até o momento, se associam mal, ou são até mesmo contraditórios, com a lógica educacional continua e continuará ainda, muito depois do término da pandemia. Falo de “conciliação”, mas também, muitas vezes, o que há entre os meios e a educação se situa nos termos de um confronto ou debate necessários. Pensemos, por exemplo, nas questões que envolvem a desinformação (dos quais o fenômeno das fake news é apenas uma dimensão) no ambiente on-line. Parece que hoje uma educação que não se volte para esse tema se torna menos relevante.

 

estudante usa laptop sentada em sofáFoto: Pollyana Ventura/ Getty Images

 

Como os educadores podem produzir conteúdos que garantam o engajamento on-line dos estudantes, em um ambiente de competição com outros estímulos (sites, redes sociais, games etc.)?

Certamente isso não se dará replicando a mesma lógica da sala de aula tradicional, pois isso não funciona bem – conforme muitos já sabíamos e outros estão descobrindo agora –, mas ao mesmo tempo sem querer fazer o mesmo tipo de conteúdo que os profissionais da mídia elaboram, tendo em vista não apenas a dificuldade intrínseca disso, mas também o possível caráter contraproducente dessa operação. Ao adotar de maneira mal sucedida a lógica de entretenimento da mídia, os educadores podem produzir o chamado “sorvete de espinafre”. Ou seja, um conteúdo que parece um sorvete, mas que tende a ser rejeitado, pois, na comparação com o sorvete verdadeiro, está muito aquém. Creio que nesse momento emergencial da pandemia muito sorvete de espinafre pode ser aceito, a partir da boa vontade dos estudantes. Mas isso é insustentável e contraproducente a longo prazo. Então, um grande desafio é o de encontrar formatos interessantes e adequados para produzir aquela combinação entre a lógica da mídia e da educação, que falei antes. A atenção a certas experiências aparentemente bem sucedidas, por exemplo, dos “professores youtubers” pode ser útil. Mas, é claro, procurando respeitar estilos de docência de cada educador, bem como interesses e possibilidade de diferentes turmas. Por outro lado, e acho isso positivo, devemos e podemos valorizar mais a aprendizagem do que o ensino, isto é, estimularmos uma atitude mais ativa (investigativa, reflexiva e criativa, com uso da internet e outras tecnologias) por parte dos alunos, tentando, por assim dizer, torná-los ainda mais corresponsáveis pelo processo educativo. A relativa proficiência que os estudantes têm em relação à mídia pode ajudar nesse ponto, ressalvadas, é claro, as questões dos contextos de acesso e possibilidades de uso das tecnologias pelos alunos.

 

Quais são os principais fatores que devem ser levados em conta pelos educadores ao aderir às TICs? E quais costumam ser os principais erros?

Creio que a capacidade de autocrítica, vontade de experimentar e resiliência são, num primeiro momento, bastante importantes. Talvez nem tudo que um educador faça seja, já de saída, muito bom, mas se ele consegue avaliar o que fez, em outra circunstância pode melhorar e, progressivamente, se sentir mais à vontade para experimentações que levem em conta a percepção sobre o quão positivas foram as inovações. Há dois erros comuns: o primeiro é não levar em conta as especificidades do ensino com tecnologias, tentando, simplesmente, espelhar as práticas pedagógicas da sala de aula tradicional. Como disse, na situação atual, isso é até aceitável para os alunos, mas não é muito estimulante ou produtivo a médio e longo prazos. O segundo erro é não perceber que o ensino com tecnologias tende a ser mais trabalhoso e o educador pode se envolver facilmente num processo de trabalho bastante desgastante para ele mesmo e para os próprios estudantes, resultando numa perda de qualidade da educação.

 

Quais são as medidas necessárias para mitigar as diferenças no acesso à internet e a tecnologias de ensino no Brasil? 

Creio que a universalização da internet para os estudantes de menos recursos, associada a planos de doação ou empréstimo de equipamentos mínimos para o seu uso, é algo que a pandemia colocou na agenda da discussão educativa atual, de modo a tornar a experiência pedagógica mediada por tecnologias mais igualitária.

 

Texto e entrevista: Amanda Ferreira

Imagem de destaque: Brenno Carvalho/ Agência O Globo/ Arquivo